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A entropia negativa e o homo-stupidus

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Leões nascem com condições de crescer nas planícies africanas e lagostas na água salgada. As pessoas nascem para interagir com outras pessoas. Uma pessoa se apequena quando se esquiva da responsabilidade de interagir com outras pessoas, fixando sua atenção apenas em seus objetivos. Portanto, não é a altura, nem o peso e nem os músculos que tornam uma pessoa grande. Uma pessoa se agiganta quando, além de buscar alternativas para o seu crescimento, também se preocupa e participa dos sonhos das pessoas ao seu redor. Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.

Hoje nós não caçamos para obter comida como as lagostas ou os leões; nós a compramos de pessoas que, por sua vez, adquirem os alimentos de outras pessoas. Nós "nadamos" num "mar de pessoas". Assim como leões e lagostas têm o necessário para sobreviverem em seu meio, para viver nesse "mar de gente" precisamos de ordem. O que é ordem? É uma estrutura não gerada ao acaso, com regras, ações e reações. O ser humano precisa da estabilidade, de direitos e deveres, quer previsibilidade. Ninguém deseja viver na desordem, onde a lei e a propriedade não são respeitadas e onde a vida é ameaçada a todo momento. A ordem preserva a vida, a posse e os contratos. Se não for assim, quais seriam os motivos de estudarmos, trabalharmos, casarmos, termos filhos, enfim, vivermos?

A sociedade existe hoje da forma como está, plena de gente, graças à estabilidade climática e a interferência maciça na natureza. Sem a agricultura, o uso intenso da tecnologia e o avanço da medicina, populações humanas teriam permanecido minúsculas e a maioria de nossos ancestrais jamais teria nascido.

Ao longo da maior parte da existência humana, a escassez foi uma realidade que, talvez, justifique a avareza, o comer demais ou o consumo exacerbado dos dias de hoje. A escassez, atualmente, não pode ser definida como uma falta, mas como desejo de consumo. O jovem executivo que compra um carrão potente por status e pelo prazer de correr, além de ter "fetiche por mercadoria", se apresenta como a versão moderna da necessidade de fugir de predadores ou de ir ao encalço de alguma presa. Tem o mesmo fetiche o adolescente que gasta seu primeiro salário com eletrônicos, roupas e tênis de grife que valem juntos o dobro do que recebeu. Não compramos por utilidade, mas para garantir algum sentido a nossa existência. Nosso apetite não é por bens de consumo, mas por prestígio e poder que, em última análise, estão camuflados por trás desses objetos.

A explosão populacional aumentou o impacto dos seres humanos sobre as demais espécies, sobre a atmosfera, os mares e a superfície da Terra. Isso requer novos padrões de adaptação e novos tipos de percepção, pois o rumo natural de uma espécie que destrói seu ambiente é a extinção. Precisamos inventar novas formas de convivência e aprender a ter limites, moderação, menor prole e a aceitar nossa própria morte que aparenta ser a fronteira final, uma barreira intransponível, mas também ela é, apenas, uma etapa na construção do relacionamento do homem com seu Criador, em um longo processo de maturação.

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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