Política

DAE recorre a mais caminhões-pipa

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 6 min

O problema crônico no abastecimento de 10 bairros, agravado pelas altas temperaturas dos últimos dias, levou o Departamento de Água e Esgoto (DAE) a buscar mecanismos para ampliar em 54% o serviço de caminhões-pipa para minimizar o sofrimento da população. A autarquia recorreu ao Corpo de Bombeiros, pedindo a cessão de equipamento com capacidade de 20 mil litros, mas talvez seja obrigada a alugá-lo na iniciativa privada em caráter emergencial, com dispensa de licitação.

Tudo depende da avaliação que técnicos do DAE farão na manhã de hoje sobre as condições do tanque do caminhão-pipa dos bombeiros. “É preciso saber se não há ferrugem no interior que possa prejudicar a água e causar um problema de saúde”, explica o presidente Giasone Candia.

Comandante da corporação em Bauru, o coronel Rogério Gago confirma a disponibilidade do caminhão-pipa ao DAE e garante que a cidade não ficará desguarnecida para casos de emergência. “Temos outros caminhões que dão conta no primeiro momento, além de condições para reabastecer e deslocar o maior rapidamente”.

Caso o veículo dos bombeiros não atenda aos requisitos necessários para abastecer a população com água de qualidade, a opção será a locação emergencial. Giasone diz que a autarquia já fez duas cotações e, nesta quinta-feira, fará a terceira exigida pela legislação para viabilizar o aluguel sem licitação.

Estão à disposição do DAE atualmente três caminhões-pipa com 8 mil litros de capacidade e outro de 13 mil, cedido pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma). “Usamos onde há desabastecimento, mas não está sendo suficiente”.

O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) também colocou a administração direta à disposição para alugar caminhões-pipa, “por se tratar de uma situação de emergência”.

Na região

A autarquia garante que a adição de um tanque com 20 mil litros de água é suficiente para suprir o déficit do reservatório IX de Julho, que abastece a 27.500 habitantes dos bairros Fortunato Rocha Lima, Parque Jaraguá, Parque Santa Edwirges, Jardim Petrópolis, Parque Roosevelt, Jardim Progresso, Gerson França, Parque União, Jardim Rosa Branca e Jardim Vânia Maria.

“O problema crônico está concentrado lá, especificamente nas partes mais altas para as quais não há pressão suficiente. A população tem todo o direito de reclamar. Eles têm razão. Não dá para ficar sem água, principalmente nesse calor. Mas nós estamos fazendo o possível e o impossível”, afirma Giasone Candia.

O presidente do DAE esteve reunido, na última terça-feira, com o vereador Roberval Sakai (PP). O parlamentar cobrou da autarquia plano emergencial para suprir o problema na região e sugeriu a locação dos caminhões-pipa e o pedido de socorro ao Corpo de Bombeiros.

Ontem, Sakai visitou os bairros mais afetados. “O presidente gostou das sugestões emergenciais. Mas, agora, precisamos de um plano para garantir o abastecimento a todos os bauruenses. O poço do Roosevelt vai ajudar, mas não temos garantia de que ele vai resolver o problema da falta de água”, diz Sakai.

Com panelaço e queima de pneus, moradores protestaram contra a falta d’água no Parque Jaraguá, na última terça-feira.


Solução para dezembro

Em setembro deste ano, teve início a perfuração do poço Roosevelt III, que terá vazão de 200 mil litros de água por hora. A obra é a promessa do DAE para o fim do problema crônico no abastecimento dos 10 bairros que dependem do reservatório IX de Julho. A previsão é de que o equipamento comece a operar em dezembro.

O reservatório da região recebe água dos poços Roosevelt II, Jaraguá, Distrito III e Gasparini. Esses quatro poços produzem, atualmente, 293 mil litros de água por hora. Até setembro do ano passado, no entanto, o volume chegava a 424 mil litros.

Naquele mês, o revestimento de aço do Roosevelt II, com vazão de 200 mil litros por hora, se rompeu, permitindo a entrada de areia no sistema e, consequentemente, travamento da bomba. Cinco dias depois, ele voltou a operar de forma provisória após conserto paliativo, produzindo 105 mil litros por hora. Atualmente, a capacidade é de apenas 69 mil litros.

Após consulta ao Departamento de Águas e Energias Elétricas (DAEE), órgão gestor dos recursos hídricos do Estado de São Paulo responsável em atender os municípios na elaboração de estudos e projetos, foi apontada a necessidade de perfuração de um novo poço no local – o Roosevelt III -, em substituição ao existente, com o intuito de ampliar a capacidade de abastecimento na região.


Equilibristas de baldes

Enquanto a solução não vem, moradores do Jardim Petrópolis fazem malabarismo para viver sem água. O problema é constante e vem de muitos anos, apesar de ter sido agravado nos últimos 12 meses. A doméstica Gedalva Aparecida dos Santos, 57 anos, não esquece do último Natal. “Não tivemos como fazer nada. Foi o pior fim de ano de todos. Nem banho conseguíamos tomar”.

Ela vive com mais 10 pessoas em uma pequena casa. Entre elas, o neto Andrei Ribeiro, de apenas 1 ano. “Ele fica muito estressado com o calor e não tem como a gente dar um banho durante o dia. É muita gente”, conta a mãe da criança, Vanessa Fernandes de Oliveira, 40 anos.

Segundo a dona de casa, a família economiza a água que chega por volta das 4h30 da manhã para que todos possam tomar banho à noite. “Além disso, só mesmo para cozinhar. A louça fica muito tempo na pia e a máquina está cheia de roupas sem lavar”.

O vizinho Alex Henrique, 31 anos, está construindo uma casa de alvenaria em frente à de madeira onde vive atualmente, mas conta que as obras estão em ritmo lento em razão da falta d’água.

“Ou uso a água para o serviço ou tomo banho. O pouco que chega ainda procuro dividir com o pessoal que mora perto e tem crianças em casa. Não dá para negar água”.


 

Torneiras secas na zona Sul

Bem distante do Jardim Petrópolis, a dona de casa Iracema Húngaro Comini também ficou sem água nesta quarta-feira. Ela mora no Jardim Planalto, na zona Sul de Bauru, e conta que o problema é recorrente. “Pelo menos uma vez por semana acontece e olha que eu tenho uma caixa d’água de mil litros”.

O Departamento de Água e Esgoto (DAE) confirma que, na manhã de ontem, o nível do reservatório do Shopping, que recebe água do poço Nações 2, e abastece população estimada de 9.500 pessoas, estava na metade do ideal.

A altura da água estava em 80 centímetros, sendo que a ideal deve variar entre 1,5 e 2 metros. Outros bairros prejudicados foram Jardim Panorama, Jardim Progresso, Vila Regina, Vila Universitária e Jardim Infante Dom Henrique.

A autarquia atribui o baixo nível do reservatório ao aumento do consumo, ocasionado pelas altas temperaturas. De acordo com a assessoria de imprensa do DAE, o abastecimento na região seria normalizado na noite de ontem por meio de manobras no sistema de distribuição de água, para que o reservatório Shopping recebesse água do poço Nicéia e do reservatório Praça Portugal.

João Rosan

Com baldes vazios, Alex Henrique parou construção de casa no Jardim Petrópolis

 

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