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Preso fino é outra coisa

Alfredo Enéias Gonçalves d?Abril
| Tempo de leitura: 3 min

A grande maioria dos brasileiros, descrente que os poderosos condenados pelo mensalão jamais fossem presos, ficou perplexa com o desfecho do complicado processo, e a minoria da galera que apostava na execução da sentença condenatória teve a grata surpresa, no feriado dedicado à Proclamação da República. A minoria da galera que acreditava no êxito da fase de execução do processo agitou-se com a grandeza do Judiciário, mostrando que a justiça penal é a mesma para todos.

No feriado nacional da República, o presidente do Supremo Tribunal Federal trabalhou com os assessores na expedição de ordens de prisão contra os 12 condenados em definitivo, fazendo os documentos chegarem sem alarde, como é o aconselhável, até a Polícia Federal para iniciar a procura deles. Foi um trabalho dos mais fáceis porque a exceção de um dos condenados, os demais devidamente orientados pelos advogados não ofereceram reação, ao contrário, apresentaram-se espontaneamente à custódia policial. Era de se imaginar que o mineiro que abastecia os corruptos com dinheiro, apenado com mais de 40 anos de cadeia, iria seguir o destino do médico estuprador Roger Abdelmassih, condenado a 278 anos de prisão, escafedendo-se do País, mesmo com o passaporte entregue à Polícia Federal exatamente para que a fuga não acontecesse. De nada adiantou aquela precaução, sabido da facilidade em atravessar a fronteira seca com alguns Países e, dali para outros continentes, o dinheiro cuida do transbordo com destreza. Mas quem encampou a ideia do médico foi o diretor do Banco do Brasil, que há 45 dias se mandou para a Itália.

Longe desse vaticínio, os 11 réus desfrutando boa saúde financeira tiveram comportamento digno de gente fina e educada. Empunharam as malas contendo todo o necessário a mudança radical de vida e foram direitinho para as celas em Brasília e em Belo Horizonte. Teve companheiro que chegou até vibrar o braço erguido e punho cerrado gesticulando altaneiro para uma minguada torcida que ainda o tem como honesto e injustiçado. Dois desses réus foram confortados por telefonema do ex-Presidente da República com palavras enigmáticas: "Estamos juntos". Não se sabe se elas foram proferidas em solidariedades aos companheiros ou, anunciaram que num futuro próximo eles terão sua presença na mesma convivência.

As longas sessões de julgamento do mensalão projetaram ministros bem preparados para a tomada de decisão reconquistando o bom conceito do Judiciário ao fazer justiça sem distinção de pessoas. Juízes estudiosos com seguro conhecimento dos intrincados fatos e absoluto domínio técnico para colocar os réus na moldura legal, invocaram até doutrina do direito estrangeiro para dar aos corruptos o merecido castigo. Dentre os Ministros responsáveis por essa vitoriosa batalha da sociedade, avulta-se com indiscutível prestígio o presidente do Supremo Tribunal Federal, e, ao lado dele, a figura serena do competente do procurador Geral da República.

Não fosse a esplêndida atuação de ambos, o resultado do mensalão espalharia no ambiente o cheiro da pizza alardeado pela maioria, causando frustração da minoria que acreditava na recompensa ao esforço, dedicação e desgaste de Joaquim Barbosa nos debates com seus pares. Esse ministro foi o contrapeso a impedir o desastre da absolvição, fazendo das sessões de julgamento, geralmente mornas e sonolentas, porfias intensamente acaloradas frente as duras posição temperadas com didático raciocínio em defesa da sociedade rapinada. Aproxima-se esse jurista da antítese de um ministro do maior tribunal do País. Temperamental, é incapaz de extroverter suas ideias com a serenidade que o ambiente exige, gostem ou não. Até com os colegas de toga não muda seu excêntrico comportamento e nos debates transparecem nas palavras certa prepotência sobre os divergentes da tese abraçada. Seu peculiar jeito ganhou a estima dos brasileiros de bem.

O autor, Alfredo Enéias Gonçalves d?Abril, é professor universitário, aposentado

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