Geral

Políticas públicas evitam até 30% dos casos de câncer

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Políticas públicas adequadas, determinadas com base em estudos estatísticos, poderiam evitar até 30% dos casos de câncer. Esta é a constatação do presidente da Associação Brasileira de Registros de Câncer (ABRC), José Getulio Martins Segalla, que organizou a 18ª reunião da entidade, realizada nesta semana no Obeid Hotel.

 

Quioshi Goto

Segalla, da ABRC: “Profissionais que atendem nas unidades básicas poderiam ser mais bem treinados”

Bauruense e coordenador médico da oncologia do Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, Segalla lamenta o fato de Bauru não contar com base de dados municipal para que estratégias de combate à doença possam ser traçadas. O câncer é a segunda enfermidade que mais mata no País, perdendo apenas para os problemas cardiovasculares.


“O surgimento de muitos casos e mortes poderia ser evitado com políticas públicas direcionadas por estas estatísticas”, destaca.


Além de medidas de prevenção, que passam por orientações para a adoção de melhores hábitos alimentares e combate ao tabagismo, ele destaca que as informações poderiam subsidiar o estabelecimento de diretrizes para reorganizar todo o sistema de saúde.


“Os profissionais que atendem nas unidades básicas de saúde, a porta de entrada para os pacientes, poderiam ser mais bem treinados, favorecendo não apenas a prevenção, mas também o diagnóstico precoce e, por consequência o índice de cura e de sobrevida dos pacientes”, analisa.


O médico oncologista narra que os primeiros registros de câncer começaram a ser efetivamente computados entre o final do século 19 e início do século 20. No Brasil, as estatísticas sobre a doença são ainda mais recentes, datando da década de 1960.


Atualmente, em grande parte dos casos, os bancos de dados são mantidos pelos hospitais que oferecem tratamento, sendo raros os casos de administrações municipais que investiram neste tipo de pesquisa.


“No Brasil inteiro, são cerca de 30, principalmente capitais federais e algumas cidades do Interior do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo, como Campinas e Jaú”, elenca Segalla.



Responsabilidade


Ele explica que as unidades hospitalares que recebem recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) são legalmente obrigadas a realizar este tipo de levantamento e, portanto, acabam sendo a principal fonte de dados para qualquer tipo de pesquisa na área. O problema é que, para o estabelecimento de estratégias municipais de combate à doença, é pouco eficiente.


“Ele funciona, basicamente, para verificar a qualidade do atendimento do hospital. Como hospitais de referência atendem muitos pacientes de outras cidades, não é um bom indicador para demonstrar o que está acontecendo no município onde estão localizados”, ressalta o presidente da ABRC.


Já o levantamento que deveria ser feito pelos municípios, denominado base populacional, ofereceria uma série de informações importantes, como a incidência da doença na cidade, os tipos mais comuns, o público mais comumente atingido, entre outras.


“Independentemente de onde o paciente foi tratado, o registro seria feito na cidade onde ele vive. Trata-se de uma responsabilidade governamental das vigilâncias epidemiológicas municipais, que raramente é assumida, porque demanda recursos e contratação de pessoal especializado”, frisa.


Além de efetivamente contabilizar o número de casos, Segalla diz que as estatísticas precisariam contemplar todo o histórico do tratamento do paciente, até a solução final da doença. Se evoluir para cura, o acompanhamento para confirmar a inexistência de recidivas e o tempo de sobrevida também deve estar inserido nos estudos.

 

Sem números

Procurado pelo Jornal da Cidade, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) informou não possuir dados municipalizados sobre a doença e orientou a reportagem a acionar as secretarias Municipal e Estadual de Saúde. Os dois órgãos, no entanto, também afirmaram não realizar este tipo de levantamento.

 

Câncer já responde por 14% das mortes no País

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Registros de Câncer (ABRC), José Getulio Martins Segalla, o câncer já responde por 14% de todos os óbitos registrados no País, índice que vem crescendo a cada ano devido ao envelhecimento da população.


“À medida que conseguimos controlar as doenças infecciosas, a população vive mais e, assim, passa a ter mais chances de sofrer de câncer”, analisa.


Neste contexto, ele destaca que os estudos municipais são importantes, já que, em cada região do País, a incidência dos diversos tipos da doença tende a ser diferente. “Esta variação acontece de acordo com a condição socioeconômica, hábitos alimentares e o acesso ao diagnóstico precoce. Por este motivo, o ideal é ter acesso a dados particularizados”, frisa.


De maneira geral, o câncer de pele é o que mais acomete a população brasileira, sendo responsável por cerca de 40% do total de casos. Além dele, os que mais atingem os homens são, pela ordem, o câncer de próstata, de pulmão e de cólon (intestino grosso). Já as mulheres são mais afetadas pelo câncer de mama, de colo do útero e cólon.

Psicólogo lança livro

Na próxima sexta-feira, o psicólogo e psicoterapeuta Valdemar Augusto Angerami (Camon) lança em Bauru o livro Psicologia & Câncer, que aborda aspectos importantes sobre o tema, como prevenção, tratamentos, aconselhamento genético, cuidados paliativos, além de ressaltar a subjetividade do doente e do adoecimento, bem como dos familiares.


Composto por 19 capítulos, também contempla questões essencialmente humanas imprescindíveis para o atendimento multiprofissional nesta área. Camon é coordenador do Centro de Psicoterapia Existencial de Campinas e professor da pós-graduação em psicologia da saúde da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).


É o autor com o maior número de livros publicados sobre psicologia no Brasil, adotados em universidades do México, Portugal e Canadá. Editado pela Casa do Psicólogo, o livro foi organizado por Camon em parceria com a psicóloga Karla Cristina Gaspar, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).



Serviço


O coquetel de lançamento está marcado para as 19h30 do dia 29, durante a 1ª Jornada Ampliatta de Psicologia e Saúde, que será realizada no Instituto de Psicologia e Saúde Ampliatta, na rua Doutor Fuas de Mattos Sabino, 12-45, Jardim América. Mais informações podem ser obtidas pelos telefones (14) 3879-6739 ou (14) 3879-6740.

 

Câncer infantil é alvo de alerta neste sábado

Assim como o Outubro Rosa e o Novembro Azul, que alertam, respectivamente, para a prevenção ao câncer de mama e de próstata, a doença também tem seu Novembro Dourado, que tem o objetivo de conscientizar a população sobre o câncer infantojuvenil. O dia nacional de combate à doença que acomete crianças e adolescentes é celebrado hoje.


De acordo com estatísticas do Hospital Estadual de Bauru, que atende 68 municípios da região, o câncer infanto-juvenil é responsável por apenas 1,4% dos casos registrados. Desde janeiro de 2004 até outubro de 2013, foram tratados 87 pacientes entre zero e 19 anos de idade, de um total de 6.138 enfermos.


Ainda que a incidência seja baixa, o oncologista pediatra Alejandro Mauricio Arancibia salienta que, assim como a classe médica, a população precisa estar ciente sobre a existência do problema, para que o diagnóstico possa ser precoce. “Há dez anos, o câncer infantojuvenil era pouco conhecido da população. Quanto mais conhecimento houver, as pessoas ficarão mais alertas aos sintomas, mais rápido procurarão assistência e maiores serão as chances de cura”, frisa.


Arancibia explica que, diferentemente do adulto, o câncer em crianças e adolescentes está menos relacionado a fatores externos e mais a alterações genéticas, que possuem causas ainda pouco conhecidas. Uma vantagem, porém, é que a possibilidade de cura é bem superior à média, chegando a até 80% dos casos.

 


 

Comentários

Comentários