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A maldição do petróleo

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Antes da era dos combustíveis fósseis, as pessoas colhiam a energia no local em que precisavam dela: bombeavam a água e exploravam os mares com a força dos ventos; aravam os campos com a tração animal, cozinhavam com lenha catada: a vida era mais difícil, os invernos mais frios, as noites mais escuras. Infelizmente, quase metade de nossos irmãos humanos ainda vive neste mundo medieval. Eles habitam os vastos espaços escuros nas fotos tiradas pelos satélites quando anoitece. Eles não têm eletricidade, cozinham sobre fogueiras de madeira fumacenta, esterco ou carvão. Para os outros quatro bilhões de pessoas, os combustíveis fósseis transformaram a energia de uma preocupação diária em uma commodity onipresente. Nossa economia e nosso modo de vida dependem de um fornecimento incessante, constante e sempre crescente de eletricidade.

Os combustíveis fósseis, responsáveis por aproximadamente 78% de todas as atividades humanas, são o resultado de restos decompostos de pântanos primevos. O carvão, o petróleo e o gás natural armazenam, de forma concentrada, imensas quantidades de luz solar antiga em depósitos de plantas e animais que existiram há centenas de milhões de anos.

Todos esses combustíveis têm enormes custos sociais ocultos. A queima do carvão mineral, ao acionar usinas de força que produzem 41% de toda eletricidade no mundo, emite óxidos de enxofre e nitrogênio, partículas em suspensão, mercúrio e outros metais tóxicos. A cinza do carvão destas usinas polui córregos; a sua mineração fere e mata trabalhadores e inverte paisagens.

Publicação recente da British Petroleum cita que 67% das reservas de petróleo estão em nações não livres, 25% em nações parcialmente livres e apenas 7% delas são livres. Segundo a mesma fonte, com poucas exceções, países que dependem maciçamente da receita do petróleo tendem a ser mais corruptos, a ter governos autocráticos, repressivos, desiguais ou excessivamente militarizados.

A humanidade já extraiu mais de um terço do depósito original de combustíveis fósseis e esses saques estão se acelerando: metade desse total acorreu nestes últimos vinte anos. A extração cada vez mais difícil e a poluição generalizada, elevam os custos do uso do petróleo e do carvão, enquanto o preço de fontes renováveis cai, a ponto das curvas já estarem quase se cruzando.

Isto indica, primeiro, que os momentos finais do petróleo e do carvão já começaram e em segundo, que o Brasil, ao investir no óleo da camada do pré-sal, está na contramão da tendência mundial. A situação brasileira degenerou-se em todos os aspectos na medida em que, por razões políticas, sufoca financeiramente a Petrobrás, incentiva a compra de carros, abandona a ferrovia e o transporte público. Ao contrário, os Estados Unidos e a maioria dos países europeus liderados pela Alemanha, sem se descuidarem das suas ferrovias e hidrovias, promovem uma ruptura histórica com o passado: ao investirem maciçamente no gás, em carros híbridos de pequeno porte e nas energias eólica e solar, querem se libertar do uso extensivo do petróleo e do carvão.

Há uma gama cada vez maior de opções na substituição do petróleo e do carvão, mas a melhor e mais barata fonte de energia é, sem dúvida, precisar menos dela, convertendo, fornecendo e usando-a com mais eficiência e em seguida, priorizar a energia de fontes renováveis diversas e dispersas.

Desde 2009, extrair mais trabalho de cada barril de petróleo e mais quilowatt-hora de cada tonelada de carvão tornou-se prioridade e a maior fonte de energia na economia norte americana. Em 2011, o governo conservador da Dinamarca anunciou planos praticamente autofinanciáveis e com o tempo, altamente vantajosos, para livrar o país dos combustíveis fósseis até 2050, estimulando a eficiência e o uso de fontes renováveis. Ao elevar a produtividade da energia, estes países já se convenceram que o ouro negro, atrelado a tantos progressos, começou a tornar nossa vida mais cara e nociva.

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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