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Encontro no aeroporto

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

De tanta gente na paisagem urbana com celular grudado no ouvido fala-se que um dia, por formidável mutação genética, os seres humanos nascerão com orelha moldada para a comunicação eletrônica. O aparelho auditivo virá munido de receptor de sinais eletrônicos desde o útero e o ser humano se transformará no seu próprio celular. Em números, hoje, o dispositivo já supera o de seres viventes no planeta. Está nas ruas, no elevador, nos restaurantes, nos banheiros, nos automóveis, na caminhada. Nascer com ouvidos com capacidade de antenar as chamadas dispensaria o uso de braços e mãos, livres para amores e carícias, práticas que vão caindo em desuso.

Lembro-me de ter lido as previsões de um fisiologista de Harvard sobre o crescimento do cérebro humano, obrigado a receber cada vez mais dados e informações. Desde notícias de casa sobre o cachorro que fez cocô no sofá até a do gerente de banco que o informa do "estouro" do limite de cheque especial. Com o peso do cérebro, a cervical humana se curvaria e os homens andariam com a cabeça jogada para trás. De minha parte, não acredito nessas profecias. É facilmente perceptível que o cérebro está longe de ser a parte do corpo humano que mais cresceu nos últimos tempos. Escrevo no saguão do aeroporto, enquanto aguardo a chamada do meu voo, como sempre atrasado. Percebo que bundas, coxas, seios, ombros e bíceps têm se avolumado de modo notável. Na mesma carreira de bancos de espera acaba de sentar uma morena alta, cabelos presos, brinco de argolas e imensos óculos espelhados. Veste moletom branco e um shortinho preto minúsculo. Agora, ela está tirando o moletom, sem medo do frio do ar condicionado. Fica de camiseta regata e sobressaem os seios siliconados. Carrega uma sacola da Duty Free Shop. Acho que vem de Buenos Aires. Tira da bolsa um tubo de creme hidratante. Enche as mãos de creme e passa a esfregá-lo sobre as coxas, a panturrilha, os joelhos, os braços. Um cheiro de morango domina o ambiente. Penso que o avião dessa moça jamais irá cair. Vem-me à mente os versos de Jorge Luís Borges que relaciona saguão à eternidade. "Serena, a eternidade espera na encruzilhada das estrelas". Esses lugares públicos são a expressão do anonimato, onde cada um reflete sobre seus dramas e esperanças enquanto aguarda. "Há um Deus presente". E Ele jamais abateria o meu avião ou o dessa moça. Se ela morrer de pneumonia é outra história. Porque está frio. O alto-falante chama para o "embarque imediato". A última mensagem que ouço vem de um passageiro na fila. "Tô embarcando. Me espera de banho tomado. Beijo na boquinha."

Desembarcar é tão bom. Desligam-se as turbinas e vem o aviso de praxe: "É proibido utilizar o telefone celular até sua chegada ao saguão do aeroporto". Mas quem há de... Cheguei, cheguei, cheguei. Ouve-se de todos os lados. É nos saguões que as pessoas se reencontram e dão longos abraços, trocam beijos apaixonados, pegam os filhos pequenos no colo, comentam que o marido emagreceu e que a esposa ficou mais bonita de cabelo curto. Tenho saudade do padre Guido Logger. Era holandês, viajava muito. Tínhamos em comum o gosto pelo cinema e nos tornamos amigos. Ele me dizia que o drama do padre é que nunca tem ninguém a esperá-lo quando chega de viagem. Dava uma dó...

Estou convicto de que os cérebros continuarão do mesmo tamanho. O que mudará serão os celulares, pois a cada dia incorporam novas funções - jogos, calendários, máquina fotográfica, despertador, Internet, e-mail, redes sociais, caixinha de música, televisão, casas informatizadas, cartão de crédito e sei lá o que mais. Acho que, pelo contrário, a tendência do cérebro é diminuir de tamanho porque as máquinas fazem tudo e o libera da necessidade de pensar, criar e decidir. Já vi casais em restaurantes, frente a frente, mergulhados na telinha, digitando coisas. Não ligam para a comida, que pode ser qualquer uma, nem olham para o garçom, que parece sempre o mesmo. Falam um com o outro via facebook.

Receio que um dia os celulares se revoltem, como os bichos de George Orwell. Cansados das imperfeições humanas, os celulares nos trancafiarão num gueto e tomarão conta do mundo. Talvez seja a nossa salvação. Reaprenderemos a conversar sem celulares e, quem sabe, poderemos mais tarde retomar as rédeas do planeta.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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