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Entrevista da semana: Ana Carla C. dos Santos A. Salles

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 9 min

Malavolta Jr.

A juíza divide seu tempo entre o Judiciário e a família, mas também gosta de reunir amigos para cozinhar

Ela tem vida social discreta, mas não necessariamente restritiva, aprendeu violão erudito, mas não exercita acordes há alguns anos, gosta de reunir amigos em casa para cozinhar e, no avesso do ‘biotipo’ mais conservador de parte dos integrantes do Judiciário, é acessível para a troca de ideias fora do mundo jurídico. Quando moça, fez magistério em Agudos para atender ao pedido de formação profissionalizante vindo da mãe, mas descobriu, com uma boa dose de acaso, sua identificação com a operacionalização do direito na sala da Instituição Toledo de Ensino (ITE). À primeira vista, a postura da juíza Ana Carla Crescioni dos Santos Almeida Salles transpassa um ar de sisudez. Mas bastam dois dedos de uma boa prosa para que seu lado mais interiorano, associado ao espírito do ouvir para tentar conciliar tão treinado em sua função atual na Vara da Família, no Fórum de Bauru, deem asas à comunicação.

 

E foi com esse espírito que a magistrada recebeu a reportagem em sua residência, com o marido Roberto de Almeida Salles, promotor de Justiça, e as filhas Raquel e Rafaela (gêmeas) e a caçula Roberta. Na conversa, Ana Carla Crescioni falou de discrição, vida conjugal, conciliação, do nascimento em São Paulo, onde viveu até os 9 anos, da adolescência em Agudos...

 

 

 

Jornal da Cidade - Em seu tempo, sua mãe lhe pediu para fazer magistério. Era um pedido de profissionalização. Como a mãe Ana Carla olha essa realidade no tempo, em relação aos filhos?

 

Ana Carla Crescioni - Acredito que hoje, para mim, na família, a situação mudou bastante. Minha mãe era professora e para ela, naquele momento, por não ter curso superior, entendia que a alternativa mais palpável era ter no magistério a possibilidade de profissionalização a partir do ensino médio. Por isso eu fiz o magistério na Escola Estadual João Batista Ribeiro, em Agudos. Hoje, a situação do ensino mudou, com a graduação em terceiro grau sendo quase que uma imposição do mercado na vida do jovem que pretende buscar espaço no mercado de trabalho. Mas vejo que o ensino profissionalizante é uma boa alternativa para muitos jovens, como via CTI. Conheço muitos jovens que cursaram o ensino médio no CTI e de lá saíram muito satisfeitos. A questão muito preocupante é que o jovem da nova geração, apesar do ensino superior mais acessível, tem saído muito despreparado da escola, do ensino médio. 

 

 

 

JC - Despreparo para a realidade de conteúdo, de mercado e de vida é o que mais preocupa a mãe Ana Carla?

 

Ana Carla - Preocupa demais. O nível do aprendizado ao final do ensino médio é muito preocupante. Aliado a isso, a questão da sexualidade é um perigo permanente na adolescência. E tem sido um fator que tolhe a profissionalização, a escolaridade e muda a rota de muitos adolescentes por despreparo. Parte por culpa da educação dada pelos pais e parte por culpa dos demais elos da sociedade. São meninos que são obrigados a se lançar precocemente no mercado de trabalho para sustentar os filhos precocemente gerados. E as meninas, que interrompem também os processos de crescimento e formação para serem mães. Esses meninos e meninas, em boa parte, nunca mais vão ter chance de estudar. A gravidez precoce está criando uma massa não profissionalizada de jovens de mão de obra barata. E eles não vão encontrar empregos que garantam condições mínimas para o filho que foi gerado, o que amplia essa problemática. Isso vai gerar miséria e assistencialismo em ainda maior grau, porque isso já é realidade, no futuro. Isso tende a crescer, o que é uma pena.

 

 

 

JC - Como foi sair de São Paulo com 9 anos para Agudos, com a mudança da família e o choque da idade com o mundo interiorano?

 

Ana Carla - Minha família veio de São Paulo para Agudos por uma realidade da época. Os Crescioni são todos radicados em Agudos, vindos da Itália. Esse plano já existia na família nas gerações anteriores. Compraram uma casa em Agudos, mesmo com a gente morando em São Paulo. O fator determinante de minha saída da Capital aos 9 anos foi o desemprego de meu pai. Ele era industriário na época e minha mãe professora. Ele não conseguia recolocação em São Paulo e estava com três filhos pra criar. Isso precipitou a vontade de deixar a Capital. Minha mãe, professora, conseguiu classe com mais facilidade em Agudos e meu pai, com a experiência no setor industrial, conseguiu se colocar na Brahma e lá ficou até se aposentar.

 

 

 

JC - A Ana Carla filha, então, também conviveu pouco com os pais, que trabalhavam fora, a exemplo da agora mãe e juíza e o marido promotor de Justiça. Como você vê esse horizonte de distanciamento?

 

Ana Carla - É uma situação difícil de lidar. Conciliar a convivência familiar com as obrigações do trabalho exige planejamento e cuidado o tempo todo. Pais precisam estar com os filhos. Não se pode desequilibrar os pesos nos dois campos. Diariamente, semanalmente tem de ficar observando o que está sendo feito, como estamos lidando com isso, se a convivência está boa ou não. Eu e meu marido conversamos muito sobre isso. Na época de férias, por exemplo, os programas são sempre com elas, porque durante o período letivo das filhas isso é praticamente impossível. À noite nós não temos atividades para ficar com elas. Muitas vezes esses períodos são para estudar com elas, mas estamos juntos.

 

 

 

 JC - Por falar em família, a imensa lista de litígios da Vara da Família, onde a senhora atua, traz ingredientes em abundância como ódio, inveja, intolerância... O casamento está fadado ao fim?

 

Ana Carla - Creio que não. Mas há necessidade, sim, de conscientização dos jovens que estão se casando hoje de que o casamento e as pessoas não são bens de consumo. O índice de casamentos não caiu. Mas o índice de divórcios subiu, segundo o IBGE. E as estatísticas mostram que as uniões continuam acontecendo, mas essas relações duram menos. Os recasamentos, aliás, estão em escala crescente. Ou seja. São poucos os que afirmam que não vão viver com ninguém. Em geral, todos querem viver junto com alguém. Mas o problema é que a intolerância está, na sociedade atual, infinitamente maior. Então os divórcios são crescentes. Mas esses casais encontram outras pessoas, e com as novas uniões elaboram novas emoções e sonham que desta vez vai dar certo. E também se separam de novo e o ciclo se renova em muitos casos. O problema não está na instituição casamento, mas no despreparo para que as pessoas vivam juntas. Viver casado tem ingredientes relativamente iguais nas uniões: o amor, a rotina, a troca. Mas as pessoas se cansam umas das outras. É preciso preparo para a vida a dois.  

 

 

 

JC - Como você lida com o ato de julgar pessoas, onde o erro também é um elemento presente, como em outras profissões?

 

Ana Carla - No Judiciário, a aplicação do sentido de erro é diferente de outras profissões, porque no caso da tarefa de julgar, própria da magistratura, há que se verificar se há dolo no erro do julgamento ou se é uma questão de interpretação e de viés de convencimento. O que é erro para mim pode não ser para você, a partir de seu repertório cultural e social. Por esta razão, o juiz deve atuar com tranquilidade, buscando, claro, todos os elementos para o convencimento, mas ciente de que as instâncias superiores podem corrigir um eventual raciocínio com erro. O convencimento não está vinculado apenas às provas, depoimentos, fatos e circunstâncias. Sobre o ato de julgar o juiz coloca sua interpretação ou convencimento com elementos como a bagagem cultural, intelectual social, histórico de vida. O julgamento é uma combinação de várias premissas, o fato, a lei, a personalidade e raciocínio do julgador que, combinados, geram uma sentença. Mas erros acontecem e geralmente são corrigidos no tribunal, sendo in procedendo (de procedimento) ou in judicando, é do entendimento que nem sempre casa com o que pensam as partes. Nesse caso não trato como erro, mas como divergência de convencimento.

 

 

 

JC - No caso da Vara da Família, o que a juíza diria para as pessoas que tratam a sala de audiência como um divã, um descarrego emocional até, e onde os processos trazem textos com muito ódio, sentimento de vingança?

 

Ana Carla - Ninguém gosta de ter um julgamento contrário a seus interesses, nem eu e nem o mais simples ou instruído. O que as pessoas têm de entender é que vivemos em um estado de direito e nele é preciso se submeter a normas, regras de cidadania. Se eu não soube administrar meu conflito, seja com o marido, o lojista que me vendeu algo com defeito, o acidente de trânsito, isso é submetido a alguém neutro. E esse alguém investido pelo Estado é o juiz. Esse é o primeiro ponto. Agora, a conciliação é o caminho para aquele que não quer se submeter ao juízo e também para aquele que quer exercitar a ceder um pouco. Se as partes dialogassem, mesmo no desencontro, no desentendimento, milhares de processos sequer chegariam às mãos dos juízes. Basta no conflito os dois lados, as partes, cederem um pouco. A tolerância é um exercício diário.  

 

 

 

JC - Para a maioria dos cidadãos, juízes são distantes. Como você lida com as relações sociais e a discrição?

 

Ana Carla - A discrição é uma opção, tanto minha quanto do meu marido, decorrente da profissão. Acho que se não fôssemos profissionais do direito seríamos mais sociáveis. Mas nós não nos privamos de viver, de frequentar lugares. Já houve juízes e promotores muito mais reclusos. E há. Mas não dá para ter uma vida social plena. O grau de discrição é necessário até em ferramentas como redes sociais, conversamos bastante com as filhas sobre comportamento, companhias, locais. É o processo decorrente de uma família que, mesmo que não queira, é exposta em razão da atribuição. Você vai a um restaurante e as pessoas se conhecem, e no meu caso, eu julgo na cidade. Os filhos vão ao clube e as famílias se conhecem, assim como na escola. Em um determinado ambiente eu já tive de sair porque lá estava alguém que eu já julguei. Tem de lidar com isso, faz parte da carreira. É frequente as pessoas me abordarem para dizer: “Você julgou meu caso”! Dá até um frio na barriga por vezes porque prefiro nem lembrar como julguei. Enfim, na igreja, no supermercado, em tudo tem de haver reserva. 

 

 

 

JC - O que faz ou gosta além da juíza?

 

Ana Carla - Já fiz curso de violão erudito, mas não toco faz tempo e gosto muito de música. Gosto muito de ler e de reunir por vezes amigos para cozinhar. Tenho o hábito da ginástica, e conviver em família é o que mais faço fora da atividade profissional. 

 

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