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Os caprichos da sorte

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 5 min

Todo mundo conhece a história de alguém que “quase” ficou milionário, ou que bateu na trave. Mas o que dizer de uma mulher humilde que, por umas duas horas, pensou que estava rica e viu o castelo de sonhos ruir? A história de Aparecida Coalhareli Fernandes Ferreira, 54 anos, técnica em enfermagem, merece ser contada.

Aconteceu no começo deste ano, mais precisamente no dia 10. Aparecida sempre persegue os mesmos números na loteria. E  ainda de manhã,  correu comprar um jornal para conferir seu jogo da Lotofácil, por sinal, uma extração que foi adiada por um dia devido a problemas de computação. E estava lá: concurso 1003 (08/01) e os números sorteados iguaizinhos aos do bilhete dela.

Os quinze números grifados eram: 03, 04, 08, 10, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 20, 21, 22, 24. Ela fez o devido círculo em torno deles para ter certeza e... bingo! Havia ganhado. Não acreditou. Chamou a nora, a vizinha amiga íntima e foi uma festa antecipada. Por prudência, correram para ter mais do que certeza. Alguém ficou sabendo que foram três ganhadores apenas. Mais de R$ 500 mil de prêmio para cada um.

“Já fiz planos, R$ 100 mil iriam para meu filho, falei para minha nora que era para ela terminar a casinha dela que está fazendo com muito sacrifício, o mesmo tanto para outro filho e, com uns 50 mil eu termino a minha e o restante eu colocaria na poupança”, conta ela. “E claro que iria ajudar muita gente, estou aqui para ajudar as pessoas, ajudo tanto que é capaz até de eu ficar sem nada”, acrescenta.

A amiga Ana Lúcia conta que, na hora, Aparecida quase teve um “treco, um infarto, achei que ela iria morrer. Precisa ver como ela ficou”.

“Minha nora ainda me alertou para não ficar falando, espalhando, não contar para mais ninguém e ir até a Caixa Econômica Federal.” E foi o que ela fez.  “Já fiz um monte de gastos. Quer dizer, na minha cabeça, porque eu não tinha o dinheiro em mãos ainda né?”, acrescenta. Fez planos mil com o marido, claro, viveu uns instantes de ilusão. “A gente só quer melhorar de vida, viajar, viver um pouco melhor. Não quero me envaidecer, não”.

Ela acertou, mas no concurso errado

Antes de ir à lotérica e à Caixa, alguém também sugeriu que ela confirmasse em outro local. Foi atrás do Jornal da Cidade e, daí, os números sorteados não batiam com os que ela havia visto no jornal da Capital que estava em suas mãos. A história começou a ficar confusa.

Para resumir:  no fim das contas ela descobriu que, por diferença de dois dias, deixou de ganhar a Lotofácil. Ela acertou realmente os 15 números, só que no concurso errado. Os números que ela apostou haviam sido sorteados no concurso 1.002 e sua aposta foi feita para o 1.003.

Ou seja, se Aparecida  tivesse jogado esses números no concurso anterior, teria ganho o prêmio principal. Como foram três ganhadores, com ela quatro, seria um prêmio de cerca de R$ 404 mil. O que não era pouco. Nem pouco seria se ela ganhasse o rateio do concurso 1.003 para o qual apostou, que foi de R$ 83 mil. Seria o suficiente para terminar a reforma de sua casinha. Foram 20 ganhadores. Estaria bom também. No entanto, era ilusão.


Sonhos e Caldeirão do Huck

Mas se ela sempre persegue esses números, então havia apostado para o concurso anterior, certo? Errado. “Sabe pobre como é, a gente aposta quando sobra uns troquinhos. Não aposto todo dia”, diz Aparecida, para lamentar. “O jornal que eu vi é que publicou errado... atualizou o número do sorteio e a data e não atualizou o resultado, como eu ia adivinhar?”

No entanto, ela não desanima e acha que a sorte grande ainda vai bater de uma hora para outra na porta da casinha humilde que está em construção, na rua de terra onde mora, na Vila Dutra.

Tanto que está esperando um chamado do programa Caldeirão do Huck. Ela escreveu uma carta para o quadro “Lar, doce, lar” e foi uma das selecionadas pelo programa para ter a transformação da sua casa. Recebeu há mais de um ano um telegrama para ligar para a produção do programa e confirmar os dados. Fez isso. Guarda o telegrama com carinho e espera pacientemente a visita surpresa. “Soube que é assim mesmo que eles fazem. Foi o que aconteceu com o outro que já recebeu a visita do apresentador”, diz se referindo ao morador do Parque Real, João Bernardino Pereira, que teve sua casa e academia reformadas pela produção do programa do apresentador global.

Batalha e estudos

Nascida no dia 31 de outubro de 1960, num dia das bruxas - “bruxa não existe coisa nenhuma”, sentencia -, agora Aparecida está à espera de uma fada madrinha, da sorte que está por perto acertar o caminho de sua vida. Enquanto isso não acontece, ela luta com suas próprias forças. Está há três meses trabalhando como técnica em enfermagem no Hospital de Base e trabalhou por nove meses no Hospital Estadual. Aparecida, que a vida toda foi faxineira, (profissão que permitiu que criasse os dois filhos, um deles já lhe deu um neto), conseguiu custear o curso, “pagando R$ 5.800,00 do meu próprio bolso e saindo da casa das patroas direto para os estudos”.


Curiosidades: vítimas do ‘quase’ e sorte em dobro

Um funcionário do Hospital Municipal de Teofilândia, na Bahia, deixou de participar do bolão vencedor da Mega da Virada, organizado por colegas da unidade de saúde, porque resolveu viajar. O homem, que prefere não se identificar, revelou que o nome dele era um dos primeiros da lista do bolão, mas foi excluído pela falta de pagamento no dia da aposta. “O organizador do bolão resolveu adiantar a aposta e, como eu viajei, caí fora.”

Houve quem ganhasse em dobro: dos 22 colegas apostadores do bolão, quatro pagaram R$ 10 e devem ficar com R$ 4,3 milhões cada; e os outros 18 contribuíram com R$ 5 e ficaram com R$ 2,160 milhões, aproximadamente.

Um feirante do Distrito Federal passou mal ao saber que o bilhete que deixou de apostar era um dos premiados da Mega-Sena da Virada. Ele deixou de registrar a aposta após os demais colegas que participariam do bolão com ele desistirem, e depois de não aceitar dividir a aposta apenas com uma colega da feira. Cada aposta ganhou cerca de R$ 80 milhões.

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