É duro ouvir essa informação. Ou seria provocação? Em casa, é a frase que ecoa: "Nossa, tá todo mundo na praia". Bom, eu não estou. Você, leitor, não está. Quem está?
Eu sempre disse que o céu azul
belíssimo aí em cima continua assim, belíssimo, aqui em Bauru, em Ourinhos, em Pato Branco... Por que só notamos o "ceuzão azul" quando estamos no Rio, em Santos, Ubatuba?...
A verdade é que a praia exerce um fascínio luminoso. Praia, ainda mais nesse calorão, significa folga, festa e descompromisso. Daí, o fascínio. Na prática, a praia é também pródiga em perrengues. Quem nunca passou algum apuro para chegar lá? Trânsito parado, forno no carro, barbeiros na pista...
Alguém contou uma vez uma história assim: a turma saiu de Bauru para a praia. Na estrada, acidente. Carro capotou e tudo. Ferimentos leves. Um dos cinco desistiu e pegou logo um ônibus de volta. Chamam seguro, ligam para o pai, e os quatro persistentes arrumaram outro carro e continuaram.
Chegando no litoral, avenida da praia, só alegria e... batida. Outro acidente. Feio. Dois dos quatro ficam feridos. E vai hospital, curativo, médico, dor no pescoço, peito dolorido. Liberados à noite, rumaram para a casa alugada.
Perdido por perdido... Todos ao supermercado. Picanha. Merecem. Carne na geladeira e o sono dos merecedores. No outro dia, saída logo cedo. Cervejas em mãos, passeio e retorno para churrasco. A surpresa: geladeira com defeito. E a picanha estragou.
Não sei os demais trágicos desfechos da história. Aliás, nem mesmo sei como voltaram do hospital depois do segundo acidente. Talvez no mesmo carro, talvez de carona. O fato é que todo o sacrifício humano parece valer à pena quando estão em praia cheia e papo furado.
A praia é o paraíso com cheiro de protetor. Para chegar, purgatório (castigo). Mas ninguém dá a mínima: como diz a escritora e jornalista Martha Medeiros, "todo paraíso precisa de um pouco de inferno".
O autor, João Pedro Feza, é editor executivo do JC