É uma surpresa quando Chris Pine entra na sala, para a entrevista. O Capitão Kirk de Star Trek e Além da Escuridão - Star Trek tornou convincente a marcha à ré no tempo da outra série porque, realmente, parece jovem e franzino. Magro ele é, mas também é alto - bastante. O repórter tem de torcer o pescoço e levantar a cabeça para cumprimentá-lo. O sorriso é de garoto. E Pine está muito feliz de fazer o jovem Jack Ryan de Operação Sombra.
"Gostei muito de fazer Kirk e é um personagem emblemático, mas espero que você não se surpreenda se eu lhe disser que, de cara, me senti mais próximo de Jack. O universo da ficção científica, esta coisa de representar em frente de fundos verdes ou azuis, cria uma espécie de distanciamento na sua cabeça. Eu já conhecia os filmes de Jack Ryan, quem não? Todos aqueles atores que o criaram... Mas, aqui, a base é mais realista. Tem o problema com a mulher, de quem ele esconde o que faz. O embate com os russos, que são ferozes."
Justamente, os russos. Operação Sombra passa-se no pós-comunismo, e trata de um plano para desestabilizar a economia norte-americana. Viktor, o vilão Kenneth Branagh, bola um plano para deixar a América de joelhos. Desde o começo, ele é pintado como um «monstro». No mercy, sem compaixão. Mas Viktor tem um ponto fraco - ele bebe, e isso expõe sua vulnerabilidade.
Jack Ryan começa na Agência como analista. Descobre as intenções de Viktor - como, mais tarde, Alec Baldwin viajará na mente do oficial Sean Connery em Outubro Vermelho. Em Moscou, seu contato será Kevin Costner, que lhe dá uma arma. É o momento em que o analista vira herói de ação. A partir daí, Jack Ryan tem de aprimorar suas qualidades - suas ferramentas, como se diz. Segue sendo um analista, um pensador, mas agora tem de bater e arrebentar. O clímax da ação ocorre de volta aos EUA, em Nova York. Conseguirá o herói evitar que aquela bomba seja detonada?
Preparação
Como foi a preparação de Chris Pine? "A ideia não era fazer de mim um herói fortão. Não precisei ganhar músculos, mas corro muito, brigo muito, e isso exige um tipo de elasticidade física. As cenas de lutas são divertidas de fazer. É tudo coreografado e a gente se cuida para não se machucar. Eventualmente ocorre de alguém ter um corte, um osso quebrado (risos). Caí de mau jeito e tive uma luxação. Gosto dessas cenas, mas, como ator, me sinto mais à vontade nos momentos intimistas, como quando Keira (Knightley, que interpreta a sua mulher) descobre a função do marido. Kenneth (Branagh, o diretor) é ator, e shakespeariano. Shakespeare percorre toda a gama das emoções e dos sentimentos humanos. Kenneth sabe motivar a gente, e nos deixar à vontade."
E Kevin Costner? "Tantas vezes fui acusado de fazer patriotadas (O Mensageiro). Foi curioso fazer agora o papel do homem que coopta Jack Ryan, filmar na Rússia foi uma experiência e tanto. Ouvem-se tantas histórias sobre o absolutismo da classe dirigente pós-comunismo. Mas o povo russo é muito caloroso. As pessoas sabem quem somos, e independentemente das velhas disputas com a América, querem que a gente se sinta em casa."
Na TV e no cinema, Kevin Costner voltou a brilhar. Uma segunda chance? "Creio que, como todo mundo, acertei e errei na minha carreira. O importante é aprender com os erros. Quero voltar a dirigir, mas pretendo fazê-lo com humildade. Há tantas boas histórias para contar. Tenho escrito coisas, feito meus shows de música. Na Rússia me conheciam tanto pela música quanto pelo cinema. Não é maravilhoso?"
À luz do 11 de setembro
Criado prelo escritor Tom Clancy para ser o herói da espionagem do pós-Guerra Fria, Jack Ryan viveu quatro vezes na tela, na interpretação de Alec Baldwin (Caçada ao Outubro Vermelho), Harrison Ford (Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato) e Ben Affleck (A Soma de Todos os Medos). Uma quinta aventura está a caminhos dos cinemas brasileiros, e aterrissa aqui em fevereiro.
A novidade é que Jack Ryan - Operação Sombra dá marcha à ré no tempo e pega o herói - e Chris Pine faz o papel - no momento em que está sendo cooptado pela CIA, sua primeira missão, em Moscou O novo Jack Ryan decola com ele ainda jovem, vendo na TV a imagem do ataque às Torres Gêmeas.
Setembro, 11, 2001. Num encontro em Los Angeles, o ator e diretor Kenneth Branagh - ele faz o vilão, Viktor - disse que a liberdade explica-se porque a data é emblemática. "O 11 de Setembro remodelou a geopolítica internacional e criou novos conceitos de patriotismo que me interessava abordar." Branagh tornou-se conhecido como shakespeariano profissional. Sua estreia no longa foi com Henrique IV. Como é, para um diretor cuja obra se funda na palavra, dirigir cenas de ação?
É verdade que Branagh colheu grande sucesso de público com o primeiro Thor, que já era pura pauleira.
Ele não foge da pauta. "Mas Henrique IV já culminava na batalha de Agincourt e na resistência do rei. A ação em Shakespeare não vem só da dinâmica da palavra e dos diálogos. Muitas peças dele, senão todas, incluem duelos. Só para você ver: em Henrique IV e, agora, Operação Sombra, trabalhei com o mesmo diretor de segunda unidade, Vic Armstrong. E comentávamos, entre nós, o que evoluiu na arte do combate na tela. Os filmes da série Bourne criaram um tipo de pancadaria tensa e realista, em espaços exíguos. Nós temos briga no banheiro, que foi muito coreografada e exigiu quase uma semana para ser rodada."
Saiba mais
Kenneth Branagh vive um momento esplendoroso de sua vida (e carreira). Ele sempre flertou com Hollywood, e chegou a fazer umas versão de Frankenstein, de Mary Shelley, mas nunca um filme dele faturou tanto quanto o primeiro Thor, com Chris Hemsworth.
Logo em seguida veio o papel como Laurence Olivier no filme sobre a rodagem da comédias O Príncipe Encantado, com Marilyn Monroe. Olivier foi sempre o fantasma de Branagh, como shakespeariano profissional. Hoje ele diz que o entende melhor. «Mas é que ando melhor comigo mesmo", admite.
Qual o seu interesse em ressuscitar a franquia Jack Ryan?
"Havia visto os filmes, lido alguns livros de Tom Clancy. Estava comprometido com um projeto que não se concretizou, e aí me ofereceram o roteiro. Imaginei que era o tipo de filme que gostaria de ver. Gosto de James Bond, de Bourne, adoro Missão Impossível, mas encontrei em Operação Sombra uma outra qualidade O filme me lembrou os filmes políticos dos anos 1970, principalmente os de Alan J. Pakula. A Trama/The Parallax View, Todos os Homens do Presidente. Esse clima de conspiração, a ideia de que a democracia pode estar em perigo. Achei que seria algo interessante de abordar."
E foi?
"Oh, sim, mas vou lhe dizer. Mais que as cenas de ação, o que me atraiu foi o filme como estudo de personagem. Tem gente que vai dizer que é só mais um filme de ação, mas creio que não. Existem sutilezas. Jack Ryan não é particularmente forte nem habilidoso, mas é inteligente. Pensa rápido e responde mais rápido ainda ao perigo. E ele quer fazer algumas coisas. Por si, pelas mulher que ama, pelo seu país. Para mim, é uma história de comprometimento."
Talvez seja o oposto de Thor, arrisca o repórter. Em que sentido, Branagh pergunta? Em Thor, ele buscava a dimensão humana do herói, a vulnerabilidade do amor. Aqui, é um pouco o que faz do homem comum um herói.
"A obra de Shakespeare é cheia de personagens maiores que a vida. Todos são mais ou menos heróis e vilões. Mesmo um personagem monstruoso como Macbeth se redime na morte. Eu gosto de encarar a vida com áreas cinzentas. O preto no branco é uma invenção da má literatura, e do mau cinema."
E seu vilão?
"De cara, ficou claro que o estúdio queria que eu também fizesse o papel. E eu gostei. A literatura russa é cheia de personagens que sofrem com a tentação do absolutismo. Mas, como Viktor diz, tudo o que faz não é por ele, é pela Rússia. Vivemos quase todo o século 20 sob o peso de um perigo iminente, representado pelas Guerra Fria.
O comunismo acabou, a Rússia se capitalizou, há registros de que as violações de direitos são maiores ainda. E nós seguimos não entendendo a Rússia ou os russos. Existem cenas com meu personagem de que gosto muito. Não é um vilão unidimensional. Tentei fazê-lo complexo. Pela reação que tenho sentido, acho que consegui."