Saúde

Atletas de bem com a vida


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Os testes psicológicos e de personalidade são ferramentas úteis para dar suporte à equipe técnica no desenvolvimento dos treinos e acompanhamento da performance de atletas. Porém, no Brasil, ainda não existem testes elaborados exclusivamente para esses profissionais. Em sua tese de doutorado pela Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, o psicólogo e professor Ivan Rabelo avaliou se um teste direcionado para a população em geral poderia também ser aplicado em atletas. Os resultados mostraram que o teste se mostrou satisfatório na avaliação da maior parte dos fatores, mas não em todos. Por isso, Rabelo sugere o desenvolvimento de um instrumento de avaliação específico para esportistas. As informações são da Agência USP.

O pesquisador conta que se o atleta estiver com ansiedade, tanto o psicólogo como a equipe técnica podem aplicar o teste com o intuito de ajudá-lo.

"O teste também pode auxiliar o atleta a se conhecer melhor e a buscar o equilíbrio nas características importantes para a modalidade esportiva na qual atua. Além disso, muitas características encontradas em atletas diferem de outras populações, como por exemplo, a questão da dor", justifica o psicólogo sobre a importância de haver testes específicos.

No exterior, conta Rabelo, já existem testes dirigidos a esportistas, como o SIP (The Sports Inventory for Pain), um inventário de dor para o esporte e que avalia também traços de personalidade.

Em sua pesquisa, Rabelo avaliou se o teste Bateria Fatorial de Personalidade (BFP), desenvolvido pelos psicólogos Carlos Nunes e Cláudio Hutz, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e voltado para a população em geral, poderia ser também aplicado em atletas. O BFP é um instrumento psicológico construído para a avaliação da personalidade a partir do modelo dos Cinco Grandes Fatores (Big Five). O teste avalia 16 facetas da personalidade a partir de cinco fatores: extroversão, socialização, neuroticismo (estabilidade emocional); realização; e abertura a novas experiências.

O teste, com 156 questões, foi aplicado em 726 atletas profissionais com idades entre 13 e 85 anos, sendo 85% de homens, de todo o Brasil, com maior concentração daqueles que residiam no estado de São Paulo. Esses atletas pertencem a grupos olímpicos, paraolímpicos e não olímpicos, de esportes como tênis de mesa, rugbi, atletismo, futebol de base e futebol profissional. "Nós realizamos o treinamento dos psicólogos dos clubes para que eles pudessem aplicar o teste no local onde atuam", diz. No teste, a pessoa avaliada deve dizer o quanto concorda ou discorda de determinadas características de personalidade.


Resultados

De acordo com o psicólogo, os achados não foram suficientes para afirmar que existe um perfil único de atleta; porém, de acordo com a modalidade, há uma variação das características predominantes da personalidade. "O Big Five foi satisfatório na avaliação da maior parte dos fatores, mas não em todos: no caso do fator "depressão", o teste é irrelevante quando aplicado em atletas, pois não houve diferenciação nos resultados encontrados na população em geral", diz.

Como conclusões, Rabelo verificou que os atletas apresentaram maior controle de seu estado emocional, em comparação com a população em geral. Os esportistas demonstraram menor preocupação em serem orgulhosos ou se mostrarem superiores aos outros. "Isso ocorre pois eles sabem o quanto o concorrente pode superá-los e acabam se considerando tão importantes quanto os oponentes", explica. Também foi verificada uma elevada extroversão, pela necessidade de maior interação com a sociedade. Os avaliados também apresentaram médias mais elevadas do que a população em geral nos aspectos ligados a competência, empenho e realização. "As atividades de esporte, em geral, tendem a fazer com que essas pessoas apresentem essas características", explica.

Outra constatação interessante é que as modalidades de esportes individuais exigem um nível de comunicação mais elevado do que as coletivas. "Apesar de sempre haver uma equipe técnica, os atletas de modalidades individuais precisam se responsabilizar sozinhos pelo seu desempenho no esporte, por isso a necessidade de comunicação", finaliza.

A pesquisa Investigação de traços de personalidade em atletas brasileiros: análise da adequação de uma ferramenta de avaliação psicológica foi defendida na EEFE no dia 17 de dezembro, sob a orientação da professora Katia Rubio.


Atletas vivenciam a aposentadoria como luto

O momento da aposentadoria de esportistas profissionais gera um sentimento semelhante ao luto causado pela perda de uma pessoa próxima. Isto acontece pela falta de preparação psicológica ao longo da carreira destas pessoas, que, por muito tempo, têm o esporte como centro de suas vidas. Em seu mestrado no Instituto de Psicologia (IP) da USP, a psicóloga Daniela Selingardi observou que, ao aposentar-se, atletas buscam apoio para recomeçar profissionalmente, mas acabam, em geral, não procurando ajuda para organizar as emoções.

Para profissionais do esporte, o momento de parar é precoce, quando comparado às carreiras em geral. Os treinos diários desgastam o corpo, que pode sofrer lesões ou simplesmente não apresentar os mesmos resultados em poucos anos. "Eu me preocupava com o ser humano que horas é tratado como ídolo, mas é ser humano", conta a psicóloga. Talvez devido a esta característica peculiar da carreira atlética, a aposentadoria seja encarada como uma perda tão significativa, chegando a ser sentida como um luto. Para a pesquisa, Daniela entrevistou seis ex-atletas de diversas modalidades e analisou os discursos com um método qualitativo. Um deles relatou que os sentimentos e pensamentos decorrentes da aposentadoria perduraram por anos. As informações são da Agência USP.

A necessidade de se reinventar profissionalmente é clara, mas ela constatou que o processo de transição para a aposentadoria também é útil para que os esportistas lidem com questões emocionais. Apesar disso, as entrevistas indicaram que a maior procura de apoio é relativa ao recomeço da vida profissional. "Nem o forte vazio sentido pelos entrevistados foi suficiente para que eles recorressem a psicólogos que os auxiliassem a lidar com o momento de perda, na maioria dos casos", observa Daniela. Sua pesquisa, que deu origem à dissertação de mestrado Término e recomeço: da carreira atlética à aposentadoria, foi orientada pela professora Maria Júlia Kovács.

No momento das entrevistas, os ex-atletas tinham se aposentado havia 10 anos, em média. A psicóloga fez perguntas que os estimulassem a falar sobre como se sentiram no período de transição da carreira atlética à aposentadoria. Depois da transcrição do discurso, foi feita uma análise, com inspiração fenomenológica, ou seja, buscando "uma aproximação da compreensão do fenômeno, que foi a experiência da transição para a aposentadoria do atleta". A psicóloga detectou temas recorrentes em cada fala, como a relação com o corpo, o destreinamento físico e psicológico e os agrupou. Ela também fez considerações sobre como os ex-atletas se portavam em cada entrevista, e o que isto poderia significar.

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