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"Arbustização" urbana

Luiz Alberto Coradi
| Tempo de leitura: 3 min

Todo mundo gosta de se abrigar à sombra de uma frondosa árvore nas horas mais quentes do dia. Ou caminhar pelas calçadas onde elas estão mais presentes. Com as temperaturas extremas das últimas semanas, então... É quase unânime o reconhecimento dos benefícios que as árvores proporcionam ao ambiente urbano, contribuindo direta ou indiretamente para o maior conforto térmico nas vias e espaços públicos, o aumento da umidade do ar nos períodos secos, a redução das enchentes e do consumo de energia elétrica, da poluição do ar, sonora e visual, para ficarmos apenas nos aspectos mais evidentes e comprovados.

No âmbito coletivo é difícil alguém discordar dos benefícios da arborização urbana para a população, principalmente nas médias e grandes cidades.

Entretanto, quando se consideram os indivíduos isoladamente ou em pequenos grupos, aí a heroína se torna vilã. Os argumentos são inúmeros e, em alguns casos, até seriam cômicos se não fossem trágicos. É a rua mal iluminada, as folhas que entopem as calhas e "sujam" os carros, os galhos que prejudicam o visual da loja, a posição que atrapalha o estacionamento recuado ou a garagem, a fiação elétrica que não pode ser "incomodada", os pássaros que se aninham em seus galhos, os frutos que atraem morcegos, as calçadas quebradas, as recentes celebridades "árvores do crack", e por aí vai, numa série de atitudes e pensamentos egoístas e comodistas em detrimento do bem comum.

Nenhum desses argumentos, no entanto, se sustenta quando confrontado com as soluções e alternativas disponíveis e plenamente exequíveis, que muitas vezes não passam de pequenas mudanças de postura e de tolerância em benefício do bem estar coletivo.

As espécies indicadas para arborização urbana, se plantadas adequadamente, não prejudicam as calçadas, têm queda de folhas e produzem flores e frutos em curtos espaços de tempo, o que permite, com um pouco de tolerância e iniciativa, a convivência harmoniosa entre moradores e árvores.

Nossa lei municipal que trata do assunto é falha, parecendo ter sido redigida para tudo permitir aos proprietários de imóveis e evitar problemas futuros à concessionária de energia elétrica e ao próprio poder público na sua manutenção.

Enquanto em nossa lei que rege o assunto existe sempre a possibilidade de plantio de espécies de pequeno e médio porte, mesmo nos espaços mais amplos, a legislação do município de Piracicaba, por exemplo, proíbe taxativamente o plantio de espécies arbustivas, além de tratar com rigor as podas drásticas e supressões de espécimes arbóreos.

Com uma lei branda, uma fiscalização frouxa e uma permissividade conivente com os interesses individuais em prejuízo do coletivo, Bauru em breve não será conhecida apenas como a "Cidade Sem Limites" ou "Capital da Terra Branca", mas também como a "Cidade dos Resedás" ou "Capital dos Arbustos e Palmeiras", tamanha é a quantidade dessas espécies que vêm sendo plantadas em nossas vias públicas, principalmente em substituição a frondosas árvores suprimidas pelos mais estapafúrdios motivos.

Recentemente, em um seminário sobre iluminação pública realizado na cidade, foram apresentadas as soluções encontradas na cidade de Maringá (PR), um dos bons exemplos de cidades arborizadas no país, no tocante à convivência com a fiação elétrica e a prevenção das quedas de energia: o rebaixamento dos pontos de luz, abaixo das copas das árvores, e a fiação compacta em substituição à convencional. Mas tal iniciativa requer vontade política, empenho, iniciativa e firmeza de propósitos pelo poder público, que tem por dever constitucional defender o interesse público e exigir a contrapartida das empresas e grandes corporações em benefício da população que paga por seus serviços e consome os seus produtos.

Sem uma lei mais severa, uma fiscalização eficiente e não conivente com os interesses setoriais, além do exemplo de iniciativas do poder público, caminharemos a passos largos para a completa "arbustização" da cidade, com as consequências que sentiremos, literalmente, na pele.

O autor, Luiz Alberto Coradi, é engenheiro agrônomo e diretor de Agronomia da Assenag

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