Saúde

Totalmente natural

Fabiana Cambricoli
| Tempo de leitura: 4 min

Mesmo com acesso a algumas das melhores maternidades privadas de São Paulo, a universitária Mayara Albuquerque Dornelas Vancsek, 24 anos, não teve dúvidas na hora de escolher onde teria sua filha. Contrariando a família, elegeu uma unidade da rede pública, a 30 km de casa, e diz não ter se arrependido. "Foi a melhor experiência da minha vida", garante.

Mayara é uma das mulheres de classe média, detentoras de planos de saúde, que, em busca de um parto totalmente natural, preferiu dar à luz na Casa de Parto de Sapopemba (zona leste), a única unidade pública desse tipo na capital paulista.

Gestantes com esse perfil já representam metade do público atendido na Casa de Parto, segundo Kátia Patrícia Pires Guimarães, gerente da unidade. "Elas vêm de todos os bairros da cidade e também de outros municípios. Já teve gente de Guarulhos, Sorocaba, Santos. A outra metade é de pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde)", conta.

Mayara fez o pré-natal pelo plano, mas preferiu ter a filha, Aysla, hoje com dois meses, de forma natural. Na unidade de Sapopemba, o parto é feito por uma enfermeira obstetra, sem interferência. Não há anestesia nem indução de dilatação e é o pai da criança quem corta o cordão umbilical.

Moradora da Lapa, na zona oeste, e beneficiária de um plano de saúde, a gestora em comunicação Bárbara Batista Barbosa de Souza, de 29 anos, diz que o modelo de atendimento dá maior protagonismo aos pais. "É um parto mais consciente, em que a mulher assume uma posição menos passiva. A relação do filho com o pai também muda, porque o homem participa do parto, ajudando a mulher nos exercícios de relaxamento e cortando o cordão", diz ela, que teve o filho Fidel, de quatro meses, na unidade.


"No hospital não foi ruim, mas a gente se sente só"

Após ter a primeira filha, há 9 anos, em uma maternidade, a dona de casa Bruna de Oliveira, de 30 anos, quis fugir do ambiente hospitalar na segunda gestação. "O atendimento no hospital não foi ruim, mas a gente se sente meio sozinha, fica todo o trabalho de parto numa salinha, sem ninguém", conta.

Ela e o marido, o empresário José Odirlei de Almeida, de 34 anos, optaram pela Casa de Parto no nascimento de Miguel, de 2 meses. "Quando tivemos nossa primeira filha, estávamos em uma maternidade, mas ninguém dava informação, ficávamos em pânico com as dores. Na Casa de Parto, achei que foi algo mais individualizado", diz Almeida.

A irmã mais velha do pequeno Miguel também ajudou do parto. "Ela e o pai cortaram o cordão umbilical. Ela queria muito ver esse momento. Foi especial", diz Bruna.

Uma história familiar também estimulou a auxiliar de coordenação Sthepany Amaral de Souza, de 20 anos, a optar pela unidade de Sapopemba. "Moro na região e minha mãe teve meu irmão aqui. Morro de medo de hospital e aqui me senti mais confortável. Nem doeu tanto o parto", conta. A filha, Sofia, está com 7 meses.

Defensora do parto natural após ter a filha Maria na Casa de Parto, em 2011, a chefe de cozinha Reila Miranda, de 34 anos, criou a Associação Casa da Borboleta, no Tatuapé, zona leste, que tem oficinas que esclarecem sobre o procedimento, além de oferecer atividades para gestantes, mães e bebês. "Um dos objetivos da associação é divulgar a Casa de Parto. Falta muita informação."


Volume de parto normal cai na Casa de Parto


Se por um lado a Casa de Parto tem atraído mais mulheres de fora do SUS, por outro o número total de partos feitos no local vem caindo ano a ano e, hoje, a unidade atende apenas um terço da sua capacidade, de 60 partos por mês. Para pacientes, a resistência de muitos médicos a esse tipo de parto faz com que muitas mulheres desistam dessa opção.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) não recomendam partos fora do ambiente hospitalar. "O parto está sujeito a uma série de intercorrências físicas que levam risco para a mãe e para o bebê. Ele pode ser feito de forma humanizada, mas desde que seja num ambiente preparado para isso e com um médico ao alcance", afirma Etelvino Trindade, presidente da Febrasgo.

A gerente da Casa de Parto garante que a unidade está preparada para agir se houver complicação. "Temos uma ambulância que fica 24 horas na porta caso seja necessária uma remoção para o hospital. Além disso, só atendemos gestantes de baixo risco", afirma Kátia.


Projeto de lei

Autora do projeto de lei sancionado em dezembro que prevê a ampliação do serviço na cidade, a vereadora Juliana Cardoso (PT) diz que há preconceito da classe médica contra esse tipo de serviço. "Acham que a Casa de Parto é perigosa, mas o trabalho é sério, há todo um protocolo de atendimento", diz.

Para a funcionária pública Caroline de Vasconcelos Mateus Maciel, 26 anos, há desconhecimento em relação ao parto natural. "Passei em quatro médicos durante o pré-natal, todos me recomendaram cesárea. Eu estava bem tranquila sobre a decisão de ter minha filha dessa forma, mas a maioria fica assustada", diz ela, que deu à luz Laura.

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