Divulgação |
|
|
Jorge Bastos: “Quero encontrar a minha família e sair das ruas”
|
A Secretaria Municipal do Bem Estar Social (Sebes) começou a se mobilizar, nesta quinta-feira (20), para trazer o morador de rua Jorge Bastos, 57 anos, de volta a Bauru. Conforme o JC publicou com exclusividade ontem, Jorge vive em Campinas e perambula pelas praças do Centro, pedindo ajuda para retornar para sua cidade de origem.
Em uma das abordagens, ele conheceu a esteticista Marília Lira, que publicou um texto em sua página em uma rede social, no dia 7 de março, para solicitar ajuda a ele. A mensagem repercutiu rapidamente e teve mais de 86 mil compartilhamentos, além de dezenas de comentários.
A publicação do caso no Jornal da Cidade fez com que a titular da Sebes, Darlene Tendolo, procurasse o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) de Campinas para tentar localizar o homem e trazê-lo de volta a Bauru.
À reportagem do JC, a assessoria de imprensa da prefeitura daquela cidade informou que, ainda hoje, uma equipe da SOS Rua – entidade que realiza abordagens junto a moradores de rua – irá procurar Jorge na praça Largo do Rosário, onde ele costuma ficar.
Segundo a assessoria, o andarilho foi abrigado pela última vez há cerca de três anos, quando equipes de assistência social tentaram, sem sucesso, localizar seus familiares em Bauru. Depois, ele desistiu de permanecer na instituição municipal e resistiu a qualquer tentativa de atendimento por parte da SOS Rua.
Parentes
Darlene explica que, quando a entidade localizar Jorge, será dada a ele a oportunidade de retornar a Bauru. “O transporte será totalmente gratuito. E ele poderá, se quiser, permanecer em uma das nossas residências inclusivas”, adianta.
Simultaneamente, a Sebes tentará localizar parentes do morador de rua, com base em informações prestadas por ele e nos dados que constam em seus registros junto ao Centro Pop de Campinas. “Ele comentou que tinha familiares que moravam no Jardim Bela Vista e forneceu algumas pistas. Vamos tentar encontrar estas pessoas”, adianta.
Ainda nesta quinta, a reportagem conseguiu falar com Jorge e ele contou que foi acolhido pelo benemérito Sebastião Paiva, depois de ser abandonado pela mãe aos dois anos de idade (leia mais abaixo). “Este também pode ser outro caminho para localizarmos conhecidos dele ou profissionais que saibam a sua origem”, completa a secretária.
Morador de rua foi acolhido por seo Paiva
“Quando eu vejo uma criança segurando a mão da mãe, eu paro na calçada e fico olhando. Meu coração fica a ponto de explodir. Eu queria uma família”. Foram essas as palavras que Jorge disse ao ser indagado como é viver sem família.
Em entrevista ao JC, ele contou que foi abandonado pela mãe aos dois anos de idade e foi acolhido pelo benemérito Sebastião Paiva.
JC- No dia 7 de março, você abordou uma mulher e pediu para ela colocar sua foto na Internet para achar sua família. Foi a primeira vez que pediu isso?
Bastos - Eu abordei a mulher porque me contaram que a Internet ajuda a encontrar a família dos desaparecidos. Falei para colocar minha foto e dizer que tenho família em Bauru. Mas não foi a primeira vez. Sempre falo para as pessoas colocarem na Internet minha foto. Não perdi as esperanças.
JC- Onde você morava em Bauru? O que se lembra da sua família?
Bastos - Eu morava no Paiva na rua Alto Purus, no Jardim Bela Vista. Minha mãe me abandonou aos dois anos de idade e me deixou com o Sebastião Paiva e com a Anita (Camillo). Nunca mais voltou e nunca a conheci. Só sei que ela se chama Marta Bastos e já morreu. Eu não conheci ninguém da minha família. Só lembro da Anita, do Wilson e do Paulo.
JC- Você estudou em alguma escola em Bauru?
Bastos - Estudei até o quarto ano primário em uma escola no Centro. No quarto ano, eu parei e fui trabalhar na roça.
JC- Como foi sua juventude?
Bastos - Eu lembro que tive dificuldade. Mas, em Bauru, o que me recordo é da Estação Ferroviária que fechou e da praça no Centro perto de uma igreja. Lembro até hoje que, na praça, tinha peixe e as pessoas roubavam eles.
JC- Até quando morou em Bauru?
Bastos - Eu morei até meus 19 anos. Depois, eu saí da cidade para procurar algum familiar e rodar o mundo. Fui para Ubatuba e para Santos trabalhar como servente. Depois, fui para o Mato Grosso trabalhar na roça.
JC- Como foi parar em Campinas?
Bastos - Um conhecido meu falou que meu pai morava em Campinas e fui procurá-lo. Faz 23 anos que estou aqui e fico na praça Largo do Rosário. Nunca encontrei e, agora, não quero mais encontrá-lo.
JC- Por quê?
Bastos - Porque ele me abandonou. Não quero saber dele. Quero encontrar meus familiares.
JC- Você sempre morou na rua?
Bastos - Eu trabalho como pedreiro, mas nunca tive casa. Já cheguei a dormir nos albergues, mas agora fico na rua. Estou com a perna machucada e não consigo trabalhar direito. Sempre passei muita fome e dificuldade. Já fiquei três dias sem comer e só andando pela rua.
JC- Você quer sair de Campinas?
Bastos - Eu quero encontrar minha família e sair da rua. O prefeito de Campinas disse que vai tirar todos os moradores de rua e levar para outra cidade. Onde vou morar? Para onde vou? Quero poder achar algum familiar.
JC- Você tem algum documento de identidade?
Bastos - Não, eu fui roubado. Eu vou fazer um boletim de ocorrência para fazer documento e poder ir para São Paulo morar em um albergue antes que o prefeito me tire daqui.
JC- Você recebe ajuda de pessoas?
Bastos - Tem muita gente que é “mão de vaca”. Mas tem pessoas que ajudam quando eu peço. Elas me dão alimento.
JC- Como é sua rotina?
Bastos - Eu fico sentado na praça o dia todo. É isso que faço. Fico conversando com o seu João, um colega meu que fica na rua. Durante a noite, pego meu papelão, minha coberta e durmo aqui. Prefiro dormir aqui na praça a ir para o albergue. Não quero ir para lá.
JC- E como faz para se alimentar?
Bastos - Eu almoço todos os dias no Bom Prato. Ajuda muito.
JC- O que é viver todos esses anos sem família?
Bastos - Quando eu vejo uma criança segurando a mão da mãe, eu paro na calçada e meu coração fica a ponto de explodir. Eu queria uma família. Hoje não estou conseguindo trabalhar porque estou com problemas na perna. Quero encontrar alguém da família para me ajudar.
JC- Qual é seu maior sonho?
Bastos - É encontrar minha família e falar que quero ir com eles. Eu preciso de ajuda. Estou com 57 anos e nunca conheci ninguém que fosse meu parente. Sempre fui sozinho. Mas Deus irá me ajudar, eu espero.