Tenho sido um iconoclasta, mas não de propósito. É espontâneo em mim. Ainda que não deseje, estou sempre em rota de colisão com o tradicional, com as unanimidades, com os dogmas e tudo mais que trás em si a marca ilegítima da autoridade que não se vê obrigada a convencer ou fundamentar absolutamente nada. Obviamente, isso faz de mim um chato! Entre as coisas que considero mais quizilentas estão as "verdades" irrefletidas que as pessoas herdam da cultura popular. De tanto ouvi-las desde a infância somos raptados por esses adágios, forçados a aceitá-los.
Vejam, por exemplo, o clássico "toda regra tem exceção". Se toda regra tivesse mesmo uma exceção, essa também haveria de ter a sua, e a exceção de uma regra que diz que todas as regras são excepcionáveis seria exatamente uma regra sem exceções. Assim, quem cita esta consagrada bobagem já está, ao mesmo tempo, desmentindo a tolice que acabou de cuspir e demonstrando que se trata de um paradoxo.
Com uma generosa boa vontade, a referida frase de efeito pode ser considerada um sofisma bem chinfrim no jardim da infância das filosofias. Mesmo assim, as pessoas a utilizam irrefletidamente como um argumento terminativo para qualquer discussão. Não há critério!
Não me oponho à cultura popular, que tem seus acertos e riquezas, é claro. Apenas acho que regras, ou verdades (se existem), ou argumentos, não podem, ainda que pacificamente, tolher a liberdade de pensar, não devem ser impostos e nem aceitos de pronto, pois sempre há muito mais em jogo.
Não se trata apenas de acolher um desatino coloquial como verdade. Isso é sintoma de um mal maior, é uma postura diante da vida. Aceita-se tudo muito abertamente, sem filtros ou defesas, sem reflexões, sem que se coteje o que se ouve com as próprias convicções internas ou outras fontes principiológicas. Perde-se todas as referências. Cria-se o hábito da aceitação incondicional, típico dos rebanhos. Mas quem são os pastores?
A televisão diz que um parvo qualquer é "o cara", todos repetem e ele vira mesmo um deus. Sem que perguntemos o porquê, as rádios tocam sempre a mesma música, como se ela tivesse algum mérito que justificasse a insistência desmedida, daí vira o sucesso do verão. Uma celebridade qualquer começa a fazer uma tolice e, de plano, o fato é tido como politicamente correto e macaqueado, vira moda.
Assim, ideias e comportamentos são produzidos como em uma salsicharia, para que sejam impostos pelos donos das verdades de ocasião, que se servem de suas conveniências inconfessas enquanto suprimem silenciosamente a vontade dos desatentos. Não importa do que a salsicha é feita. Come-se o enlatado e pronto. É prático, rápido, gostosinho e combina com nosso ritmo de robô em linha de produção.
Como bom chato que sou, ao ver a sonsa e dogmática imposição desses comportamentos padronizados não posso deixar de ser do contra, tenho que opor a eles a minha desconfiança e nadar contra a maré. Eu sei, eu sei... Quem nada contra a maré está fadado ao cansaço, vai perder, é claro. Todavia, resistir à correnteza fortalece a musculatura, e quando a maré mudar (e ela sempre muda), ao menos estará em forma.
O que dizer, no entanto, dos que passam a vida ao sabor inopinado das correntes? Como barcos sem leme, vão e vêm sem comando próprio. Espontaneamente abandonam em águas que não dominam a capacidade pensante do livre arbítrio, deixando à deriva a fagulha divina que nos faz humanos, até que se apagam como gente e ressurgem como tristes coisas à disposição de vontades ocultas, sem jamais perceberem a transformação a que foram induzidos ou conhecerem os autores do enredo imposto que chamam de vida.
O autor, Luciano Olavo da Silva, é analista judiciário, especialista em Direito Eleitoral.