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Dois homens e dois destinos

J.F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 2 min

documentais têm muita valia para captar fatos transitórios e preservá-los definitivamente, permitindo que situações de momento perdurem no tempo com quase igual força de impacto. No início desta primeira semana de abril duas imagens apareceram publicamente. Na madrugada de 30 de março o programa Canal Livre, da Rede Bandeirantes de Televisão, documentou imagens de entrevista feita na periferia de Montevidéu e no pátio de sua modesta residência com José Mujica, presidente uruguaio, acomodados entrevistado e repórteres em bancos toscos num rústico alpendre. No dia seguinte vários veículos de comunicação publicaram fotografia inédita de nevoenta manhã, à margem de represa uruguaia na qual aparece em perfil e de corpo inteiro, segurando cuia de chimarrão o presidente exilado João Goulart com o olhar direcionado na linha do horizonte, como quem busca respostas e esperanças futuras. Tais imagens captadas num intervalo muito próximo de cinquenta anos estimulam reflexões.

"Pepe" Mujica, presidente uruguaio, dissentiu do governo de seu país, teve efetiva participação no movimento armado de resistência dos Tupamaros, foi levado à prisão por quase catorze anos, iniciando tão logo anistiado carreira política que o levou até a Presidência de seu país. Homem de vida modesta, morador de pequena propriedade rural nos arredores de Montevidéu, circula num velho fusca 1987 e convive amistosamente com o carinho e a estima de seu povo sem nenhum tipo de proteção ou segurança. Seu passado, seu carisma e sua simplicidade aparentemente constituem insuperável escudo protetor que dispensa escoltas e atividades ostensivas de proteção.

João Goulart, presidente constitucional brasileiro, cujos ombros escoraram frustrações nacionais provocadas pela inconsequente renúncia de Jânio Quadros, sem tempo para reverter radicalismos e abrir rumos transformadores, foi apeado do poder num movimento de quebra da legalidade incentivado e garantido por potências estrangeiras e abdicou, embora pudesse fazê-lo, da defesa de seu mandato, evitando que a nação mergulhasse em banho de sangue. No exílio permaneceu amargo e silencioso, esperando por expectativas de futuro, como revela aquela foto inédita. E por lá faleceu, sem certeza de moléstia ou assassinato, muito antes de ser anistiado e sem tempo para reconciliar-se com sua pátria e com seu povo, como tantos outros puderam fazer.

Dois homens com liderança, originários de países vizinhos, com trajetórias iniciadas numa mesma época e que atravessaram outras épocas com diferentes destinos. Um deles teve força e tempo para atingir seu projeto de vida. Ao outro, que abdicou da força, faltou tempo. E as imagens da semana induzem meditação sobre os destinos de ambos, influindo decisivamente nos destinos de seus povos. Assim é a vida.

O autor é advogado e articulista do JC

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