Cultura

20 anos de ?Descobrimento do Brasil?

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 3 min

Está nos livros: formada por 13 caravelas, a frota de Pedro Álvares Cabral chegava às terras de Vera Cruz em 22 de abril de 1500. Muitos índios seriam mortos pelo homem branco dali em diante. 

 

Está no disco: o mundo girou e, em 22 de abril de 1994, a banda Legião Urbana (que já havia gravado “Índios”, sobre espelhos e um mundo doente) colhia os primeiros frutos de seu sexto álbum, “O Descobrimento do Brasil”. Entre as músicas que o Brasil começava a descobrir há 20 anos, “Perfeição”. Aquela do “meu país e sua corja de assassinos”. 

 

O mais cultuado grupo nacional parecia desejar, de fato, descobrir-se – inclusive no sentido de “desnudar-se”. 1994 também foi ano de clipe, de shows e de entrevista para Jô Soares, então no SBT – a segunda ao apresentador desde 1989. 

 

“A ideia das flores, da coisa mais bucólica e lírica”, foi da gente mesmo”, explicava Renato Russo a Jô sobre encartes especiais da edição de luxo do álbum. A explicação também vale para aquele som novo lançado em novembro de 1993 e divulgado durante todo abril e maio de 1994. 

 

“Estamos pretendendo fazer uma série de shows antes do início da Copa”, dizia a Jô um encabulado-quase-à-vontade Renato Russo. Shows eram previstos para Belo Horizonte, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro... 

 

Caminho nada suave

 

Na atração, o cantor afirmava não ter problemas com o palco, em relação a fazer poucos shows, mas, sim, “problema de dependência química”. Porém, demonstrava otimismo com uma “programação dos 12 passos” do A.A. “Eu estava indo pelo mesmo caminho do Kurt Cobain”, afirmou em relação ao recém-cometido suicídio do líder da banda Nirvana, em 5 de abril daquele ano. 

 

“Eu, por ser romântico, sempre buscava no álcool uma coisa da poesia, de ver o mundo e sofrer. A palavra para álcool em latim é ‘espírito’. Ocorre que o álcool transfere para a pessoa a ilusão de espiritualidade e acaba minando qualquer espiritualidade que a pessoa possa ter”. 

 

Nessas condições, para o artista, restava apenas a “sensação e vazio terrível, de que não existe Deus. Estava escrevendo músicas muito negativas. Assim não pode.” 

 

Ao lado de Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá,  Renato se mostrava entusiasmado com o disco de inéditas, mas foi aplaudido mesmo quando disse que, no programa, tocariam um clássico composto em 1978 sobre favelas, Senado e sujeira por todo o lado. 

 

Renato morreu, a Legião acabou e, depois de tantos escândalos, desmandos e descobrimentos, ainda é o que todos se perguntam: que país é esse?

 

Nova fase

 

Não é por acaso que a música “Vinte e Nove” abre o álbum “O Descobrimento do Brasil”. Ela traz um tom confessional de quem batalhava contra a dependência química. 

 

Segundo disse em uma entrevista a irmã, Carmem Teresa, Renato Russo fez a canção em referência aos vinte e nove dias em que passou numa clínica chamada Vila Serena. 

 

De lá, o trovador de Brasília pretendia engatar uma nova fase de vida, mais leve e menos sinuosa. Como na delicada “Giz” que era, para ele, a sua canção mais “completa” entre aquelas 14 do disco. 

 

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