A passeata foi realizada na manhã deste sábado (10), no Calçadão da Batista, em Bauru, e se repetiu em dezenas de cidades do Estado de São Paulo, para unificar as reivindicações do setor da Saúde.
Os apitos dos funcionários de serviços de saúde que ecoaram pelo Calçadão, na manhã deste sábado (10), podem ser 'ouvidos' em Brasília (DF) e, depois de anos seguidos de reivindicação, culminar com a redução na jornada de 36 para 30 horas semanais para enfermeiros e, quem sabe técnicos. Mas, entre gestores do sistema e mesmo entre os funcionários, a jornada menor não será a solução para o desgaste no ambiente de trabalho. Isso porque mais de 2/3 dos profissionais de base do segmento atuam em dupla jornada.
A presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Serviços e Estabelecimentos de Saúde de Bauru e Região, Vera Lúcia Salvadio Pimentel, coloca, de sua parte, a redução na jornada como prioridade, mas associada a outras medidas. “Nossos dados são de que boa parte dos funcionários atua em até três jornadas e a maioria tem dois empregos. A jornada de 30 horas é uma necessidade, porque esses trabalhadores não têm tempo para conviver com a família e vivem sob intenso stress. Mas isso preciso ser ajustado com piso de referência, senão o problema vai persistir”, admite.
Vera Lúcia afirma que, nos moldes atuais, funcionários estão utilizando o período de férias para cuidar de sua própria saúde. “Com duas e três jornadas, fora quem tem bico como cuidador, o trabalhador da saúde não tem a menor condição de se cuidar. E muitos estão trabalhando doente, esperando as férias para ir fazer check-up, ou exame”, reforça.
O sindicato, que realizou passeata no Centro de Bauru, conforme ação organizada em todo o Estado, lembra que uma denúncia foi levada ao Conselho Regional de Enfermeiros (Corem), em São Paulo, sobre o assunto. “Mas nós queremos que eles venham aqui e que não atuem na fiscalização apenas verificando planilhas. Porque no papel a escala aparece até certinha. Mas na prática, o número de funcionários nas escalas é bem menor do que precisa”, cita.
Para o diretor executivo do Hospital de Base, Maternidade Santa Isabel e Ambulatório Médico de Especialidades (AME), instâncias geridas pela Fundação para o Desenvolvimento Médico Hospitalar (Famesp) e que também comanda o Hospital Estadual de Bauru (HE), Antonio Rugolo Júnior, a reivindicação tende a ser recepcionada em lei, mas não resolverá a pendência.
“É uma reivindicação antiga e seu resultado do ponto de vista operacional e financeiro é que teremos a ampliação de custo no sistema para fazer a cobertura de escalas. É quase 1/3 a mais de custo para o setor, em se tratando de redistribuição de horários para técnicos e enfermeiros. Mas isso não resolve na prática porque 70% dos trabalhadores atuam em mais de uma jornada. As 30 horas, na prática, furam a justificativa de que o paciente na segunda jornada não sofrerá algum risco em razão da sobrecarga do profissional que o atende, porque a dupla jornada não vai acabar com as 30 horas, ao contrário, vai se acentuar”, opina.
Na visão de Rugolo, a energia pela redução de jornada deveria ser concentrada pela luta por melhor remuneração. “A dupla jornada está consolidada no sistema. Lutar por melhor salário deveria ser a questão central. Mas acho que a questão das 30 horas tende a ser aprovada”, complementa. Durante a passeata de ontem, funcionários reclamaram que nos turnos dos hospitais locais o número real de profissionais atuando é bem menor do que está nas planilhas. Não haveria reposição adequada para casos de férias e licença.
Sobre o assunto, a assessoria de imprensa da Unimed posicionou: “A Unimed e o Hospital Unimed Bauru seguem as determinações da Lei Trabalhista sobre o assunto”.