Aceituno Jr |
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Marisa, Raquel e Sophia: valores e princípios maternos que ultrapassam gerações |
Mãe que é pai, pai que é mãe. Não importa. Atualmente, o retrato das famílias não se resume a um homem e uma mulher com a responsabilidade de criar os filhos. Pode ser uma avó, um avô, dois homens, duas mulheres, apenas um pai etc. Mas em todos estes lares existe uma figura imprescindível: a figura materna.
Qualquer que seja a situação, há sempre alguém que assume a função de mãe e zela pelo lar e pelos filhos. “A mãe não é só aquela que gera, mas aquela que dá amor, que dá afeto nos primeiros momentos de vida do indivíduo e, aconteça o que acontecer, ela sempre estará presente para proteger os filhos”, explica o professor de filosofia Antonio Carlos da Silva Barros.
Para ele, existe uma natureza na relação entre mães e filhos que ninguém consegue explicar, e o afeto passado da mãe para o filho é carregado pelo resto da vida.
Na maioria das vezes não falta ao filho o amor de mãe, mas falta à mãe o amor de filho. Muitos deixam seus pais em asilos e não se importam. Porém, quando forem pais, vão entender a gravidade do que fizeram. “É difícil cuidar de pessoas idosas? Sim. Mas eu não tenho o direito de negar cuidado a quem cuidou de mim. Não tenho o direito de tirar essas pessoas do convívio familiar. A ausência de afeto familiar abala o indivíduo.
Mesmo aqueles que não receberam o afeto materno devem tentar praticá-lo com seus filhos. Porque, apesar do vínculo entre mãe e filho existir, muitas não conseguem demonstrá-lo e acabam afetando uma geração. “Não é o que ocorre na maioria das vezes, mas existe. Principalmente nos tempos pós-modernos. As gerações atuais devem refletir se no futuro elas terão alguém que dará este afeto, este carinho e atenção que são necessários para nossa sobrevivência como humanos”, diz Barros.
Mãe como construtora da sociedade
Não é preciso ser nenhum especialista para saber a importância da mãe na formação dos filhos. São elas que têm a capacidade de unir as pessoas e de formar a sociedade. “Se olharmos a construção do ser humano em sociedade, é a mãe que tem o papel efetivo de manutenção da vida”. O professor ainda explica que, quando o ser humano nasce, o primeiro contato que tem é com a mãe - ou com alguém que faça este papel - não importa, é ela quem ensina o indivíduo a viver e fornece a primeira lembrança de afeto.
“Somos totalmente diferentes dos animais justamente por este vínculo tão forte. Os mamíferos, quando saem do ventre de suas mães, recebem os primeiros cuidados, mas depois se tornam totalmente independentes, rompendo a relação mãe e filho. Nós, seres humanos, precisamos do afeto materno para nos moldar”, relata Barros.
O professor acredita que a afetividade desta relação esteja passando por novos contornos devido ao atual aspecto social, mas jamais deixará de existir. “Pode haver aspectos positivos ou negativos dentro destes contornos, mas o afeto entre mãe e filho é único, ímpar e insubstituível. É a mãe que ampara, que sustenta, e isto está além da nossa compreensão humana”.
Questionado sobre o atual problema desta relação, ele afirma que é a comunicação. A falta de uma comunicação verbal ou afetiva e a ausência de paciência dos filhos para com suas mães é o que causa um ruído na relação.
“Nós só entenderemos as mães se nos colocarmos no lugar delas. O cordão umbilical pode ter sido cortado, mas aquele cordão que une as almas, que faz do filho uma extensão de sua mãe, ainda está lá”, conclui.
Na avaliação de Barros, as mães ensinam as melhores aulas quando passam valores e instruem os filhos para a vida. Se os princípios aplicados forem errados, a construção do ser humano estará errada. Ela é o fundamento da família.
“Uma mãe não prepara o filho para viver só dentro de sua família. Ela o prepara para o mundo, para as relações que ele vai ter para a vida inteira. E os princípios que esta mãe passa através do afeto (do beijo, do toque e do abraço) vão acompanhá-lo por toda a vida”, garante.
Barros finaliza dizendo que indivíduos sem afeto materno são apenas indivíduos, e não seres humanizados. “É a mãe quem nos recebe e nos prepara para o mundo. É ela que passa a experiência de sermos seres humanos. A contribuição materna para a sociedade é infinita como sempre foi. Em todos os tempos”.
Mãe: um sentido plural
“No mundo globalizado de hoje, vivemos um cenário que apresenta muitos sentidos de maternidade e muitas nuances de afeto. E o afeto existente entre mãe e filho é algo muito particular”, define Lidia.
Apesar dos relatos de que ser mãe é algo sobrenatural, nem todas elas estão preparadas para a maternidade. Cenário este que, tempos atrás, não era aceito. “Soava mal uma mulher dizer que não queria ter filhos. A maternidade acabou sendo uma imposição cultural da sociedade, mas hoje a mulher já tem o poder de escolher”, afirma.
Sobre ser mãe, a professora diz que não existe apenas uma definição para a maternidade. Pelo contrário, ela é determinada por diversos fatores como o momento, a situação histórica atual e o nível de relacionamento. Se a maternidade for analisada em vários momentos históricos, não haverá um tipo unânime de mãe. “A palavra mãe tem infinitos atributos e significados. Cada pessoa agrega um adjetivo, um valor para a sua”, analisa.
O afeto também é algo muito individual e particular entre mães e filhos, e não vem apenas daquela que gerou, mas sim de quem assume este papel. Não pode ser comprado, e sim construído a cada dia. “Vejo o afeto como um arco-íris, onde a pessoa pode ser mais intensa ou menos intensa em uma cor na medida em que exista a chance de convivência, de experiência conjunta, principalmente quando os filhos estão adultos”, diz.
E, apesar de receber afeto, um dia o filho se transformará em um indivíduo com vontades e fará suas escolhas. Lidia diz que o papel da mãe é guiar os filhos para a vida, e não interferir em suas escolhas. Por isso, muitos conflitos ocorrem, mas por conta deste afeto natural. “Mãe é quem dá amor, quem cria, então, é compreensível este instinto de proteção com o filho”.
Assim como não se pode conceituar a maternidade de uma única maneira, o afeto também não pode ser homogeneizado. “Não existe um único afeto no mundo e ninguém é a mesma mãe a vida inteira. Outras facetas de ambos vão sendo redescobertas e modificadas ao longo da vida”, garante Lidia, que acredita não ter sido a mesma mãe para suas três filhas - Flávia, Andrea e Fernanda - pelas mudanças e dinâmicas de comportamento a que todos estão sujeitos.
Amor em dobro
Há mais de 50 anos, as vidas de Judith e Roza se cruzaram. Foi em um mês de março que Judith deixou Isabel nos braços de Roza. Uma, devastada com o término do casamento - sem condições financeiras e psicológicas - precisava de ajuda. A outra, com três filhos em casa e sem a presença de um marido abriu os braços e acolheu a pequena.
“Eu estava vivendo um momento complicado e não conseguiria dar toda a atenção que uma criança precisa, foi aí que uma amiga minha falou de Roza”, conta Judith.
Roza era conhecida por cuidar de crianças enquanto os pais trabalhavam (naquela época não existiam creches). Mas Roza fazia por amor, já que não recebia nenhum valor para olhar as crianças. “Sempre gostei de crianças. Os pais que tinham condições davam uma ajuda financeira, mas eu olhava por prazer”, explica. E nesse meio tempo Isabel chegou, mas para ficar.
Bel cresceu com Roza e seus filhos - e com mais 12 crianças que chegariam depois -, mas desde criança, sempre soube da existência de Judith.
“Desde que fui entendendo as coisas, a minha mãe (Roza) me explicava da minha outra mãe (Judith). Nunca fiquei revoltada ou algo parecido”, afirma.
Até porque, Judith fez o que fez por amor à filha e sempre acompanhou seu crescimento. “Quando ela tinha uns 8 anos, consegui me mudar para uma casa melhor, montei um quarto lindo e quis que ela morasse comigo, mas não adiantou”, relembra. Judith ainda explica que, no começo, ficou bastante triste com a situação, mas depois entendeu.
Quando Bel ficava doente ou precisava de ajuda na escola, era Roza quem estava lá, mas a figura de Judith era sempre presente. “Tenho sorte de tê-las na minha vida. Tenho mães que me amam de formas diferentes. São dois amores”.
Os anos se passaram e Bel só saiu da casa de Roza para se casar. Hoje tem marido, dois filhos e duas mães. “Nós três estamos sempre juntas, nos falamos todos os dias. Não importa a ocasião. E também levo para a vida os irmãos que ganhei com minha mãe Roza. De duas famílias viramos uma”, alegra-se Isabel.
A relação das três é algo impressionante e bonito de se ver. Os diferentes amores se unem formando um só. Talvez possa existir um ciúme entre as duas mães, mas tudo por excesso de zelo e amor. Para Roza, o sentimento que nutre por Bel é muito especial. “Cuidei de 12 crianças, tive três filhos, mas para mim ela é mais do que uma filha”. Judith também não fica atrás. “O amor que eu tenho pela minha filha é algo maravilhoso”, garante.
A história de Judith, Roza e Isabel é um exemplo de compreensão e de como o amor materno é transcendental, ultrapassando qualquer barreira. “Minhas mães representam lições de vida para mim. Sou quem eu sou hoje devido ao aprendizado e afeto que recebi das duas”.
Muito emocionada, Isabel fala das duas mães com muito carinho. “Ter duas mães é uma felicidade enorme. Você vive sem o amor de pai, mas sem o amor de mãe, não. É uma dádiva”, diz, com os olhos marejados.
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Maria Isabel entre suas duas mães: Judith dos Santos, a biológica e Roza Maria Medina, a de criação |
Mãe é quem ama
Engravidar sempre foi difícil para Lígia, que durante quatro anos fez vários tratamentos com o objetivo de realizar o sonho de ser mãe. Úrsula, sua filha mais velha - 22 anos -, veio para reascender a esperança da maternidade. Porém, passados alguns anos, Lígia descobriu que, após uma endometriose, não poderia mais gerar filhos. “Quando isso aconteceu, decidi que eu não ia deixar de ser mãe outras vezes e a minha escolha e do meu marido, Regiel, foi a adoção”, relembra.
Apesar de não ter escutado uma opinião unânime de amigos e familiares sobre a escolha, o casal decidiu se guiar pelo coração e começar o processo de adoção. “Sempre há opiniões divergentes sobre o assunto. Isso ainda é um tabu para muita gente”, opina Lígia.
A espera durou três anos e meio e foi no início do mês de setembro de 2001 que a família recebeu a notícia de que havia um bebê à espera na maternidade, e a alegria tomou conta da casa. Porém, ao chegar no Fórum, a situação foi outra. “Ninguém sabia o que falar para mim e nem como falar. O pai da criança apareceu e não a deixaria mais para adoção. Fiquei muito deprimida. Foi como se eu tivesse tido um aborto”, se entristece.
Vinte dias depois, a família Gambetti descobriu que receberia mais um integrante, e desta vez seria para valer: Pietra - hoje com 12 anos. “Eu estava comprando um fogão e me ligaram do Fórum dizendo que havia um bebê, e que era pra eu ir visitá-la. Respondi que já era minha filha e que eu não precisava nem ver”, conta Lígia.
Mais três anos e meio se passaram e foi a vez de Sophia aparecer para completar a família. “Na vez da Sophia eu estava fazendo as unhas e meu marido me ligou dizendo que tinha chegado outra menina na maternidade. Eu disse de novo que já era minha filha e saí correndo com uma mão feita e outra sem fazer”, relembra, aos risos.
A adoção de Sophia (8 anos) foi mais complicada, já que Lígia recebeu a notícia sobre a criança numa sexta-feira e o juiz só queria concretizar o processo na segunda. “Bati o pé e disse que não sairia sem minha filha da maternidade, e que se fosse preciso eu dormiria os três dias no hospital. Conclusão: consegui”.
Sophia nasceu prematura aos 7 meses, pesando pouco mais de um quilo, e precisou ficar dez dias internada na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). A mãe relembra que ela era um ‘pedacinho de gente’. “Apesar de pequena, ela me olhou com desconfiança quando cheguei. Mas logo que comecei a conversar com ela e expliquei que a mãe dela estava ali, ela relaxou”, conta, emocionada.
Troca de experiências
Hoje, Raquel (23) tem dentro de casa Sophia, de 4 anos, e está grávida de 8 meses de Miguel, fruto de seu atual casamento. Ela garante que, nesta família, afeto é o que não falta. “Nós adoramos beijar, abraçar e dar carinho. Herdamos isso da minha mãe. Somos todos muito amigos.”
Já Marisa - que além de Raquel também é mãe de Tiago (32) e Sarah (30) - recebeu afeto familiar, mas não da parte de sua mãe, e sim do seu pai. “Com minha mãe aprendi os princípios mais importantes, como respeitar o próximo e as diferenças, mas ela não era muito de beijar e abraçar. Essa parte de afeto ficava com meu pai, que era muito carinhoso”.
Marisa acredita que receber afeto “em casa” é muito importante, e passar isso para os filhos é essencial para formá-los para a sociedade.
E quando o assunto é maternidade, os olhos de Raquel e Marisa ganham um brilho inexplicável. “A maternidade nos muda como pessoa, e tudo o que fazemos começa a ser pensando nos filhos”, diz Marisa.
Já Raquel recebeu a maternidade ‘no susto’. “Como eu era muito nova quando fiquei grávida, minha vida toda mudou. Mas hoje, ser mãe é minha vida. Me transformei em uma pessoa melhor, com certeza”, conta.
Içami Tiba: é preciso conhecer para amar e educar
Ser - A falta de amor é um mal da modernidade?
Içami Tiba - O amor existe, o que falta é o conhecimento para amar, um amor sustentável. Aquele que sustenta a família, em que a família conversa e se entende. Não aquele em que a mulher lava os copos e o homem espera o jantar e cada um fica no seu canto. Amor não é só sentimento, é responsabilidade. Assim como liberdade não é fazer o que quiser... É liberdade com responsabilidade. Falta o saber educar.
Ser - As mães têm importância na formação e transformação da sociedade?
Içami - Lógico. É uma das mais importantes. Ela é a principal formadora da personalidade dos filhos. O problema é que muitas mães deixam de ensinar o que se precisa. Os filhos têm que ser capacitados para a vida, mas as mães estão criando os filhos de forma machista. A mulher fora de casa emancipou-se do machismo, mas em casa continua educando seus filhos como sua própria mãe, sua avó, perpetuando o machismo. Elas fazem tudo para eles. Lavam copo, arrumam quarto. E pedem ajuda para as filhas nas coisas da casa. Quero que as mães despertem e parem de perpetuar machismo. Até no próprio Dia das Mães o serviço sobra pra elas.
Ser - O afeto maternal ajuda no bom encaminhamento dos filhos?
Içami - Sem dúvidas. O afeto cabe sempre. Mas o que não se pode é permitir e aceitar o erro do filho sem que ensine o certo. Ensinar as mães ensinam, mas não cobram que os filhos pratiquem o certo. Elas deixam de aplicar as consequências se não praticarem. Amor complacente não educa. O que educa é o amor exigente, que ensina e cobra mudanças dos erros.
Ser - Para onde caminham as relações entre mães e filhos?
Içami - A relação entre mães e filhos está mal. Existe uma inversão de poderes, isto é, a mais capaz
(mãe) se submete ao incapaz, filho. Quem manda em casa é uma criança imediatista, egoísta, menos capacitada que as mães para decidirem o que é melhor para ela. É como uma mãe que sabe dirigir entregar o comando do seu carro para um filho pequeno. Filhos que não praticam, não aprendem o bem, não desenvolvem a responsabilidade, forte ingrediente da liberdade. Muitas mães concorrem com suas filhas adolescentes, rivalizando-se como mulheres.
Ser - Como essa relação pode melhorar?
Içami - Estudando a educação. Não é porque um homem e uma mulher ganham um filho que se tornam educadores. Hoje a educação é um processo racional, pois o amor, mesmo que seja essencial, não é suficiente para educar. É preciso que os pais adquiram conhecimentos educativos através de livros, palestras, orientações de pessoas com prática. Como ninguém sente falta do que não conhece e se vira como pode, a criação dos filhos acaba virando um risco, uma aposta, que se não der certo o preço que se paga é muito alto. Quando os pais se preparam para educar, o relacionamento entre pais e filhos melhora muito.
Ser - Como o excesso e a falta de afetividade influenciam os filhos?
Içami - Acredito que não exista falta ou excesso de afeto. Existe gostar e não gostar. O que faz mal é o excesso para mais ou para menos. Sofrem mais os filhos carentes de afeto porque empobrecem sua autoestima, do que os excessos que ficam mimados. Ambos tornam-se frágeis perante as exigências da vida.
Ser - Como os pais podem ajudar as mães no relacionamento com os filhos? E como eles atrapalham?
Içami - Tem que estudar sobre educação. O pai é menos voltado à educação que a mãe, que se incomoda mais. O pai não é auxiliar da mãe no relacionamento com filhos. Ele tem sua própria importância e maneira de se relacionar. O que é necessário é que ele participe muito mais que o faz na realidade. Eles se atrapalham quando um sabota o outro por não serem coerentes entre si. Pai e mãe têm que se adequar para que ambos cobrem o que tem que ser cobrado, caso o filho não faça o que deveria ter feito.
Ser - Como regras e afeto podem andar lado a lado?
Içami - O afeto exige regra, exige companheirismo. Se um não respeitar o outro, o afeto acaba. São as diferenças que enriquecem o relacionamento. Entre mãe e filho afeto é essencial. Mas regra só deve ser colocada para o filho aprender, depois que aprender já não é mais regra. Não tem como ficar controlando o que o filho faz, ele que tem que aprender a fazer. Não se ensina com destempero emocional. Se perder o controle da situação e ficar nervoso, é melhor o educador se retirar, acalmar-se e voltar. Respeito de líder não se consegue com destemperos emocionais. No meu livro escrevo sobre ‘Os pilares da educação sustentável’, que são: Quem ouve esquece. Quem vê imita. Quem justifica não faz. Quem faz aprende. Quem aprende produz. Quem produz inova. Quem inova sustenta. Quem sustenta é feliz. Neste meu livro mais recente, ‘Educação Familiar: Presente e Futuro’, explico que as mães educam os filhos errado por amor. Em instantes, elas vão perceber que é errado guardar os brinquedos dos filhos ou ajudá-los muito nos estudos.
Ser - Pai e mãe possuem papéis definidos dentro de casa? O que a inversão destes papéis pode acarretar?
Içami - Teoricamente não, mas tradicionalmente sim. Deveria ser os dois com a mesma função de educadores complementares. Tradicionalmente o pai não se ocupa da educação em si e acaba sobrando mais para a mãe. Mas hoje o cenário está bem diferente e o poder é compartilhado pelos dois. Mas não podemos dizer que está muito diferente, porque a educação machista ainda impera na maioria dos lares. Apesar da emancipação das mulheres no mercado de trabalho, ela ainda vai para a cozinha depois de se casar, toma conta de tudo e o homem vai para a sala, isso no sentido genérico. A explicação básica para este comportamento é que a mulher tem mais hormônio de ocitocina - que é o hormônio do relacionamento -, já o homem tem mais testosterona - hormônio do machão. A mãe, quando briga com o filho, o faz por preocupação, já o pai nem tanto. Por isso que a mãe deve se conscientizar de que precisa educar os filhos, mas dividir este papel com o pai e não fazê-lo sozinha.
Ser - Como o senhor vê a amizade entre pais e filhos?
Içami - Hoje o pai está mais afetivo e se desvencilhou bastante daquela imagem de pai antigo. Com isso, tem pai que quer ser amigo do filho, enquanto a mãe pode ser amiga, mas não abre mão da sua função de mãe. Mas os pais têm que entender que, em primeiro lugar, cada um tem que exercer seu papel dentro de casa, e depois a amizade. O vínculo entre pais e filhos é único, com os amigos é diferente. Mãe e pai nós só temos um de cada, amigos nós temos vários.
Ser - Ser mãe não vem com manual. Como ser uma mãe melhor?
Içami - Teoricamente vem sim. O filho é um manual. Se os filhos tivessem poderes, ensinariam às mães como fazer. Como o filho não tem poder de comunicação, ele chora. Com o crescimento, ele vai chorando cada vez menos. Mas a mãe ainda continua a fazer as coisas para ele, tornando-o dependente dela, sendo sua escrava. A mãe deve aprender a ensinar. Muitos dizem que se aprende na prática, mas o conhecimento é necessário. Os filhos de hoje estão ficando sem educadores. E isso é ruim.
Ser - Muitos pais deixam para a escola o papel da educação. Isto é errado? Por que?
Içami - As escolas não ensinam a aprender, ensinam a decorar. E a base da família não tem como ser reproduzida. Passar os valores como não mentir, ser uma boa pessoa, cabe à família fazê-lo. A escola tem outros valores a ensinar como aprender a ler, escrever, somar etc. E filho é para sempre, fica com os mesmos pais. Já a escola e professores mudam ao longo da vida.
Ser - Como não deixar que a criança perca a referência da mãe?
Içami - A figura da mãe é de extrema importância dentro de casa. A mãe deve ter conhecimento para educar. Ter filhos não é um experimento. Os filhos têm que dar certo, eles são a sociedade, logo você vê a importância da mãe como educadora, e do pai também.
Ser - Deixe uma mensagem para as mães.
Içami - Mães, ensinem seus filhos a agradecer e serem gentis com outras pessoas, começando por vocês. Muitas mães aceitam maus-tratos dos filhos. Isso é inadmissível. Os filhos têm que aprender que, assim como as mães colocam os filhos em primeiro lugar, eles têm que colocar as mães em primeiro lugar. O que é pior é que as mães geralmente atendem seus filhos, mesmo que estes lhes sejam grosseiros ou mal agradecidos, e esperam que os filhos aprendam pelo exemplo que elas dão. O que os filhos aprendem é receber agrados, e não agradecer, pois o que eles aprendem é o que eles fazem.
