Economia & Negócios

Renegociação de dívidas aumenta

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Depois de um período de farto acesso ao crédito, os bauruenses ficaram endividados e, agora, correm contra o tempo para honrar seus compromissos. Segundo especialistas no assunto, o volume de pessoas que buscam renegociar suas dívidas na cidade cresceu significativamente no último ano.

O fenômeno faz parte de um ciclo, iniciado há alguns anos com a aceleração no consumo proporcionada pelo crédito fácil e pelo aumento da renda da população. Após a euforia, no entanto, veio a ressaca.

Éder Azevedo

O pedreiro Marcos Cezário estourou o limite do cheque especial

Sem conseguir honrar os débitos contraídos, muitos consumidores tiveram seus nomes negativados nos órgãos de proteção ao crédito. “E, por consequência, eles ficaram mais cautelosos, o que refletiu diretamente nas vendas”, observa o economista Reinaldo Cafeo.

O que há, agora, é um movimento intenso para tentar sair da inadimplência. Ontem, em uma agência bancária da região central, a reportagem pôde observar diversos clientes aguardando na fila para renegociar suas dívidas.

Não há números precisos sobre a quantidade de processos de renegociação em andamento, mas a tendência é corroborada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), onde a procura pela regularização dos débitos também aumentou. Mas, até o mês passado, 36.682 pessoas ainda estavam inadimplentes no comércio de Bauru, o que corresponde a mais de 10% da população. A dívida acumulada já somava R$ 30,681 milhões.

O auxiliar de produção Leonardo da Silva dos Santos, 24 anos, ficou com o nome sujo depois de parar de pagar as prestações de um automóvel, comprado há quatro anos. Atualmente, o débito gira em torno de R$ 4 mil, valor que ele pretende negociar, embora adiante não ter renda suficiente para tanto.

“O carro foi retomado e meu nome foi parar no SPC. Então, nem tenho como fazer empréstimo no banco para conseguir acertar a dívida. Queria financiar uma casa, mas também não consigo”, comenta.

Restrição

A restrição também é uma realidade antiga na vida do pedreiro Marcos Antonio Cezário, 33 anos. Depois de estourar o limite do cheque especial, há cerca de cinco anos, não conseguiu entrar em um acordo com o banco e, até hoje, deve à instituição.

“O valor era de R$ 575,00 e pedi para parcelar, mas não aceitaram. O tempo foi passando e, agora, a dívida já dobrou de valor”, lamenta. Auxiliar de serviços gerais, Sílvia Helena Silveira Alvarenga, 42 anos, também tenta pagar dois débitos que fizeram com que seu nome fosse negativado no SPC.

Um deles, no valor de R$ 500,00, foi contraído há cerca de três anos, quando ela era revendedora de cosméticos.

Depois de tomar alguns calotes das clientes, não conseguiu repassar o percentual devido à empresa e, até o momento, não conseguiu firmar um acordo.

Sílvia deve, ainda, aproximadamente R$ 400,00 a uma operadora de celular, de contas que ficaram atrasadas.

“Com a minha renda, só conseguiria pagar se fosse em parcelas pequenas. Mas, até agora, em nenhum dos dois casos consegui um consenso”, observa.


Em dois anos, 20% a mais de munícipes renegociaram dívidas com a prefeitura

O “boom” da renegociação também parece ser realidade na Prefeitura Municipal de Bauru. Secretário de Finanças, Marcos Garcia, aponta que, nos últimos dois anos,  a renegociação de dívidas de munícipes aumentou até 20%, impulsionada, principalmente, por um novo sistema de cobrança.

É que, desde 2012, a pasta obteve autorização para instituir um setor específico dentro da secretaria que funciona como uma espécie de “recuperadora de crédito”. Três funcionárias atuam renegociando e cobrando os devedores de impostos como o ISS e o IPTU e de taxas como a do Corpo de Bombeiros, seja por telefone ou por cartas de notificação.

Para se ter uma ideia, em 2013, cerca de 50 mil cartas foram enviadas para devedores em toda a cidade pelo setor, pedindo para que os responsáveis comparecessem à secretaria para quitação ou renegociação dos valores. As dívidas variam entre centavos e até R$ 1 milhão.

“A existência de um setor específico resultou em mais agilidade e fez com que o pessoal pagasse e renegociasse mais. Além disso, também facilitamos o pagamento em até cinco anos, desde que a dívida atinja uma parcela mínima de R$ 50,00 ao mês”, afirma o secretário. “Até outubro, as renegociações devem crescer mais, já que começaremos a protestar os débitos antes de ajuizarmos as ações”, completa.


Ponderação e resistência

Segundo o economista Reinaldo Cafeo, os bancos costumam recrutar os serviços de empresas recuperadoras de crédito para cobrar dívidas de até R$ 15 mil. Acima deste patamar, a cobrança tende a ocorrer em juízo.

“Antes disso, já houve tentativa de negociação direta e o devedor teve o nome incluído no SPC. Quando isso ocorre, o cliente não tem mais nada a perder. Então, a recomendação é ter muita ponderação e saber resistir e negociar”, ensina, explicando que, em alguns casos, é possível ter abatimento de até 70% do valor inicialmente devido.

No comércio, quando fica com o nome negativado, o consumidor pode renegociar a dívida diretamente na sede do SPC, localizada na quadra 4 da rua Bandeirantes, no Centro. Segundo o gerente executivo do órgão, Édio Cássio Ramos, não há um limite máximo estabelecido para o parcelamento, que será negociado de acordo com a capacidade do consumidor. 

“Nossa intenção é recuperar o dinheiro da empresa e, principalmente, o consumidor, para que ele possa voltar a comprar nas lojas. Tanto é que o nome dele fica limpo já a partir do momento em que paga a primeira parcela”, pontua.

Comentários

Comentários