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Retorno para a planície

J. F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Conforme a crença de cada um, os fatos acontecem pela vontade de Deus ou pelas artes do demônio ou, então, pelas circunstâncias da vida. Diz a história (ou a lenda) que certo dia na sala de embarque de certo aeroporto sentaram-se, lado a lado, dois homens. Um deles padre famoso e influente que tinha, inclusive, sala privativa no Palácio Presidencial e o outro um desconhecido procurador da República e professor de direito. Durante a espera, trocaram palavras simpáticas e cartões pessoais e cada um seguiu sua viagem e sua trajetória de vida. Aberta vaga no Supremo Tribunal Federal e sendo intenção presidencial nomear ministro que, além dos requisitos constitucionais (Constituição, art. 101), fosse afro-descendente, o padre influente lembrou-se do cartão trocado no aeroporto e fez apresentação inicial de Joaquim Benedito Barbosa Gomes para aquele cargo. Foi mais ou menos assim: diz a história (ou a lenda) que o ministro Joaquim Barbosa, após superficial sabatina - como de lastimável tradição do Senado Federal - teve seu nome aprovado pela folgada maioria governista, deixou a planície e viu-se catapultado para o Supremo Tribunal Federal. Tudo muito fácil.

Ali, logo que foi revelando a que vinha, conquistou adeptos e desafetos e diz a história (ou a lenda) que o sacerdote responsável por sugerir sua investidura logo perdeu a sala no palácio e sua influência no governo. Durante sua judicatura na Suprema Corte não ocorreram, salvante a Relatoria da Ação Penal 470, grandes surpresas judicantes ou votos expressivos que sinalizassem grandes e fundamentais mudanças nos julgamentos de nossa Corte constitucional, sendo justo afirmar que o ministro Joaquim Barbosa viu-se notabilizado tão só pelo modo e forma com que conduziu aquela ação penal, a ele se devendo, em boa parte, o desfecho condenatório do julgamento e o ponto que saiu fora da curva como afirmado por seu pedante colega de Corte, o ministro Luiz Roberto Barroso. Pondere-se que eventuais resultados absolutórios depois de lenta e longa tramitação desmoralizariam nosso primeiro Tribunal.

Mesmo podendo permanecer na Corte ainda por muitos anos, o ministro antecipou despedidas aos chefes dos demais poderes e anunciou aposentadoria retornando para a mesma planície que deixara logo após aquele encontro fortuito no aeroporto. Esse retorno pode ser áspero e difícil, perdem-se predicamentos, desaparecem honrarias e reverências e no mundo dos iguais aqui por baixo filas podem virar rotinas, dificuldades podem aparecer e não será raro surgirem desafetos sequiosos de humilhação e retaliação.

A vida profissional depois da quarentena legal poderá esbarrar em restrições e trombar com sutis inconveniências ponderadas por grandes escritórios de advocacia antes de eventual acolhimento de um novo colega da banca. Num povo sem memória admiradores e adeptos podem começar a rarear. Nessa situação comum carregada de expectativas e surpresas incomuns, será a consciência e certeza de deveres bem cumpridos que funcionará como excelente escudo protetor e se prestará como seguro critério pessoal para apurar e revelar se a vontade de Deus, as artes do demônio ou as circunstâncias da vida devem ser louvadas ou repudiadas pelo encontro ocasional acontecido certo dia em certo aeroporto.

O autor é advogado e articulista do JC

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