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Dá para confiar?

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 6 min

Reprodução/Internet

'A confiança é a melhor vacina contra a insegurança e as preocupações’ - Roberto Shinyashiki médico e escritor

Confiança é o substantivo exato para o ato de ter esperança firme em alguém ou em alguma coisa. Significa apostar em algo que se acredita para o futuro. Confiança é um sentimento inerente ao ser humano.

Confiar é mesmo um sentimento que transmite a quem sente uma sensação de certeza. Transmite também segurança e tranquilidade. Se é um sentimento tão bom e algo inerente à alma humana, por que as relações estão tão desgastadas a ponto de não acreditarmos mais em nada ou ninguém nos inspirar essa sensação tão boa?

Resposta no medo

A resposta está no mundo moderno, no modo de vida que escolhemos que nos leva a desenvolver um dos piores sentimentos internos: o medo. Em seu trabalho, “A coragem de confiar – o medo é seu pior inimigo”, o médico e escritor Roberto Shinyashiki afirma que a confiança é a “melhor vacina contra a insegurança e as preocupações”. Para ele, o mundo atual está tomado pelo medo “e parece que viver assustado passou a ser um estilo de vida. A insegurança mata a alegria de viver, pois o medo é sempre seu pior inimigo”, lembra.

A confiança também é um sentimento diferente porque pressupõe uma reciprocidade.  Você pode amar alguém sem essa pessoa nunca ter feito nada para inspirar essa condição. Gostar é algo que aparentemente existe sozinho. Amar, gostar, dar carinho, ter expressões de ternura, dependem apenas de si mesmo. Se você tem um coração amoroso e uma índole para a bondade, isso está dentro de você, certo? A mesma coisa para o perdão. Você pode perdoar uma pessoa independente de ela pedir ou necessitar do seu perdão. Queira ela ou não. Mas confiar é uma via de mão dupla.

Reciprocidade

Ter confiança em alguém, trata-se de uma presunção de que essa pessoa é capaz de atender às nossas expectativas. Não dá para confiar em quem não tenha características que sejam recíprocas. Exemplo: pessoas boas se aproximam de líderes bons, capazes de atitudes de probidade, honestos, eficazes e capazes de lhes trazer certeza, segurança e tranquilidade. Assim é na relação de chefe-empregado e vice-versa. Quando o empregado erra, acaba por “perder a confiança do chefe”. Quando o chefe não atende às expectativas, o empregado, por sua vez, “fica com um pé atrás”.

E essa empatia, relação de dois lados de uma mesma moeda, não acontece só para o bem. Está calçada em valores éticos que contemplam também o mal.

Assim não fosse, os bandidos seriam eternamente solitários, não viveriam em bando. Não haveria chefe de tráfico, nem gangue de ladrões. Até mesmo quando há uma grande diretoria, de uma grande empresa, atuando em falcatruas, com certeza existem vários membros coniventes com a falta de decoro. Ou seja, a confiança existe também para o mal.

Mas,  a rigor, somos feitos e talhados para termos sentimentos bondosos. Assim, confiamos para o nosso bem.

Partilha e amizade

Para a psicologia social e a sociologia, na sociedade atual, o que se procura é viver um ao lado do outro de tal forma que se tenha uma convicção segundo a qual uma pessoa será capaz de agir de certa maneira perante uma determina situação.

Como se conquista essa certeza? Da necessidade que temos de partilhar. Faz parte da nossa condição humana, compartilhar ideias, experiências, sonhos e desilusões. É bom confidenciar segredos, desabafar, aliviar o “peso das costas”. É justamente nesta permuta de experiências e expectativas que se formam os laços mais importantes da vida em grupo: os laços da amizade.

A confiança é a cola desses laços. Se não podemos ver nem sentir o coração das pessoas, se não conseguimos ler o que se passa na cabeça delas, como se podem estabelecer relações onde apenas em um olhar se diz exatamente o que se quer? E não é isso o que acontece quando encontramos em quem confiar? Não é assim o primeiro olhar infantil de uma criança para a mãe? Depositando todas as suas esperanças nela?


Três forças: em Deus, no próximo e em si mesmo

Se a base de toda relação humana está calçada na sinceridade, da mesma forma é preciso ter em mente que o tripé – honestidade, integridade e coerência, vão se manifestar em três tipos de forças. O próprio escritor Roberto Shinyashiki explica quais:

1 - “A verdade é que confio apenas em três forças nessa vida: primeiro, e mais que tudo, confio em Deus. Sei que, por pior que pareça estar a minha vida, Ele sempre está por perto, cuidando de mim”.

De fato, quando há a confiança em algo espiritual, na fé, num Deus, a ciência já comprovou que os benefícios são grandes. Estudo com 10 mil pacientes do mundo todo, divulgado em 2009, mostrou que o sistema imunológico fica 50% mais forte quando o doente tem uma crença religiosa.

2 – “Segundo, acredito e confio nas pessoas. Sei que cada uma tem um sonho e que, se eu ajudá-las a realizar esses sonhos, elas também ajudarão a realizar os meus”.

Por essa razão o mundo corporativo está cheio de casos de sucesso que nascem dessa interação. Um grande guru do mundo empresarial Stephen Covey sempre afirmou que “confiança – ou a falta dela – está na raiz do sucesso ou do fracasso dos relacionamentos, bem como nos resultados finais dos negócios, da indústria, da educação e do governo”.

3 - “Terceiro, confio em mim mesmo. Sei que, independentemente de eu estar cansado ou doente, na hora “H” farei o que precisa ser feito”.


O ‘X’ da insegurança

Pois esse é o grande lance da confiança. A recíproca da relação. É bom ter alguém com quem conversar sobre o que se passa conosco. Mas é preciso saber em quem confiar. É justamente aí nesse “saber em quem confiar”, que está o “X” do sentimento oposto: a insegurança que nos leva ao medo.

De repente, há o que se chama de quebra de confiança. Você deu o crédito e a pessoa não correspondeu. Você apostou e perdeu. Você permitiu uma intimidade e sentiu-se abusada. Você foi roubado. Você esperava algo de uma empresa e ela não cumpriu. E até em último caso, você deu seu voto de confiança a um governo (que no regime parlamentar é a aprovação dada à política desse governo por parte da população) e se decepcionou, o governo não prometeu o que cumpriu. A empresa não entregou o que vendeu, nada foi como o combinado. É aí que o medo se instala.

E dá para viver com esse medo? Claro que não. Graças a ele, muitas doenças físicas e mentais se instalam. Justamente porque o ser humano se afasta de um tripé que lhe garantiria a o sentimento tão bom, tão puro e tão importante que é o da confiança? Que tripé é esse? A honestidade, integridade e coerência.

Esse tripé faz com que a confiança seja um vínculo conquistado. “Não posso dizer confie em mim, não posso obrigar alguém a acreditar, mas por meio destes três aspectos eu estabeleço o vínculo”, diz Shinyashiki.


Quem é Shinyashiki?

Roberto Shinyashiki é médico psiquiatra com pós-graduação em gestão de negócios (MBA-USP) e doutor em Administração de Empresas pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalhando sempre com foco no ser humano, tornou-se referência em temas como carreira, felicidade e sucesso. Como consultor, palestrante e escritor, Roberto Shinyashiki ministra cursos de especialização nos EUA, na Europa e no Japão. É coaching e escritor.

 

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