Geral

Entrevista da semana: Sebastião Laerte Fabro de Camargo (Tião Camargo)

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

João Rosan

'A cultura popular morre se a gente não fizer nada por ela' - Tião Camargo

Quem gosta de uma boa violada ou simplesmente valoriza a cultura popular certamente conhece o Tião Camargo, presidente do Clube da Viola de Bauru. Mas há muito mais sobre a vida de Tião do que contam seus acordes.

Nascido na roça, em um sítio lá para as bandas de Piratininga, Tião veio a Bauru para trabalhar na CPFL, mas isso na década de 1970. Porém, o eletricitário aposentado já fez de tudo um pouco. Conhecido como um defensor da cultura popular, ele já foi até juiz de futebol da Federação Paulista.

“Trabalhei durante 18 anos como locutor na  Bauru Rádio Clube. Fui apresentador do programa Saudade Sertaneja, programa que deu origem à minha rádio web de mesmo nome. Hoje sou professor de trânsito no Senat/Bauru e, aos finais de semana, dou diversos cursos para motoristas. Ah, ainda sou examinador de trânsito do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran)”, enumera.

Pai de três filhos e avô de quatro netas, com a quinta a caminho, Tião também já viveu a política intensamente. Já foi duas vezes presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) de Bauru e, atualmente, viaja muito fazendo palestras sobre trânsito em empresas. Confira algumas das principais histórias contadas por ele ao JC, a seguir.

Jornal da Cidade - Você é muito conhecido pela viola. Quem é o Tião longe da música?

Sebastião Laerte Fabro de Camargo (Tião Camargo) - Eu comecei minha vida profissional trabalhando na roça. E do sítio eu vim para a CPFL. Eu trabalhava durante o dia e estudava no Senai à noite. Isso em 1972. Em 1996, veio a aposentadoria da CPFL, ou seja, sou eletricitário aposentado. Paralelamente, eu fiz muitas coisas nessa vida. Já fui até juiz de futebol da Federação Paulista.  

JC - Como nasceu essa história com o futebol?

Tião Camargo - Comecei na Liga de Futebol Amador de Bauru e fui para a Federação Paulista, mas acabei desistindo precocemente porque fiquei decepcionado com o futebol, vamos dizer assim (risos). Mas eu sempre gostei de futebol e, já na fazenda, eu apitava jogos. Até que fui convidado pelo Toninho Sanches para apitar os jogos em Bauru e fiz um curso de arbitragem da Federação Paulista de Futebol. Eu fazia muita coisa ao mesmo tempo. E ainda faço (risos).

JC - O senhor também trabalhou no rádio e hoje tem uma web rádio, certo?

Tião Camargo - Sim. Eu trabalhei durante 18 anos como locutor na  Bauru Rádio Clube. Fui apresentador do programa “Saudade Sertaneja”, de 1982 a 2000, um programa com o objetivo de tocar o que as outras rádios não tocavam na época. Foi um resgate do sertanejo de viola. Um dia, indo para a CPFL, parei na rádio e fui falar com o diretor, dar uma dura nele porque não tocavam o sertanejo raiz. Acabei ficando amigo dele e um dia ele me convidou para trabalhar lá. Eu já havia sido repórter do futebol amador, do programa Ligado no Amadorismo, do Bira. Topei o convite e tive audiência, viu?! E foi desse programa que nasceu a ideia da minha web rádio: saudadesertaneja.com.br.

JC - Como surgiu o seu interesse pelo trânsito?

Tião Camargo - Quando eu me aposentei, meu irmão havia montado a autoescola Fórmula1, em Bauru, e eu já dava palestras de trânsito na época da CPFL. Acabei entrando como instrutor da autoescola. Fiz cursos de instrutor, diretor de autoescola e diversas especializações. Em 2011, eu terminei uma pós-graduação e comecei a pegar gosto pelo negócio. Hoje sou professor de trânsito no Senat/Bauru e, aos finais de semana, eu dou diversos cursos para motoristas. Dou cursos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e ao Emprego (Pronatec). São aulas de informática, matemática, ética e cidadania... Ah, ainda sou examinador de trânsito do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran) aos finais de semana.

JC - Por que a “nota zero” para as autoridades de trânsito?

Tião Camargo -  Morrem mais de 200 pessoas diariamente em acidentes de trânsito e eu não estou vendo nossas autoridades tomarem providências. O que elas fazem é um bloqueio aqui, outro ali... A fiscalização acabou. Essa história de conscientização virou remédio para tudo... Mais de 200 pessoas mortas todos os dias no trânsito brasileiro, e isso é fonte do (seguro) Dpvat (Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre).

JC - Você também já se envolveu com a política...

Tião Camargo - Sou fundador do PT Bauru e fui duas vezes presidente. Eu fui candidato a vereador em 1996. Tive mais de 500 votos. Fiquei no partido até 2010. E pode ser que eu volte a me candidatar...

JC - Família.

Tião Camargo - Ah, eles merecem o meu dez. Eu tenho uma família muito bonita, uma mulher maravilhosa. Eu e Elisabete temos três filhos maravilhosos, quatro netas e já temos outra a caminho.

JC - E quando a viola entrou na sua vida?

Tião Camargo - Eu comecei a tocar viola já aos 50 anos de idade. Na fazenda, a gente já mexia com música. Meu pai tocava violão, a gente cantava... Mas eu não tocava nada. Quando ingressei na Bauru Rádio Clube, eu decidi tocar alguma coisa. Saí com meu amigo Dinho Bueno, um dos maiores violeiros que Bauru já teve, e ganhei uma viola dele, que ainda guardo comigo. Comecei a aprender e até hoje estou aprendendo, na verdade. E tudo começou assim, mas a minha paixão pela música caipira me acompanha desde a infância.

JC - Fale sobre o Clube da Viola.

Tião Camargo - Fundamos o Clube da Viola de Bauru em janeiro de 1990 com o objetivo de fazer esse resgate da cultura popular. Nessa época eu estava no rádio e achei que ficaria mais fácil esse trabalho de resgatar a cultura, o que realmente aconteceu. Fui o primeiro presidente e agora estou de volta à tal função. Hoje, nossos principais eventos ocorrem através do Ponto de Cultura, um projeto do Ministério da Cultura com a contrapartida da Prefeitura Municipal. Em Bauru há 10 projetos e o nosso é o “Acorde de Viola”. Festivais, encontros de violeiros... fazem parte de nossas ações. A cultura popular morre se a gente não fizer nada por ela. Quem por aqui se interessa em falar sobre a cultura caipira? São poucas pessoas. Felizmente agora estamos tendo uma abertura maior do jornal, TV e rádios por causa do Ponto de Cultura. Eu sou um defensor da cultura popular.   

JC - Quais são as suas lembranças da roça?

Tião Camargo - Eu tive uma infância sofrida, mas guardo boas lembranças. Sou de uma família de 12 irmãos, todos nascidos e criados na roça. Duas irmãs são falecidas, a mais velha e a mais nova. Quando vim para Bauru, meu pai já estava melhor, era administrador da fazenda América, do Maurício Lima Verde. Sem dúvida, ele foi o meu segundo pai. Mas, antes disso, nossa vida foi difícil. Eu comecei a trabalhar aos 8 anos de idade. Minha mãe morreu muito jovem, aos 47 anos, e era uma pessoa formidável. Por outro lado, lembro-me das pescarias de domingo, dos jogos de futebol com meu pai e irmãos, das boiadas que toquei com meu pai... Era uma vida gostosa, sim.    


JC - Projetos novos?

Tião Camargo - Eu tenho tantos projetos que preciso de gente para me ajudar com eles (risos). Um deles diz respeito aos dez computadores que estão parados há quatro anos no telecentro do Jardim Europa. Eu já fiz denúncias e coloquei-me à disposição para dar aulas gratuitas para as crianças carentes do bairro, já que sou técnico em informática. Mas o meu projeto pessoal é parar de trabalhar até o final do ano. Já tentei, mas eles sempre me convencem a ficar (risos). Não quero parar de trabalhar completamente, mas não quero mais ter de cumprir horário.

Perfil

Nome: Sebastião Laerte Fabro de Camargo

Idade: 62 anos

Local de Nascimento: Piratininga/SP

Signo: Gêmeos 

Esposa: Elisabete

Filhos: Débora, Adriana e André

Hobby: Música

Livro de cabeceira: Gosto de estudar livros técnicos e o Código de Trânsito Brasileiro 

Filme preferido: Todos do Mazzaropi 

Time: Santos

Estilo musical predileto: Música de viola 

Para quem dá nota 10: Para minha família

Para quem dá nota 0: Às autoridades de trânsito

E-mail: slf.camargo@gmail.com

Comentários

Comentários