Economia & Negócios

Copa no Brasil "cadencia" produção

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Sabe aquele jogo morno, onde nenhum dos times em campo se arrisca ao ataque ou tenta uma jogada nova até o final da partida? É mais ou menos esse efeito, comportamental e econômico, que a realização da Copa do Mundo no Brasil desencadeia sobre setores como indústria e comércio. Na visão de especialistas isso não significa que o “jogo está perdido”. Mas ninguém, nem os mais otimistas, apontam para táticas de apelo ao consumo que resultem em uma goleada de faturamento enquanto a bola rolar pelos gramados no maior evento esportivo mundial.

Dos setores com mais volume de encomendas ao menor, cada um sente o efeito direto da realização da Copa do Mundo, cada qual com reflexos em escala na economia. Na indústria, onde a rotina de estoques e compras tem relação direta com planejamentos de, no mínimo, 30 a 45 dias, dependendo do segmento, a previsão de queda no faturamento já é tida como certa.

A exceção fica para produtos específicos, como adereços alusivos à Copa como bandeiras, bonés e camisetas, ou produtos onde uma paixão desperta outra: a cerveja e o tradicional churrasco.

Para o economista Carlos Sette, a perda de produtividade é certa. “Isso é fato e já era esperado pelos empresários em função da Copa. Na indústria, embora a maioria dos acordos com os sindicatos de trabalhadores envolva a liberação dos colaboradores entre uma e duas horas antes das partidas do Brasil, a compensação de horas não recupera essa produção depois”.

Com experiência em consultoria de empresas no atacado e executivo do segmento de alimentos, Sette explica porque a  compensação de horas não repõe o que não foi produzido. “Os grandes atacadistas planejam suas vendas para um cenário de 30 a 45 dias. E já encomendam menos no período em razão da queda no consumo que é comportamental em função do evento. A interrupção do turno de trabalho quebra o ritmo da produção e isso, em escala, na produção nos corredores da indústria, não tem como ser recuperado depois”, amplia.

Ou seja, na prática, a quebra do ritmo na produção, mesmo com a reposição de horas, gera efeitos sobre toda a cadeia da indústria durante o processo de fabricação ou transformação de determinados produtos.


Paradinha e papo

No ambiente fabril, acontece o que os executivos chamam de mudança de comportamento por ambiente. A eficiência e a produção são menores por quebra de ritmo. “O trabalhador, antes concentrado em seu turno durante maior tempo apenas para o processo, o trabalho em si, agora acumula tempo dedicado ao bate papo com o colega de turno antes e depois dos jogos. Não estamos aqui julgando o comportamento, mas lembrando que ele existe”, reflete Sette.

O economista amplia que esse “ambiente” da Copa envolve, no caso da indústria, a natural redução no volume de solicitações com uma antecedência ao evento em si e com reflexos não somente sobre os 30 dias da competição.

“Nos dias de jogos, a quebra nas entregas e no ritmo fabril é evidente. É mais crítico. Mas, no período em si, isso já acontece antes. Em produção em escala, não acontece a recuperação como se costuma falar. O que não produziu não tem volta”, reforça.

O fenômeno comportamental de espera também “contamina” os novos negócios. “A agenda empresarial certamente está adiada para a partir de agosto, isso sem contar a avaliação de cenário para a eleição, que vem em seguida. Os números da economia já não mostram recuperação e essas situações levam ao adiamento de negócios que estão em expectativa. Isso é natural”, finaliza. 

Para quem tem dúvidas sobre esse efeito comportamental, os gestores de pessoal das empresas brasileiras sugerem que cada consumidor pense sobre sua rotina durante os jogos. O comerciante Ulisses da Costa confirma que todas as pessoas “param algum tempo, em alguma situação, e mudam sua rotina para assistir ou falar sobre os jogos da Copa”. 

“A Copa desvia a atenção tanto para a indústria quanto para o comércio. O empresário muda sua agenda e os setores do atacado reduzem encomendas em até 45 dias em razão desse período”, sustenta Carlos Sette.  


Semana perdida

O comportamento do brasileiro diante da Copa gera efeito em cascata sobre a produtividade muito além da redução de jornada nos dias de jogos. Com exceção da final da Copa, no domingo, as seis partidas restantes possíveis da equipe de Felipão realizar não vão gerar, sozinhas, o efeito de queda na produção.

O “efeito onda” se propaga, em visível redundância. Depois de amanhã, a Seleção volta a campo. Na quinta-feira é feriado de Corpus Christi e, em seguida ao fim de semana da sequência, o Brasil volta a campo no terceiro jogo.


Bandeirolas e cornetas

Nem o setor de varejo espera soltar rojão durante a Copa. Segmentos específicos do comércio apresentam, até este momento, indicadores de crescimento nas vendas em razão da competição. Mas a maioria resulta em vendas menores.

Nesta semana, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que as vendas retraíram 0,4% no período que antecedeu ao pontapé dos jogos. A aposta é que o quadro se repita neste mês. O menor número de dias úteis ao longo da competição é a principal explicação para a queda.

Segundo o IBGE, a comercialização de tecidos, vestuário e calçados caíram 1% entre março e abril, enquanto os supermercados faturaram 1,4% menos. O impacto da inflação alta colaborou nesse sentido. Conforme o instituto, mesmo as vendas de eletrodomésticos não foi bem no mês anterior à abertura da Copa. A avaliação é que a maior parte dos consumidores antecipou a compra de televisor novo, por exemplo.

Em relação ao preço, conforme apontamento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor amplo (IPCA), os televisores ficaram 1,4% mais baratos em abril.

Nas ruas, o aquecimento confirmou a expectativa no segmento de produtos como bandeirolas ou cornetas. O problema é que uma parte dessas vendas está na economia informal.

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