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Entrevista da semana: Leon Souza Mastrangeli

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

Eles estão sempre dispostos a ensinar e dançar forró com alegria e energia contagiantes. Assim são os integrantes do “Forrozeiros de Bauru”. O diretor do grupo, Leon Souza Mastrangeli, é o personagem da Entrevista da Semana de hoje. Aos 32 anos, Leon tem muitas histórias para contar, boa parte delas envolvendo a dança.

 

E por falar em dança, tudo começou na adolescência com um acidente de carro que o levou a um coma. “Os médicos chegaram a acreditar que eu não voltaria do coma e que, se voltasse, ficaria com graves sequelas. Minha família chegou a achar que eu não voltaria ao normal, mas fui voltando aos poucos. E como eu estava andando como um robozinho, não conseguia mexer as pernas direito, a dança foi indicada para que meus movimentos voltassem ao normal”, lembra. 

 

Esta é apenas uma das histórias contadas pelo professor de dança. Confira outras, a seguir. 

 

Jornal da Cidade - Quando você deu os seus primeiros passos na dança?

Leon Souza Mastrangeli - Na verdade, tudo começou com uma orientação médica. Infelizmente, eu sofri um acidente de carro com uns amigos na adolescência e fiquei quatro dias em coma. Eu não guardei lembranças desse acidente, mas sei que fiquei totalmente ‘maluco’ durante umas duas ou três semanas. Não reconhecia algumas pessoas, fazia e dizia coisas sem sentido. Foi estranho, porque  um dia antes do acidente, uma cartomante me disse que eu morreria cedo. Os médicos chegaram a acreditar que eu não voltaria do coma e que, se voltasse, ficaria com graves sequelas. Minha família chegou a achar que eu não voltaria ao normal, mas fui voltando aos poucos. E como eu estava andando como um robozinho, não conseguia mexer as pernas direito, a dança foi indicada para que meus movimentos voltassem ao normal. 

 

JC - Um santo remédio?

Leon - E como! Na verdade, eu era roqueiro na época do acidente, aos 17 anos. Eu tinha uma banda de rock n’ roll. A banda fazia som em vários lugares e eu tocava guitarra solo e cantava. A gente adorava fazer festas, reunir a galera... Nessa época, eu andava de skate e boné. Tinha um estilo bem diferente de hoje. Mas procurei a dança de salão. Minha primeira professora foi a Sali, uma das primeiras também de Bauru. Fiz uns seis meses de aula com ela e comecei a fazer balé clássico com a também tradicional professora Dalva, do Ballet Vitória Régia. E me apaixonei pela dança, além disso, eu via as meninas bonitas dançando (risos). Eu sempre gostei de música e descobri esse amor que eu sinto hoje pela dança desta forma.  

 

JC - Como foi a recuperação pós-coma? 

Leon - Foi um período muito difícil, porque minha capacidade de memorização ficou prejudicada na época e isso dificultou o meu aprendizado, já que eu não conseguia gravar as matérias da escola. Precisei abandonar o colégio, inclusive, e perdi um ano. E, mesmo com a dança e o tratamento, eu não consegui reverter a coordenação motora que perdi para tocar guitarra e violão. Ainda toco, mas não como antes. E eu tive que abandonar a banda. A minha capacidade de escrita também foi afetada. Acabei com uns dez cadernos de caligrafia (risos). Contudo, eu vi o quanto a amizade é importante. Todos os meus amigos se mobilizaram. A ajuda deles, ao lado da minha família, foi fundamental para minha recuperação. Eu gostaria de citar o nome de todo mundo, mas são muitos.   

 

JC - E quando o forró passou a fazer parte da sua vida?

Leon - Com o forró foi o seguinte. Eu comecei a fazer dança de salão naquele “boom” do grupo Falamansa. Todo mundo dançava o forró deles no Brasil e casas de forró foram abertas no País inteiro, inclusive em Bauru. Quem não se lembra da antiga Show.com, na Nações com a Duque, por exemplo? A casa chegava a abrigar duas mil pessoas por noite. Eu comecei a participar com minha turma de dança de salão. Estava empenhado mesmo. Lá, eu vi um cara jogando as meninas para o ar e fazendo giros incríveis. E, claro, quis aprender a dançar como ele. Cheguei até aquele cara, o Domingos Meira,  e fiz amizade com ele. Ele foi o meu professor de forró. O forró virou paixão.

 

JC - E profissão!

Leon - Sim. Eu comecei a aprender forró e levei meus irmãos, um a um. Pouco tempo depois, eu e minha família passamos a ser sócios do Domingos na Bamblus, no forró da casa. Entramos e não saímos mais do forró, isso em 2001. Naquela época, fazíamos forró praticamente todos os dias. Depois do Bamblus, minha família começou a fazer forró em vários lugares, até que abrimos o Aloha, onde fazíamos muitos estilos musicais, além do forró. 

 

JC - E quando nasceu o grupo Forrozeiros de Bauru? 

Leon - Foi exatamente nessa época, em que não parávamos de dançar e de fazer dançar (risos), em 2004. O grupo já reuniu até 120 integrantes. Estamos há quatro anos com a Casa do Forró Bauru, na quadra 2 da rua Henrique Savi. É uma escola de dança e uma casa de shows de forró. Fizemos eventos em muitas casas de Bauru e cidades da região. Um dos endereços mais marcantes foi a Casa do Forró que abrimos na rua Piauí. O público era muito grande mesmo. Estávamos sempre fazendo eventos e eu me envolvia com outros segmentos da dança da cidade. A gente levava a galera da dança do ventre, hip hop... Sempre tentando unir os estilos e a galera da dança.  

 

JC - Outra atividade que ocupa os seus dias é o voluntariado, certo? 

Leon - Sim. Na época em que fiquei internado no Hospital de Base, eu conheci o Grupo Irmã Sheila, que é ligado ao Grupo dos Amarelinhos, e eu fiquei observando o trabalho deles. Percebi que faziam visitas aos doentes, conversavam com as pessoas, estendiam as mãos... Um tempo depois, eu decidi entrar em contato com eles. Antes do acidente eu era um cara da noite e Deus me deu uma chacoalhada, sabe. Eu senti que precisava fazer alguma coisa boa na vida. Foi assim que passei a ser voluntário ao lado desse grupo. E estou com eles desde 2000/2001. Com os Forrozeiros, faço apresentações em asilos, creches, periferia, eventos sociais, escolas, igrejas e hospitais. 

 

JC - É possível viver da dança?

Leon - Eu tento (risos). Sou fascinado por ela e pretendo nunca abandoná-la, mesmo não havendo um retorno financeiro justo. Fiz inúmeros cursos por todo o País, muitas vezes com professores consagrados de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo. Na Capital paulista fiz curso de cinema e teatro no Macunaíma. Foi uma época em que aprendi muito. Fiz testes, gravei comerciais e colecionei cursos de dança, de arte, trabalhos com teatro e televisão, que enriqueceram e acabaram ajudando na minha formação artística. Hoje, dou aulas em muitos lugares, além da Casa do Forró: academias como Marathon, Moving, Stilo Fitness, Studio Bela Vista, Território Fitness e Eleven Fitness. E ainda em condomínios, empresas, escolas, faculdades, igrejas, clubes...

 

JC - É possível dizer que a dança foi um divisor de águas na sua vida?

Leon - A dança mudou totalmente o rumo da minha vida. A partir dela, eu conheci inúmeras pessoas e comecei a fazer amizades mais saudáveis. Parei de fumar e beber e passei a cuidar mais da minha saúde. A dança te propicia fazer amizades, trabalha a sua saúde, o coração e a mente. Quem dança está sempre sorrindo, porque essa atividade oferta alegria de viver. Dançar é bom demais. É conquistar bem-estar físico, mental e social. Todos precisam dançar. 

 

 

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