A indústria nacional vive na insustentabilidade. As notícias recentes mostram que depois de um crescimento que provocou euforia, projetando uma imagem de terceira ou quarta grandeza na economia mundial, a crise financeira global de 2008 derrubou as exportações de manufaturados de US$ 44,0 bi para US$ 30,3 bi em 2009. No ano seguinte ensaiou uma recuperação, mas nestes últimos seis anos registrou uma queda de 13%. Em 2013 deu um superávit de US$ 2,6 bi, mas para 2014 a projeção é de apenas US$ 600 mi. Pesquisas com empresas mostram perda de confiança e queda na intenção de investimento. As que pretendem investir estão tímidas, focalizando mais o mercado doméstico. A gravidade da situação, porém, não está apenas nas variações do mercado, mas na perda de competitividade, no atraso tecnológico que ficará cada vez mais acentuado.
A seleção brasileira, apesar de ter bons jogadores, não foi suficientemente competitiva para ganhar a copa. Quase não chegou às semifinais e acabou dando vexame frente à seleção alemã. A indústria nacional está em situação semelhante. Depois do impulso dado pelo governo de Juscelino Kubitschek, com a implantação da indústria automobilística, e graças a medidas protecionistas ? nacionalização progressiva, isenções fiscais, barreiras a importações ? o nosso parque industrial cresceu e é hoje um dos maiores e mais diversificados entre os países emergentes.
O preço dessa política, entretanto, é a falta de competitividade. O protecionismo favorece a acomodação e a ineficiência. O Brasil até já recebeu a pecha de ?país nem, nem?, nem eficiente, nem barato.
A economia é dinâmica, o desenvolvimento tecnológico é contínuo e em aceleração. As crises econômicas não interrompem a sua evolução, pelo contrário, estimulam a procura de saídas inteligentes. Os países ocidentais, industrialmente mais desenvolvidos, foram jogando as atividades mais pobres em tecnologia para os países asiáticos, de mão de obra barata, principalmente para a China. Mas retiveram em suas matrizes o domínio da tecnologia e não descuidaram da busca incessante pela inovação. Agora a mão de obra asiática está encarecendo. Na China já chega à casa dos 190%. Resultado, as empresas ocidentes estão sendo repatriadas para operar com padrões de tecnologia de última geração, a chamada indústria 4.0, para se manterem competitivas.
Matéria de capa da revista Exame diz: "Enquanto o mundo se prepara para essa nova Revolução Industrial, o Brasil parece não ter se dado conta dos imensos desafios que o cercam. Em 2013, o país comprou menos de 1.300 robôs industriais ? a Coreia do Sul adquiriu 21.000 e a China 37.000. No Brasil a idade média de máquinas e equipamentos é de 17 anos ? ante sete anos nos Estados Unidos e cinco na Alemanha. Numa era de imensos ganhos tecnológicos, as empresas brasileiras estão presas a tecnologias ultrapassadas, o que afeta diretamente a produtividade do país."
A sustentabilidade da indústria de um país, na era da globalização, depende da sua inserção nas cadeias globais de suprimento, o que só é possível tendo competitividade. Maiores & Melhores da Exame cita apenas duas empresas brasileiras como exemplo: a Embraer e a Tecsis, fábrica sediada em Sorocaba, que produz pás de turbinas eólicas para GE, Alston e Siemens. A inserção na cadeia global se dá pela participação dos bens intermediários ? peças e componentes - produzidos num país e usados por empresas de outro país. As empresas brasileiras que vêm participando ainda são exceções, como as duas citadas, porque o Brasil só entra na base da cadeia, como fornecedor de matéria-prima, vendendo minério de ferro para a China, a US$ 100,00 a tonelada e comprando aço a US$ 700,00. A estagnação atual custará anos de atraso.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.