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País de pais órfãos

Archimedes Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Analisando-se o panorama da segurança de trânsito mundial, verifica-se que ela avança em muitos países, enquanto que no Brasil ela retrocede. A Alemanha, além de boa no futebol, também reduziu as mortes em acidentes de trânsito em 80% nos últimos 40 anos. O governo alemão almeja encerrar um ano inteiro sem vítima fatal. É a chamada Visão Zero, disseminada em vários países. Outros países seguem essa tendência: a Austrália reduziu 40% em 20 anos; a China, entre 2002 e 2011, reduziu significativos 43%.

O êxito desses países deveria servir de inspiração para o Brasil. Perder a copa não é o mal maior, porém se viu multidões em lágrimas. Pior é perder cotidianamente a copa da segurança no trânsito (e não chorar). A mídia é generosa em informar os graves acidentes, com muitos mortos e feridos. Grande parte deles envolve motociclistas e motoristas embriagados. Registra-se regularmente condutores não habilitados e veículos trafegando sem qualquer condição de conservação e segurança.

A infração mais frequente tem sido dirigir usando celular. Para quem achar que é exagero, basta ficar observando em um via movimentada e constatará motoristas dirigindo, fazendo manobras, curvas, ultrapassagens e conversando ao celular.

Outra grave infração é dirigir sob o efeito do álcool. Ele tem sido responsável por 25% dos acidentes. Apesar na Lei Seca, muitos motoristas não se conscientizaram sobre este perigo iminente. Mesmo com os avanços da lei, ela é ainda extremamente benevolente com o infrator. Para os assassinos do trânsito nada de cadeia, quando muito, a distribuição algumas cestas básicas.

Apesar de obrigatório e de ter sido assimilado pela maioria dos motoristas e passageiros de veículos, há ainda muita gente que não acredita que o cinto de segurança salva vidas.

Um fenômeno caracteriza os tempos atuais. Considerando a naturalidade da vida terrena, é razoável que os filhos, por serem mais jovens e saudáveis, enterrem seus pais. No entanto, o que se tem visto são pais lacrimosos velando seus filhos. Em vez dos filhos ficarem órfãos dos pais, são os pais que se tornam órfãos dos filhos. Diariamente noticia-se a morte de jovens na tragédia do trânsito brasileiro. A taxa de óbitos dos jovens brasileiros cresceu 40%, era 21,1 mortes por 100 mil habitantes, em 1992, passou a 29,4, em 2012.

Estatísticas mostram que 95% dos acidentes graves são causados por erros e negligência humana. A correria do dia a dia faz com que as pessoas assumam comportamentos totalmente alterados quando dirigem um veículo. Cidadãos normalmente calmos se transformam em perigosos "mísseis buk", capazes de derrubar um Boeing 777 a cada dificuldade no trânsito. Respeita-se pouco ou quase nada a vida de seu semelhante (e a própria), um dom de Deus, que a ninguém cabe o papel de abreviá-la.

Este cenário de horror não é privilégio de grandes cidades, pois já está disseminado por praticamente todas as cidades, mesmo as menores. Bauru tem convivido com uma quantidade inaceitável de mortes de seus jovens filhos, naturais ou adotivos.

É preciso mudar! Urge uma fiscalização severa, contínua e geograficamente distribuída pela cidade. A formação para habilitação precisa ser revista, pois é totalmente insuficiente. Ela atribui ao "habilitado" permissão para matar sem punição. No trânsito brasileiro, a pena de morte é aceita.

Ações fortes são necessárias enquanto o ser humano não se sensibiliza e passa a valorizar aquilo que é muito mais importante do que as vãs coisas materiais: a vida humana. De que vale ganhar a terra se perder a vida? Está faltando Deus no coração das pessoas. Quando seus corações se tornarem plenos do divino, tem-se a certeza de que as mortes se restringirão tão somente aos acidentes inevitáveis, no sentido literal da palavra.

O autor é doutor em Engenharia de Transportes, professor da UFSCar, diretor de Mobilidade da Assenag e articulista do JC.

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