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Fardo é não aproveitar

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Ele, aos 20 anos, vive de coreografar a própria morte. Ela, aos 79, é pura urgência e intensidade. Talvez assim possa ser resumido o filme "Ensina-me a Viver", de 1971 (dirigido por Hal Ashby para roteiro de Colin Higgins, profissionais de quem eu nunca havia ouvido falar). Incrível como um filme tem o poder de impactar tanto tempo depois. E por um motivo básico e universal: a inversão da lógica presumida (o rapaz não está cheio de energia e nem a velhinha é reclusa e queixosa).

A ideia fixa de suicídio leva o jovem Harold a criar cenas tão macabras que chegam a ser risíveis. Um único exemplo: enquanto conversa com a mãe, que não dá bola para suas esquisitices silenciosas, ele tira um revólver da caixa e dispara contra o próprio rosto, caindo da cadeira com os braços abertos e imóveis por segundos. Pura encenação.

A mãe indiferente nem se abala e ele segue vivo para o próximo ato. Já Maude, às vésperas de ser octogenária, é vívida, viva, vivida. Vê um carro com chave dando bobeira, entra e sai cantando pneu só pela diversão de acelerar, beliscando as esquinas. Harold e Maude têm um passatempo em comum: vão a enterros de desconhecidos. O que vem logo a seguir eu ainda não sei: estou na metade do filme. Aliás, estaria eu na metade da vida? Nesses dias em que atores/humoristas se matam, e um jovem político e seus jovens assessores tragicamente desaparecem, é impossível não lançar breve reflexão sobre essas inversões malucas ? como no filme, em que um rico rapaz quer mais é puxar a própria tomada enquanto a elétrica velhinha posa pelada e só pensa em saborear cada segundo antes do último suspiro.

Acho mesmo que viver não é um fardo. Há uma confusão aí. Fardo é se esconder das coisas da vida, como fazemos rotineiramente mais do que deveríamos. No mundo real, a atriz Ruth Gordon (Maude do filme) morreu aos 88 anos, em 1985. Bud Cord (nascido Walter Edward Cox, intérprete de Harold) tem 66 anos e vive em Nova York.

Eduardo Campos tinha 49 ? e as outras seis vítimas do avião ainda menos, entre 36 e 48. A vida, às vezes, é um filme pela metade. O que importa, antes do fim das contas, é que tenha sido um filme feliz.

O autor é editor executivo do JC

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