A estiagem aliada a poluição dos rios tem afetado muito a pesca profissional. Em Barra Bonita e na vizinha cidade de Igaraçu do Tietê, onde há em torno de 250 pescadores profissionais, a queda na pesca em 12 anos atinge 90%. Sem o peixe, os profissionais do setor que vivem da pesca, se voltam para uma complementação de renda, através de ‘bicos’ como ajudante de pedreiro e capinação. A agricultura prevê prejuízos para o próximo ano. A quantidade de chuva dos últimos dias ainda não é o suficiente para atenuar a situação.
O presidente da Colônia de Pescadores de Barra Bonita, Edivando Soares de Araújo, explica que o Ministério da Pesca permite o vínculo empregatício para complemento de renda. “Estamos em uma situação que temos que ganhar de manhã para garantir a janta. É complicado. A situação está apertada, mas estamos sobrevivendo.”
Ele conta que chegou em Barra Bonita em 2002. “O rio Tietê era rico em peixe nessa época. Tinha muita tilápia. Cada pescador retirava a rede com cerca de 300 quilos de peixe. Hoje, o pescador retira no máximo 30 quilos.”
De acordo com ele, a tilápia pescada em grande quantidade valia pouco. “Nada além de R$ 0,80. Hoje, o pescador pega menos, mas o quilo é vendido a R$ 3,00, porque essa espécie caiu no gosto do brasileiro e atende as necessidades dos chefes de cozinha. É aceita em qualquer prato. Não tem muito espinho no meio da carne. É saborosa, pode dar para crianças. Os pescadores vendem de casa em casa e para restaurantes.”
Se na região de Barra Bonita a estiagem castiga, em outras é ainda pior. “Aqui na nossa região a represa manteve o nível considerado normal para esse período do ano. Mas na região de Nova Avanhandava prejudicou muito. Não só o pescador. O transporte fluvial também. O rio baixou, os pescadores migraram para outras cidades. Alguns foram para o Paraná e Rio Grande.”
O representante da categoria lembra que no Tietê as várias espécies não desapareceram, estão cada vez mais escassas. “As espécies continuam as mesmas. Vários fatos prejudicaram a sobrevivência dos peixes. Durante anos tivemos mortandade de peixes, principalmente na época da piracema por conta da poluição que a usina despejava no rio.”
Mulheres sustentam família com pesca
O número exato de pescadoras que mantém a família com a pesca ninguém sabe, são muitas, segundo o presidente da Colônia de Pescadores de Barra Bonita. “Hoje, as mulheres atuam em todos os setores de trabalho e aqui não é diferente. Algumas são esposas de pescadores, filhas e tem aquelas que gostam e aprenderam a pescar. Tem jovens pescando.”
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João Rosan |
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Patrícia Aparecida Péricles Felix começou a pescar assim que o marido morreu para sustentar a família
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Patrícia Aparecida Péricles Felix tem 43 anos e é uma das pescadoras profissionais de Barra Bonita. Ela assumiu a atividade assim que o marido faleceu. “Meu marido morreu e sou mãe de dois filhos. Sou eu quem sustento a casa e aprendi a pescar. É um serviço corrido. Saímos de casa da meia-noite à 1h para armar a rede. Acordo às 5h30 para retirar a rede. Não podemos armar a rede antes porque as turbinas estão abertas e a água corrente destrói a rede.”
O trabalho pouco comum não sofre preconceito, ressalta a pescadora. “Tem várias mulheres. Eu conheço umas quatro. Os homens são todos conhecidos, temos amizade. Muitos chegaram aqui há pouco tempo, outros bastante tempo. Todo mundo se respeita cada um com seu serviço. Não tem preconceito.”
A mulher reclama que a pesca está muito ruim nesta época.“Este ano está muito ruim. A soma da poluição com a falta de água tem prejudicado demais a pesca profissional. Em alguns meses não é possível ganhar nem um salário. Os pescadores têm reclamado, tem pouquíssimos peixes. Não posso fazer comparação com o ano anterior porque no ano passado fiquei mais no hospital com meu marido do que na pesca.”
A rotina da pescadora não inclui vaidades femininas e sim muita coragem. “Já enfrentei tempestade de vento, chuva e outras adversidades. É uma atividade perigosa. Este ano estamos pegando mais corvina do que tilápia. Aqui em casa todo mundo come peixe,” conta Patricia Péricles Felix.
O rio está baixo
Antonio Alberto Gea, 54 anos, é pescador da região de Araraquara e está sentindo no bolso a falta de peixe nos rios. “Os rios estão muito secos. Está complicado pescar. Para driblar a ‘crise’ aumentei os dias de pesca. A corvina está escassa. No ano passado pesquei menos. Este ano, os peixes sumiram.”
Gea pesca na região de Araraquara, Gavião Peixoto e Ibitinga. “Não desapareceu nenhuma espécie, porém o peixe está cada dia mais escasso. Eu pesco no Tietê e está complicado. Eu armo as redes e o peixe não vem. Não tem ponto ideal, porque o rio está baixo. Quando o rio está cheio tem mais pontos para armar a rede.”
O rio Tietê regrediu uns 300 metros do porto até na água, na região dele. “No ano passado não teve enchente. O rio Tietê regrediu do porto até na água onde era o normal dele em Ibitinga, onde eu pesco. Vendo a minha produção em Ibitinga para os moradores de uma vila.”
Pescador aprendeu atividade com o pai quando ainda era uma criança
José Ramos Macedo tem 44 anos e aprendeu a pescar com o pai quando ainda era uma criança. “Meu pai pescava. Naquele tempo não precisava de carteira para pescar. Aprendi com ele a pescar, não saia da beira do rio. Hoje sou pescador profissional. Mas este ano está muito fraco de peixe. Na minha opinião, falta chuva.”
Macedo explica que se não chove não tem como o peixe se reproduzir. “O peixe vai para um lugar melhor para viver. Se não tem enchente do rio, o peixe não tem força para desovar. Ele precisa de água corrente mais forte. Para nós precisaria chover pelo menos um mês para a situação melhorar. No ano passado chegamos a pescar 120 quilos/dia. Atualmente, de 20 a 25 quilos.”
Para driblar a situação, o pescador faz bico de pedreiro e capinação. “Como a situação da pesca está ruim, fico sem pescar, faço bico. Sou casado e tenho um filho e uma neta para cuidar. Consigo ter uma renda mensal de um salário mínimo por mês somando a pesca com os bicos. Se tivesse bom de peixe atingiria até um pouco mais. Ainda bem que não pago aluguel.”
O forte sol que tem castigado a região, cansa demais, na opinião de Macedo. “Ficamos mais cansados apesar de estarmos acostumados com a força do sol. Quando não aguentamos procuramos uma sombra. Sob tempestade eu não pesco é muito arriscado, meu barco é de alumínio.”
Seguro defeso ajuda os pescadores
De novembro a fevereiro de todo ano, os pescadores têm o direito a receber o benefício do seguro defeso. Nesse período a pesca está fechada para a reprodução dos peixes. É a piracema. “O pescador profissional não pode pescar, então ele recebe um salário mínimo por mês”, diz o presidente da Colônia de Pescadores de Barra Bonita, Edivando Soares de Araújo.
Alguns pescadores profissionais têm emprego fixo na usina, cerâmica ou qualquer outro tipo de emprego. “Muitas vezes eles trabalham o dia todo e pescam à noite. Quem tem vínculo empregatício ou aposentadoria não recebe o benefício.”
Convênio vai garantir moradias aos pescadores em programa federal
Um convênio assinado recentemente entre a Colônia de Pescadores e a Caixa Econômica Federal vai garantir a construção de casas para os pescadores de Botucatu. “Lá tem uma vila de famílias de pescadores profissionais. São cerca de 70 famílias que serão beneficiadas.”
Na cidade de Colômbia (SP) um projeto da prefeitura em parceria com a Cesp garantiu moradia aos pescadores. “As casas ficam à margem do rio. É difícil conseguir benefícios para o pescador profissional.”
Quebra de safra será sentida em 2015
A agricultura sofre com a falta de chuva. As previsões não são nada animadoras para o setor, especialmente da cana-de-açúcar. Segundo o diretor da Agricultura e Meio Ambiente de Lençóis Paulista, Benedito Luiz Martins, a quebra da safra será sentida no próximo ano.
“A cana que está sendo colhida este ano foi plantada no ano passado entre março e abril, que é cana de ano e meio. Essa pegou um período de chuva para crescer e desenvolver. O que não está acontecendo este ano. A cana que foi plantada este ano em março e abril e que deveria medir um metro de altura está com no máximo 30 centímetros.”
Ele explica que para a cana se desenvolver é necessário ter chuva. “Como não chove, ele não se desenvolve. Como a planta não cresce a safra será menor. No próximo ano, os produtores terão dificuldades para manter a meta que foi alcançada no ano passado em 2014. Este ano, os produtores daqui vão moer mais ou menos 7,8 milhões de toneladas, mais ou menos a mesma quantidade do ano anterior.”
Projetando a quebra para todo o País, o diretor calcula que a média de quebra da safra será em torno de 12%. “Claro que não são dados concretos, são previsões. Na região de Ribeirão Preto a previsão é de uma quebra de 10 a 25% da produção de cana. Se fizermos uma média para o Brasil chegaremos a uns 12% no Brasil.”
A rotação de cultura também sofrerá quebra de safra, prevê o diretor. “Os produtores plantam soja, amendoim, milho e outras leguminosas para a refertilização do solo. As leguminosas promovem o enriquecimento de nitrogênio do solo. Choveu em setembro e o pessoal plantou o amendoim. Não choveu mais e o amendoim secou, perda de 100%. Pelos cálculos dos produtores, de modo geral, a perda de leguminosas vai girar em torno de 50%.”
Em Lençóis o plantio de leguminosas ocupa cerca de três mil hectares. “Um produtor de milho perdeu 30% daquilo que foi plantado por conta da estiagem. O café vai dar uma perda em torno de 20% aqui. Em Botucatu, a quebra chegou a 30%. Os produtores vão colher o café e só tem palha de tão seco que está.”
Para o especialista em sustentabilidade corporativa Sidney Aguiar, o setor sucroenergético acredita contabilizar prejuízos com uma retração de cerca de 40% na extração da sacarose bruta. “Outras culturas como o citrus, pode haver baixa produtividade na próxima safra. Já a cultura do reflorestamento comercial, por não depender da quantidade de água infiltrada, não deve sofrer redução de produtividade no plantio e na colheita.”
Para ele, o sudeste brasileiro está vivendo a pior seca da história registrada nos últimos 70 anos. “A falta de água vai muito além dos fatores políticos, governamentais e místicos. Toda essa problemática da seca, que atinge quase todo o interior paulista, afetando populações e a economia do Estado mais rico do Brasil, é apenas uma amostra do desiquilíbrio do ecossistema mundial causado por ações antrópicas.”
Aguiar diz que os especialista falam em R$ 2 bilhões de prejuízos decorrentes da redução de processos industriais. “E, da baixa movimentação turística, podendo ter reflexos significativos na economia paulista para o próximo ano, onerando produtos e serviços pela baixa produtividade agrícola e pela dificuldades na logística fluvial.”