Os golpes atrevidos e traiçoeiros que atingem algum ponto do corpo humano entre a linha abaixo da cintura e as canelas são os que mais machucam e os que mais demoram para ser esquecidos. Quase sempre estimulam vingança com os agredidos remoendo sentimentos pouco nobres como que encarando os agressores com faca presa entre os dentes, afiada e pronta para ser usada. Infelizmente assim é o homem e assim a vida. O processo eleitoral encerrado no último domingo pela baixeza de mútuas agressões, pelas inverdades e até pelas verdades e meias verdades reciprocamente assacadas parece que estimulou esse repulsivo sentimento. Mesmo com os candidatos mantendo linha de dignidade e respeito, muitos personagens que gravitam em torno deles destoam da tradição de cordialidade e fraternidade, espalham pânico, destilam pensamentos aloprados e descriminantes, esparramam idéias preconceituosas e separatistas, sugerem retaliações e ameaças incompatíveis com nosso sistema de convivência. Claramente, não pode e nem deve ser assim.
Um de nossos maiores pró-homem, Rui Barbosa, do alto de sua sensibilidade intelectual e humana legou a idéia de que a pátria não é ninguém são todos e cada qual no seio dela tem o mesmo direito à idéia, à palavra e a associação, porque a pátria é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos, o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade, valores perenes e definitivos que fortalecem a fraternidade e bloqueiam sentimentos destrutivos contra a unidade nacional. Por tudo isso a pátria não racha, não ameaça e nem discrimina e no seio dela os sentimentos destrutivos nunca prosperam e nem frutificam. Felizmente.
Neste cenário pós-eleitoral e dispensadas basófias e arrogâncias cobra-se dos vencedores a responsabilidade pelo quadro político-administrativo que provocou sentimentos negativos em milhares de cidadãos e, até, se exige deles reflexão justa, altiva e eficiente sobre as ações de governo, a correção de erros e a revisão de rumos que superem dificuldades passadas e que lhes permita desenvolver ações e programas assentados na Constituição Federal e nos seus valores, superando carências, abrandando temores e reencontrando as justas expectativas da comunidade nacional.
E neste mesmo cenário, dispensadas baboseiras e impropérios cobra-se dos vencidos co-responsabilidade pelo mesmo quadro político administrativo enquanto ineficientes, desatentos e descuidados no acompanhar, fiscalizar, denunciar e exigir nos foros adequados as providências pertinentes para impedir, debelar e reprimir procedimentos e comportamentos atentatórios à moralidade no trato da coisa pública e dos negócios governamentais e, até, deles também se exige reflexão justa, altiva e eficiente que incentive ações que frustrem, impeçam e reprimam comportamentos divergentes dos valores constitucionais e das expectativas da comunidade nacional.
A experiência política universal sempre tem revelado que os governos tanto dependem das boas ações dos governantes como também das iniciativas, justas e eficientes, de seus opositores, porque no universo político situação e oposição constituem verso e anverso de uma mesma moeda, essencial e indispensável à boa ordem democrática da qual dependem as ações governamentais. O momento, portanto, é de superação responsável de dolorosas feridas pós eleitorais ainda abertas e de ocupação eficiente dos espaços políticos destinados à situação e à oposição, para grandeza de uma pátria que não ameaça e nem discrimina seus cidadãos.
O autor é advogado e articulista do JC