Malavolta Jr. |
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Segundo o oncologista Marcelo Antunes, o câncer de pulmão cresce de maneira silenciosa |
“Se você é fumante, você tem uma doença mortal”. O alerta do médico oncologista Paulo Eduardo Souza dá a dimensão do quanto o cigarro pode prejudicar a saúde de um indivíduo. Segundo estimativas, 90% das pessoas que sofrem de câncer de pulmão são tabagistas. E a doença é a que mais mata entre todos os cânceres em Bauru – uma tendência que se confirma também em âmbito nacional e mundial.
Segundo dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), fornecidos pela assessoria de imprensa da prefeitura, 51 moradores de Bauru morreram de câncer de pulmão no ano passado. De janeiro a outubro de 2014, já eram 39 mortes. Depois deste tipo de tumor, os mais letais são, pela ordem, os de mama e de próstata (leia mais no quadro ao lado).
Neste ano, 389 pessoas morreram vítimas de câncer em Bauru, considerados todos os tipos existentes. No ano passado, foram 472 óbitos. As estatísticas preocupam e provocam reflexão na data de hoje, em que se comemora o Dia Nacional de Combate ao Câncer.
“Tivemos alguns avanços com a proibição de fumar em locais fechados, com o fim da publicidade na mídia e com a elevada tributação sobre o cigarro. Mas, ainda temos de avançar, com mais programas que promovam busca ativa para reduzir o número de fumantes e também para garantir diagnóstico precoce”, pontua Paulo Eduardo Souza.
Também médico oncologista clínico, Marcelo Bernardini Antunes explica que o câncer de pulmão é o que mais mata porque, além de ser mais agressivo, demora a apresentar sintomas. “Ele cresce silenciosamente. Não é como um tumor na mama, que pode ser apalpado. Na maioria dos casos, quando as primeiras manifestações aparecem, já está em estágio avançado”, explica ele, que é membro da Sociedade Europeia de Oncologia.
Acaso
Os primeiros sinais, segundo Antunes, são tosse persistente e perda de peso, que podem não ser investigados por serem sintomas comuns a outras doenças. Em um segundo estágio, o paciente sofre com falta de ar, dor torácica, escarro com sangue, dor óssea e rouquidão. “Quando o diagnóstico ocorre em estágio inicial, geralmente é por acaso, em um exame de raio-X ou tomografia solicitado por outros motivos”, acrescenta.
Por ano, cerca de 1,2 milhão de pessoas no mundo morrem de câncer de pulmão. Segundo Antunes, a doença é mais frequente entre homens, especialmente os que possuem de 50 a 69 anos de idade. O tabagismo é considerado o principal fator de risco, responsável por 90% dos casos de câncer de pulmão.
“Um indivíduo que fuma um maço por dia durante 40 anos tem 20 vezes mais chances de ter este tipo de tumor do que uma pessoa que nunca fumou. Se ele para de fumar, após 15 anos ele será apenas duas vezes mais propenso do que um não fumante”, alerta.
O oncologista explica que a sobrevida dos pacientes tem sido estendida por tratamentos mais avançados, exames mais acurados e medicações com menos efeitos colaterais e com melhores resultados. “O tratamento padrão prevê cirurgia e quimioterapia. Quando não há possibilidade ou necessidade de cirurgia, é instituída radioterapia associada à quimioterapia”, explica.
Terapia-alvo
Entre as novidades no tratamento de câncer, está a terapia-alvo molecular, que tem como objetivo combater moléculas específicas, direcionando a ação de medicamentos - exclusivamente ou quase exclusivamente - às células tumorais. Desta forma, a ação sobre as células saudáveis e os efeitos colaterais são reduzidos.
“Trata-se de uma medicação via oral, com baixa toxicidade, que aumenta o tempo de sobrevida dos pacientes. É uma medida terapêutica que veio revolucionar o tratamento do câncer, mas que ainda é alvo de estudo nos mais diversos campos da oncologia”, frisa o médico Marcelo Bernardini Antunes.
Mutações genéticas
Apenas 10% dos casos de câncer de pulmão não estão associados ao tabagismo. Estas exceções, quase sempre, estão ligadas à predisposição genética do paciente, mas também podem ocorrer devido a fatores ambientais. Segundo o médico oncologista clínico Marcelo Bernardini Antunes, existem estudos científicos que demonstram que, quando está relacionado a alterações moleculares, o câncer de pulmão atinge, predominantemente, mulheres jovens.
“O risco também vai aumentando para pessoas que sofrem de síndrome de Li-Fraumeni, que também provoca mutações genéticas”, acrescenta.
Entre os fatores ambientais que podem provocar a doença, estão a exposição passiva ao tabaco, contato com asbesto (amianto), metais como arsênio, cromo, níquel, hidrocarbonetos policíclicos e irradiação ionizante.
Há, ainda, mais chances de surgimento deste tipo de tumor entre pacientes que sofrem fibrose pulmonar e de infectados por HIV. “Mas são associações mais fracas do que as do tabagismo ou mesmo das mutações genéticas”, completa.
‘Não espere a doença para deixar de fumar’
Não é raro ouvir de um paciente que conseguiu vencer o câncer que a vida muda depois da doença. Trata-se de um relato que a presidente da Associação Bauruense de Combate ao Câncer (ABCC), Cristina Aidar, já presenciou muito.
“A forma como a pessoa se relaciona com o mundo muda. E a forma como ela passa a enxergar a vida, também”, comenta. Mas, para Cristina, esta transformação deveria ocorrer antes mesmo de as pessoas precisarem enfrentar um desafio tão difícil e doloroso, um conselho valioso especialmente para os tabagistas. “Não espere o câncer para deixar de fumar. É mais do que comprovado que o cigarro é a principal causa de alguns cânceres, como o de pulmão. Antes de ficar doente, cada um de nós deve adotar um estilo de vida saudável, com atividades físicas diárias, uma alimentação mais apropriada e idas periódicas ao médico”, observa.
Prevenção ainda não tem protocolo bem definido
Não há, no País, um protocolo bem definido para o rastreamento e diagnóstico precoce do câncer de pulmão, como existe, por exemplo, para o tumor de mama e de próstata. Segundo o oncologista Marcelo Bernardini Antunes, alguns médicos já adotam como conduta submeter pacientes que fumam um maço por dia há mais de 30 anos a tomografias anuais com baixa dose de radiação.
“Mas não é uma regra, nem algo que tenha se estabelecido como conduta dentro do Sistema Único de Saúde”, pontua. Um ganho para a área de oncologia, contudo, foi a Lei 12.732/12, sancionada pela Presidência da República em maio do ano passado.
A norma prevê que pacientes com câncer devem iniciar o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) até 60 dias após o registro da doença no prontuário médico. O oncologista Paulo Eduardo Souza destaca que a regra tem sido cumprida até mesmo porque os prestadores de serviço que recebem recursos do Ministério da Saúde podem ter o contrato suspenso caso deixem de prestar o serviço conforme as diretrizes estabelecidas.
“Outro avanço foram os grandes investimentos que todo o País, incluindo Bauru, recebeu na área de radioterapia. Tivemos melhorias, mas ainda há muito a ser aprimorado”, finaliza.
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