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Luciano Dias Pires Filho é comunicador polivalente |
As expertises desse comunicador bauruense são muitas - cartunista, jornalista, executivo de marketing de multinacional, colunista, colaborador de vários sites, revistas e jornais. É também produtor e apresentador de um dos mais ouvidos programas de música (recheado com ideias ou vice-versa): o podcast Café Brasil, transmitido pela internet e na Rádio Mundial FM, em São Paulo. É também escritor e, acima de tudo, agora ou nos últimos seis anos, palestrante. Suas palestras já chegaram a reunir mais de 3 mil pessoas de uma só vez. E fala para um público totalmente eclético: engenheiros, executivos, estudantes. Recentemente fez um circuito de 35 dias do Interior do Mato Grosso falando para produtores rurais. Ele tem conteúdo e sabe o que fala e faz. Confira.
Jornal da Cidade - Você se define como ‘animal internético’...
Luciano Dias Pires Filho - Produzo conteúdo e uso de todos os meios para divulgar minhas ideias, vídeos, fóruns, redes sociais, filmo, fotografo, edito, construo, o que eu penso vai para rádio, uso músicas e o que for preciso para dar o recado. E meu site é disponibilizado de graça, uso as redes sociais e até polemizo com os internautas.
JC - Deixar de cobrar não desvaloriza o trabalho?
Luciano - Nada disso. Não adianta segurar. Tanto que os músicos lançam o álbum primeiro na internet. A informação tem que chegar a quem quiser, quanto mais conhecido eu fico, mais vão me chamar para palestras, que é hoje o meu ganha-pão. A divulgação na internet é grande, mas não o suficiente para me atrapalhar. É o contrário.
JC - As ideias são contundentes e sua produção, independente.
Luciano - De fato. Quando cheguei à rádio Mundial com o programa que deu origem ao Café Brasil (no ar há quase 10 anos), sabia o que queria: independência e tocar a música que ninguém toca, não ficar à mercê de interesses comerciais, do que pode e do que não pode falar.
JC - Isso é ser polêmico...
Luciano - Sim, se preciso, chuto mesmo o pau da barraca, não fico em cima do muro. No Brasil de hoje, ter opinião é ofensa pessoal. Você tem que tomar partido, assumir o que pensa. Quem fica em cima do muro é insosso.
JC - Neste ano você declarou voto para o Aécio antes de muitos.
Luciano - Sim e justifiquei claramente. Aliás, em 10 meses meu Facebook, que tinha 12 mil acessos, pulou para 66 mil. Quando declarei a opção foram 100 mil curtidas e nada mais do que 200 mil compartilhamentos.
JC - E houve muita crítica?
Luciano - Sempre há. Mas quando exponho uma ideia eu explico, falo com conhecimento, estudo, e os contra-argumentos têm que ser como os meus, com começo, meio e fim. A pessoa não pode simplesmente dizer não gostei e criticar, precisa saber argumentar, conhecer causa e consequência. Aí até posso mudar de ideia, mas é muito difícil.
JC - Soa como um desafio?
Luciano - É o que me move. Se falar que não dá para fazer, aí é que eu quero descobrir como fazer (risos). Todos os meus grandes trabalhos foram assim: o desafio aflorar a criatividade, me obriga a criar a solução. Aprendi isso lá atrás, aos 17 anos, quando saí de Bauru e fui fazer comunicação visual no Mackenzie. Ao fazer meus desenhos (ele era cartunista do JC e colaborava com a seção Vírgula, com texto e traço, aos domingos). Tinha de fazer, finalizar, entregar no ônibus dois dias antes, que mandava para Bauru, aprendi ali bem novo o que era normatização, cumprir prazo. Mas foi bom.
JC - Foi um bom cartunista?
Luciano - Ganhei prêmios, aliás, com o prêmio que ganhei do Salão do Humor em Piracicaba, por exemplo, mobiliei toda minha casa, e eu estava recém-casado.
JC - Estar casado há 33 anos (com a bauruense Denise Bernardes Perez Pires, namorada de infância) ajuda na carreira?
Luciano - Não sei como é não ter família. Espelho-me em casamentos longos, meus avós completaram 75 anos de casados, meus pais, 60 anos de casados. Saber que a família está aí tira um peso, é uma segurança, ter alguém esperando em casa é ótimo. E sou muito grato por ter, aos 58 anos, pai e mãe vivos. O pai ainda agitando (ele é filho de Luciano Dias Pires, editor do Bauru Ilustrado do JC).
JC - Tem filhos?
Luciano - Dois, Daniel Perez Pires, de 30 anos, e Gabriela Perez Pires, de 24.
JC - Você saiu daqui cedo, mas tem referências e influências da cidade?
Luciano - Com certeza. A comunicação está no meu DNA. Embora não tenha crescido em jornal, conheci um pouco de redação e seu Luciano acabou me contaminando. Aliás, quero deixar claro que eu era muito feliz aqui, tinha tudo o que minha família poderia me proporcionar. Não me pergunte o porquê, até hoje não sei, mas tive que ir. Deu certo.
JC - Assim como deu certo a troca de profissão...
Luciano - Sim, depois de 26 anos como executivo de uma multinacional, e com essa vontade já sedimentada a nova carreira está aí. Começou lá no final dos anos 90, fui convidado para apresentar uma dessas palestras (que eram pequenas até então) e me vi diante de mais de mil pessoas no Via Funchal, uma casa famosa em São Paulo. Havia gente famosa lá (como o Roberto Shinyashiki), e eu era um deles. E o público gostou do que eu dizia. Aí achei que dava para a coisa.
JC - E a mãe?
Luciano - Outra referência importante. Dona Helena era professora do Rodrigues de Abreu (a escola ficava na frente de casa) e eu fui alfabetizado por ela. Isso sem dúvida foi muito interessante, deve ter tido seu impacto.
JC - Uma lembrança de Bauru.
Luciano - Além de muitos amigos de escola, do Colégio Técnico, minha referência de infância e juventude foi no Luso, o clube. Era lá na Associação Luso Brasileira de Bauru que tudo acontecia. Uma convivência muito gostosa.
JC - De São Paulo.
Luciano - O choque cultural. Saído de um núcleo familiar de cidade pequena para uma efervescência cultural. Eram os anos de chumbo, lutávamos por uma abertura política. Conheci o Henfil, convivi com os caras do “Pasquim”. Estava lá quando morreu Herzog. Fui editor do “Análise” do diretório do Mackenzie. Enfim, um choque em que tive que me virar.
JC - A sua viagem ao Everest, quando trocou o paletó pela mochila - que deu origem ao livro Meu Everest -, em 2001, foi um divisor de águas?
Luciano - Sim, e como digo, sem heroísmos, sem sustos, sem super-homens escorregando e morrendo no gelo.
JC - Você estimula as pessoas a irem em busca do seu sonho e se diz ‘uma pessoa comum reagindo diante de uma situação incomum’.
Luciano - De fato podia ser você, pode ser qualquer um lá. Basta ter coragem. E que fique bem claro, coragem não é a ausência do medo. É ir buscar o que você quer, apesar do medo.
Perfil
Uma alegria: Rever pessoas
Uma tristeza: Perder pessoas
O que falta na vida: Ser avô
Time: Corinthians
Um desejo de consumo: Ser dono de um teatro
A música (ou gênero) preferida: Boa. Mas se só puder escolher uma, jazz.
A viagem inesquecível (além do Everest): Pólo Norte, em 2006
Um lugar: Campo Base do Everest
Onde espera estar daqui a 10 anos: Morando na Europa
O momento perfeito: Os aplausos no final de uma palestra
Um ideal: Ajudar a ‘desemburrecer’ o Brasil
