Éder Azevedo |
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Luciane Silva Cordeiro: vida com R$ 80 por mês da Renda Cidadã em casa do Parque Roosevelt com filha adolescente |
Há exatos dois anos, a história de Luciane Cristina da Silva Cordeiro era contada pelo JC. Após muito tempo morando na rua e exposta a humilhações de todas as naturezas, ela foi contemplada pelo programa “Minha Casa Minha Vida” em dezembro de 2012. Ela diz que um teto para chamar de seu continua sendo o maior e melhor presente de Natal de sua vida, mas hoje, aos 39 anos e às vésperas de mais um 25 de dezembro, tem outro desejo: “Quero mais alegria. A minha está pouca e só será maior se conseguir condições melhores para criar a minha filha”.
As dificuldades que Luciane enfrenta no dia-a-dia revelam o quão insuficientes, apesar de essenciais, são as ações do poder público para garantir a mínima dignidade à população que depende quase exclusivamente do Estado para sobreviver e dar fim a um vicioso ciclo de miséria.
Nos últimos dois anos, a vida da ex-moradora de rua deu muitas reviravoltas. Uma grande vitória, além de sua casa, foi a conquista da guarda de sua filha Jennifer Cordeiro Miranda, de 13 anos. Esse era um de seus sonhos tidos como impossíveis até pouco tempo atrás, justamente pelo fato de não ter um lar.
Por outro lado, desde que mudou para sua casa, Luciane viu morrerem sua avó, seu pai e sua mãe, que tomava conta de sua filha nos tempos em que morava na rua. “Se eu não tivesse essa casa, para onde eu iria com a minha menina? Poderia ter até caído nas drogas. Foi um baque muito difícil. Todo o resto da minha família se afastou. Hoje, somos a Jennifer, eu e Deus”.
Além de ter perdido o que lhe estava de base familiar, ela vive graves dificuldades financeiras. Há dois anos, enquanto morava na rua, recebia um salário mínimo todos os meses por conta de uma deficiência de grau leve. O benefício, no entanto, foi cortado e, agora, Luciane e a filha se mantêm com apenas R$ 80,00 do Renda Cidadã, programa social do governo do Estado.
“Não recebo mais o salário faz três meses porque tinha que passar por perícia, mas, pelo SUS, demora para sair e não tenho dinheiro para pagar no particular”, explica.
Luciane e Jennifer também estão fora do Bolsa Família porque, antes de chegar à guarda da mãe, a garota ficou fora da escola, desobedecendo um dos critérios fixados pelo programa do governo federal, que poderia lhes garantir mais R$ 112,00 ao mês. “Mas eu já estou matriculada para o ano que vem”, comemora a menina.
Arroz com feijão
Como sobreviver com R$ 80,00 ao mês? A fome da ex-moradora de rua e de sua filha é saciada graças às cestas básicas entregues pela Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) da prefeitura. “O dinheiro não dá para comprar comida”.
Mesmo assim, na maioria dos dias, só há arroz e feijão nas panelas. Luciane conta que “só tem mistura” quando vizinhos ajudam. “Hoje, logo cedo, a Jennifer perguntou o que a gente tinha para almoçar. Tem o arroz, mas ela nem comeu porque me falou que já não desce”, lamenta.
Complicando ainda mais a situação, sua filha enfrenta um problema de saúde nos ossos, que exige o consumo diário de leite. Nesse caso, as duas também têm contado com o respaldo do poder público.
Custo cidadão
Nos últimos meses, a ex-moradora de rua tem enfrentado dificuldades até para pagar as parcelas de R$ 30,00, referente ao financiamento subsidiado da casa. O valor, hoje, equivale a quase 50% de sua renda. “Faz uns dias, que eu consegui dar um jeito graças a umas ajudas que recebi porque, nesse caso, meu medo é perder isso aqui, que é a única coisa que a gente tem”, diz Luciane.
Sonho de Natal
“Hoje minha filha acordou chorando. Disse para mim que queria uma cesta para ter uma ceia de Natal, uma roupa e um sapato. Eu falei que a gente daria um jeito, mas não vejo como. Só Deus sabe o quanto dói o coração não poder atender um desejo da própria cria. Nessa época, tudo é ainda mais difícil porque ela vê as colegas e as outras meninas ganhando as coisas. Acho que, no dia do Natal, a gente vai mesmo passar com a porta de casa fechada e dormir cedo porque não vai ter aquele monte de comida boa que outras pessoas têm”, disse Luciane Cristina da Silva Cordeiro, ontem, dois anos após ter sonhado com natais mais felizes...
Doações podem ser feitas à Sebes
Bauruenses que se sensibilizarem com a situação de Luciane e sua filha podem ser encaminhadas à sede da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), que fica na quadra 1 da rua Alfredo Maia. O telefone para contato é (14) 3227-8624. Todas as doações serão destinadas à família.
A ex-moradora de rua rasga elogios à equipe da secretaria. Desde que mudou para sua casa, aliás, ela ainda não fez o bolo para Darlene Tendolo, titular da pasta, como prometeu na reportagem publicada pelo JC à época: “Ainda não sobrou dinheiro”.
Antes de mudar para o residencial Buritis, no Parque Roosevelt, Luciane vivia na tubulação depositada na avenida Nuno de Assis. Até hoje, ela guarda os recortes de jornal com a notícia sobre a mudança na sua vida. “Ninguém liga para a gente. As pessoas acham que a gente é lixo. Não quero que nunca mais ninguém cuspa na minha cara. Isso já aconteceu quando pedi um prato de comida para uma mulher”, relatou dois anos atrás.
Analfabeta, a ex-moradora de rua contou que uma desconhecia cobrou R$ 15,00 para ler o documento que trazia a notícia de que fora contemplada pelo programa “Minha Casa Minha Vida”.
