Cultura

Saindo do forno

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 3 min

O jornalista Lucius de Mello lança amanhã, a partir das 19h, no Empório Cultural do Shopping Boulevard Nações, seu mais recente livro: “Dois irmãos e seus precursores: O mito e a Bíblia na obra de Milton Hatoum”. A obra é fruto da dissertação de mestrado defendida por Mello no departamento de estudos judaicos e árabes da Universidade de São Paulo (USP) e relaciona mitologia ameríndia e a Bíblia com o livro “Dois Irmãos”, do escritor Milton Hatoum. O livro tem 208 páginas e é publicado pela Editora Humanitas.

 

Apesar de ser uma obra acadêmica, Mello afirma que o livro é interessante também para o leitor “comum”. “Tenho certeza que ver a narrativa bíblica por um outro ângulo, como obra mais literária que religiosa, pode ser um atrativo e tanto para o leitor não acadêmico”, observa o autor. “A mitologia indígena também é um mundo surpreendente. Além disso, o romance ‘Dois irmãos’ vai virar uma minissérie no ano que vem na TV Globo com direção de Luis Fernando Carvalho e com Cauã Reymond interpretando os gêmeos Omar e Yaqub”, revela.

 

Em entrevista ao Jornal da Cidade, Mello comenta sobre o processo de pesquisa e elaboração do livro e constatações e descobertas que o trabalho traz.

 

Jornal da Cidade - Você relaciona o livro “Dois Irmãos” à Bíblia e à mitologia ameríndia. Como constatou a ligação?

Lucius de Mello - O romance conta a história de uma família de origem libanesa na Manaus de meados do século passado. Os protagonistas são os gêmeos Omar e Yaqub. Eles se odeiam desde adolescentes e vivem em conflito. Zana, a mãe dos gêmeos, demonstra gostar mais de Omar - filho que nasceu por último, ou seja, o caçula. Já o pai, Halim, gosta mais do outro gêmeo primogênito, Yaqub. Só esta relação conflituosa familiar já aproxima o leitor da narrativa bíblica dos embates fraternos presentes no livro do Gênesis, especialmente de Esaú e Jacó. Pesquisando a cultura do Tupinambás e de outras tribos indígenas da Amazônia, também constatei que na mitologia ameríndia encontramos histórias de gêmeos inimigos. 

 

JC - Do que se trata fundamentalmente a obra?

Mello - É um ensaio literário que detém-se na análise e na comparação do romance “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum, com a mitologia ameríndia e a narrativa bíblica dos embates fraternos. O relacionamento conflitante entre irmãos é um constante leitmotiv, um foco de interesse que se desenvolve de diversas formas ao longo de todo primeiro livro da Bíblia Hebraica. Hatoum vai à narrativa bíblica, considerada matriz do pensamento ocidental e da memória cultural da Humanidade, pelo impulso do seu tema, logo, ele não parte da Bíblia. Busco os vestígios da narrativa bíblica presentes na obra do autor brasileiro, seguindo os rastros de Omar, Yaqub e, especialmente, Nael, um narrador intervalar, meio índio, meio árabe, filho bastardo de um dos gêmeos do romance com a cunhantã, empregada da família de origem libanesa. Nael me conduziu a uma surpreendente descoberta: é ele quem acende o foco nacional na pesquisa e, como descendente do povo indígena do Amazonas, revela-se o mais legítimo herdeiro de toda ancestralidade mitológica, originária das lendas e mitos que envolvem gêmeos inimigos em narrativas tão ou mais milenares que a Bíblia. 

 

JC - A ideia do tema surgiu quando e como? E qual o motivo do interesse no assunto?

Mello - A ideia surgiu quando comecei a pensar no meu mestrado em 2009. Queria estudar o livro do Gênesis como obra literária e não religiosa. E os embates fraternos presentes na narrativa bíblica sempre me atraíram como leitor. Depois de ler o ensaio de Jorge Luis Borges - Kafka e seus precursores -, tive a ideia de investigar como narrativas milenares como a bíblica e a mitologia influenciam a ficção dos autores contemporâneos. Aí, então, cheguei ao romance do Hatoum.

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