Regional

"Os Anos Dourados Duartinenses"

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 8 min

Vítor Peruch

O livro é um registro histórico, parte da memória de Duartina, na opinião do autor

Conhecer a cidade de Duartina (38 quilômetros de Bauru) de 1949 a 1959. Com este objetivo, o professor de história Valdeci Corrêa de Freitas escreveu o livro “Os Anos Dourados Duartinenses”. A obra começou a ser escrita em 1997, teve continuidade em 2010 e foi lançada no final do ano passado.   

 

O livro é um registro histórico, parte da memória de Duartina, na opinião do autor. “Fiz um recorte histórico de 49 a 59. Eu trabalho com a política, economia, a parte social, curiosidades, enfim, o cotidiano do duartinense. Eu falo da passagem da década de 40 para 50. A mudança de mentalidade, os modismos e os altos e baixos na política. Eu misturo um pouco da política nacional com a local.”  

 

Nas 154 páginas, Freitas insere a cidade no contexto nacional, regional e local. “A obra corresponde a dois campos de estudo de meu interesse: a história e a memória. A memória porque tudo o que se passou em fins da década de 40 e durante  os anos 50 até hoje refletem no destino político econômico social brasileiro e duartinense. História porque ela é a voz do passado, sem ela jamais poderíamos caminhar com segurança dentro do presente e vislumbrar um futuro, sem cometer os mesmos erros.”  

 

Já no primeiro capítulo, intitulado “1949 - Um salto para o Futuro”, o autor faz um recorte no momento histórico das décadas. “Os anos de 40 e 50 formam a base do segundo surto de industrialização do Brasil e do Estado de São Paulo. Nesse período, as fábricas brasileiras tiveram como importar equipamentos novos, podendo renovar a frota nacional de veículos e criar, através do setor estatal, a Companhia Siderúrgica Nacional que foi a primeira grande indústria do ramo no Brasil.”  

 

O cinema brasileiro, nessa década floresceu com a Companhia Cinematográfica Vera Cruz e surgiu  a TV Tupi, sob o patronato de Assis Chateaubriand (o Chatô). 

 

O ano de 49 em Duartina começou com a presença do prefeito Benedito Gebara dando explicações na Câmara sobre um empréstimo que havia solicitado de particulares para terminar as obras de saneamento básico da cidade. Gebara falava da quantia do empréstimo, uma soma de 374.555,70 de cruzeiros, que seriam pagos em 40 anos com juros na ordem de 5% ao ano. O vereador João Baptista Moioli, ferrenho opositor do chefe do executivo, discordou do empréstimo dizendo que a cidade não “podia ficar a mercê de credores por quarenta anos, e que tal empréstimo acarretaria um total descontrole das contas da prefeitura.” 

 

Feita a votação entre os nove vereadores, somente Moioli, que era representante do Partido de Representação Popular, votou contra, argumentando que “seu partido não concordava com a tomada de empréstimos a longo prazo pelo município.”    

 

Santa Casa ou prédio do ginásio? 

 

Uma campanha de arrecadação de fundos para a construção da Santa Casa de Misericórdia de Duartina estava em andamento quando surgiu a ideia de promover arrecadação popular para a construção do prédio próprio do colégio Benedito Gebara. A proposta foi feita pelo prefeito da época Theófilo Cordovil que tinha opinião contrária à obra que abrigaria a Santa Casa. Ele era favorável a construção de uma Casa de Saúde. Segundo ele, era muito difícil manter um hospital. 

 

Era o ano de 1951. Na cidade de Duartina já tinha o serviço telefônico que funcionava até as 23h. A empresa prestadora do serviço era de propriedade de José Inácio Fernandes e tinha como acionista locais o médico e político Benjamin Constant Marsiglio e o fazendeiro e político Domiciano José Arêdes. 

 

Cordovil argumentava que o empreendimento ia trazer muitos indigentes para Duartina depois que a Santa Casa estivesse funcionando. O vereador e médico Benjamin Constant Marsiglio falava que era o plano antigo seu construir uma Casa de Saúde. Ele argumentava que esteve prestes a comprar todo o material cirúrgico de uma Casa de Saúde de São Manuel e que só não o fez, porque a ideia e a vontade popular de construir uma Santa Casa era muito grande. 

 

Na cidade e na Câmara Municipal, a construção do ginásio estadual e da Santa Casa foram pautas durante muitos dias até ser instituída uma taxa adicional nos impostos municipais e também se contrataria um empréstimo externo para a construção do prédio do ginásio.

 

Em 55, foi construído o Hospital Santa Luzia que até hoje é o único na cidade.

 

Nascem as Vilas Salomão e Marsiglio

 

É no capítulo três da obra que os leitores encontram informações sobre os loteamentos Vila Salomão e Vila Marsiglio. “A década de 50 em Duartina foi marcada pela força dos empreendimentos de Salomão Sabbag. Desde a implantação do município, em 1927, falava-se de um local onde pudesse ser agregada a classe proletária local.” 

 

Na época os grandes fazendeiros e comerciantes duartinenses nunca quiseram se ‘misturar” com os trabalhadores pobres na cidade. “Muito embora, os fazendeiros usassem estes mesmos pobres como seus empregados em suas propriedades agrícolas e os comerciantes, como consumidores em seus conteúdos.”

 

Para a classe pobre duartinense, restaram os terrenos que margeavam o Centro da cidade. “Foi nesse momento que o espírito empreendedor  de Salomão Sabbag comprou e loteou as terras que hoje compreendem a Vila Salomão. Na verdade, ele loteou os terrenos porque aquelas terras não eram de boa qualidade para plantações rendosas da época.” 

 

A Vila Salomão, hoje Vila Duartina, é um dos bairros principais da cidade. “Ela cresceu e está totalmente urbanizada e arborizada. É nela que está o único hospital que atende Duartina, Ubirajara, Cabrália e Lucianópolis.”

 

O médico Benjamin Constant Marsiglio abriu a chamada Vila Marsiglio. Clemente Carloni foi outro grande proprietário de terras nas imediações de Duartina, tanto que muitos terrenos que abrigam prédios importantes, como o ginásio estadual local e o fórum, foram de sua propriedade. 

 

Ginásio

 

Em 57, em 16 de agosto foi aprovado e celebrado o contrato entre a prefeitura e o Instituto de Previdência do Estado e o engenheiro Helio Roma Police, para a construção do prédio destinado a instalação do ginásio estadual Benedito Gebara.  Em fevereiro de 58 foi inaugurado o novo prédio do Ginásio Estadual Benedito Gebara, na saída de Bauru, na rua 7 de setembro. Um prédio com construção sólida e arrojada. Com dois andares e bem adaptada para as funções pedagógicas da época.  

 

Prédio

 

Na capa do livro “Os anos Dourados Duartinenses” está estampado o prédio Santa Isabel. De acordo com o autor da obra, Valdeci Corrêa de Freitas, o imóvel está sendo vendido pelos herdeiros. “Não foi preservado e nem tombado. Aqui  em Duartina não tem nenhum prédio tombado. Não temos a política de tombamento. Até o  museu histórico municipal  foi fechado.”  A praça central não possui mais o footing. 

 

A Copa de 58 em Duartina 

 

A Copa do Mundo começou no dia 8 de junho de 1958. A atenção dos duartinenses e do Brasil estava voltada para a competição de futebol. Em Duartina todos os ouvidos estavam ‘ligados’ nas rádios de São Paulo e do Rio de Janeiro, na época a capital federal. “O escrete canarinho, como era chamada a Seleção Brasileira, estava treinando tenazmente. Precisavam apagar a má impressão deixada em 1954, na Suíça e a lembrança de 1950, ainda torturava a todos.” 

 

A concentração brasileira na Suécia ficava perto de um lago na cidade de Hindas. Logo no primeiro dia, descobriram que quem servia as mesas dos jogadores era uma linda loira sueca. “O comando da seleção, com medo de que os jogadores se entusiasmassem e perdessem a concentração, fez com que a bela moça tirasse férias, pagas pela antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD).” 

 

Os duartinenses começaram a filosofar sobre a saída da loira. Os rapazes ficaram contra a saída da mulher de perto da seleção. “As moças e senhoras, que podiam emitir sua opinião, eram a favor. Nos bares e na roça, era um filosofar só. Criou-se a ala dos a favor e dos contra.” 

 

O frio estava chegando e a atenção dos duartinenses voltada para a Suécia. No Brasil  todo só se falava nisso. A Copa estava chegando ao fim. Depois de boa campanha, o escrete canarinho chegava à final contra a seleção da casa. A final foi disputada no Estádio Raasunda, em Estocolmo. A capital sueca. 

 

Duartina estava em polvorosa naquele dia 29 de junho de 58. Era o dia de São Pedro e a final da Copa. Os bares estavam cheios, os lares duartinenses, que possuíam rádios, repletos de espectadores. O jogo começou e somente a voz do locutor no rádio era ouvida. O público era de 49.737 pessoas no estádio. A Seleção ganhou de virada por 5 a 2 dos donos da casa. Festa, muita festa em Duartina. Os rapazes se abraçavam e gritavam: é campeão! “Muitos deles sabiam do que falavam, pois eram jogadores dos quadros futebol local e entendiam do riscado. Quantos bons jogadores de futebol, Duartina teve ao longo da década de 50.”

 

O capitão do time brasileiro, Bellini, ergueu a Jules Rimet e as garotas de Duartina suspiravam quando viam a foto dele nos jornais e revistas. Nos dias seguintes podia-se ouvir nos rádios, tocando em alto volume a marchinha, que se tornou hino da conquista na Suécia: “A taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa. Eta esquadrão de ouro...”

 

Os duartinenses continuaram a falar da vitória da seleção, nos meses seguintes. Nos bares falava-se da atuação em campo do jovem Pelé. Muitos duartinenses conheciam o garoto pessoalmente já que ele saíra dos campos de várzea de Bauru e chegou a bater bola em Duartina.

 

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