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"Brasil: pátria educadora!": o que significa isso?

Márcia Lopes Reis
| Tempo de leitura: 4 min

Certamente, muito de nós, professores, tenhamos vivenciado uma mistura de sentimentos ao escutar o lema apresentado pela presidente em seu discurso de posse, no dia 1 de janeiro de 2015, para um segundo mandato: "Brasil: pátria educadora". A mescla de sensações pode ser descritas pela surpresa inicial passando pela curiosidade para saber exatamente do que ela trata e, por fim, dada a nossa condição histórica, a esperança de dias promissores para as futuras gerações.

A surpresa decorre do fato que, passados 12 anos (como a presidente mesma circunscreveu seu discurso por serem 8 anos de governo Lula e 4 referentes ao ?seu? primeiro mandato), pela primeira vez, quase como um ?procedimento de ajuste de conduta?, a governante anuncia o lema que, em tese, deveria ter sido proclamado (e cumprido) há alguns séculos. Alguns dirão: ?Que bom que tenha feito isso agora, neste início do século XXI?, ?antes tarde do que nunca?... ?é preciso paciência histórica?... Mais do que isso: a surpresa foi maior quando nos demos conta de que nada do que já foi feito em prol da educação é citado: a sensação de que passamos a existir a partir daquele momento nos remete ao sentimento de interesse por saber mais sobre o que exatamente quer dizer isso...

A curiosidade ? algo que nos tipifica como educadores desde a inspiração socrática do método da maiêutica ? talvez não tenha sido suprida pela tentativa de saber exatamente do que se trata esse lema. A presidente até tentou supri-la ao dar início a uma definição que o momento permitia: "Ao bradarmos Brasil, pátria educadora? estamos dizendo que a educação será a prioridade das prioridades, mas também que devemos buscar , em todas as ações do governo, um sentido formador, uma pátria cidadã, um compromisso de ética e um sentimento republicano". Talvez sua inspiração tenha vindo da convicção dita, em seguida: "Só a educação liberta um povo e lhe abre as portas de um futuro próspero", concretizado nas experiências históricas de países que, no período pós II Guerra Mundial, reconstruíram suas trajetórias e, hoje, figuram como nações cujos índices de desenvolvimento econômico e desigualdade social representam uma meta a ser alcançada por nós.

A esperança talvez seja o sentimento mais complexo em meio a esses anteriores. Isso porque, esperamos (e trabalhamos cotidianamente para isso, desde que optamos por esse papel social) dias em que a educação seja mais que um lema bradado. Nesse dia, a educação se converterá em meta coletiva cujos aspectos quantitativos e qualitativos embasarão as ações dos gestores dos distintos entes federados (União, Estados e Municípios). Nesse sentido, a esperança é de que a presidente saiba que uma ?pátria educadora? nada mais é do que um conjunto de 5.570 ?cidades educadoras? ? conceito esse adotado pela Unesco em 1972 por inspiração de Edgar Faure, que pode ser compreendido por outro autor: "cidade educadora é aquela que converte o seu espaço em uma escola sem paredes e sem teto. Neste espaço, todos os espaços são salas de aula: rua, parque, praça, praia, rio, favela, shopping, e também as escolas e as universidades. Há espaços para a educação formal, em que se aplicam os conhecimentos sistematizados, e a informal, que cabe todo o tipo de conhecimento. Ela integra estes tipos de educação, ensinando todos os cidadãos, do bebê ao vovô, por toda a vida" (Cabezudo, 2004, p. 2).

Ora, mesmo que a educação seja esse conjunto de processos e resultados que são definidos qualitativamente, não prescinde dos dados quantitativos e, certamente, a pátria educadora deverá rever o seu maior desafio: o ensino médio. Apesar de ocorrer ao final dos anos de educação básica e, antes de seguir para a educação superior, esse nível da escolarização brasileira representa bem o que como desafio: em 2015, ainda há 20% dos jovens de 15 a 17 anos fora da escola e somente 50% deles está na série esperada para suas idades. Dentre os jovens de 18 e 19 anos que concluíram o ensino fundamental, 47,7% não conseguiram concluir o ensino médio. Parte dessa evasão está diretamente relacionada à baixa qualidade do ensino e à falta de condições que venham a atrair os jovens que remete aos currículos implementados e à formação dos professores!

Não há qualquer mágica ou milagre: transformar o lema em meta demandará mais que um discurso. Exigirá de seus gestores a priorização dos aspectos qualitativos, quantitativos em um tempo determinado para serem alcançados. Afinal, se sozinha a educação não supera a inequidade social de um país, sem ela, definitivamente, é impossível superá-la. Talvez o lema ?Brasil: pátria educadora? já tenha cumprido parte de seus objetivos que seria tentar compreender o que significaria isso!

A autora é professora doutora na Unesp Bauru/Faculdade de Ciências

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