Quando eu era pequeno, lá na saudosa Pirajuí, minha mãe era adepta ao tal jogo do bicho. Era só sonhar com um animal que logo ela ia ao bar da esquina e apostava. Tinha vez que nem sequer sonhava com o bicho exatamente. Sonhava com alguém que tinha uma tatuagem de bicho; sonhava com algo que significava um bicho (sonhar com acácia significa coelho... mas quem diabos sonha com acácia?); tinha vez que algum bicho aparecia misteriosamente na borra de café (assim como o rosto de Cristo). Minha mãe sempre apostou. Ela nunca ganhou.
Hoje, tanto eu quanto minha mãe sabemos que o jogo do bicho é algo ilegal e que alimenta muitos crimes nefastos. Em Bauru, a prática é combatida com unhas e dentes pela Polícia Civil. Porém, é mais um dos tantos problemas que a legislação mais atrapalha do que ajuda. A lei é branda e trata apenas como contravenção. Uma banca do jogo é desmontada pela manhã e reaberta a uma quadra dali pela tarde. Como dizem os policiais, a sensação é de enxugar gelo.
E na mesma Bauru que se combate incansavelmente o jogo do bicho, apareceu, nesta semana, bem no Centro da cidade, um simpático. O suíno foi laçado e levado ao Zoonoses. Ninguém descobriu de quem era o animal. Do mesmo modo que ocorre todo dia com cavalos e bois soltos pelas vias, que colocam o trânsito em risco e causam acidentes pelo município. O que falta? Também uma lei melhor (que ainda segue apenas nos planos da discussão).
Certo dia minha mãe sonhou que meu cachorro foi comido por um crocodilo. Não teve dúvidas. Cachorro era fácil de se sonhar; crocodilo não. Ela foi lá e procurou crocodilo. Não tinha. Apostou no jacaré. Mais uma vez, não ganhou. Há poucos dias, apareceu um jacaré no Rio Bauru. Deve ser mais um que sofre com a falta d?água. Se eu lesse mentes (de jacarés), certamente teria ouvido: "melhor ficar aqui no rio sujo e poluído, mas que ainda tem água!".
É que o problema da falta d?água deve continuar neste e nos próximos anos. Aprovada em novembro do ano passado em Bauru, a lei contra o desperdício do precioso líquido (estamos falando da água e não da gasolina a preço de ouro) parece não ter pegado. Ou você conhece alguém que foi multado? Ou melhor: conhece alguém que parou de lavar a calçada com medo de ser multado? Ou já viu alguma fiscalização nesse sentido?
Entre leis humanas fracas, a única que parece imperar mesmo é a lei da natureza. E, com tamanho pessimismo que se assola sobre o ano que nem bem começou, alguns mais catastróficos já falam em extinção da humanidade. Um "restart", assim como aconteceu com os dinossauros.
Falando neles, acabei de ler que a escritora norte-americana, que tem o pseudônimo de Alara Branwen, está rica ao criar uma literatura erótica em que dinossauros fazem sexo com as mulheres (um dos títulos é "Violentada pelo Triceratops"). Com notícias assim, tenho que concordar com os catastróficos: caminhamos para a extinção!
O autor é futuro escritor de literatura erótica entre besouros alienígenas e humanos, editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia