A presidente Dilma Rousseff escolheu um homem de sua confiança, o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, para assumir o comando da Petrobras PETR4.SA, disseram três fontes do governo nesta sexta-feira, desapontando investidores que torciam por um nome do mercado para recuperar a imagem da petroleira arranhada por um escândalo de corrupção.
Bendine, funcionário de carreira do BB BBAS3.SA, está à frente do maior banco da América Latina desde 2009. Sob sua chefia, a instituição federal liderou uma ofensiva do governo petista no crédito para atenuar os efeitos da crise financeira global na economia brasileira.
A escolha de Bendine indica as dificuldades que Dilma teve para costurar a sucessão na Petrobras de forma súbita, em 48 horas, com a renúncia repentina da presidente Maria das Graças Foster e de outros cinco diretores da companhia, em um movimento que surpreendeu o Palácio do Planalto.
Além disso, por ser bastante alinhado às políticas do atual governo, a colocação de Bendine na liderança da Petrobras frustra expectativas de investidores e analistas de que o novo líder da petroleira viesse do mercado.
O Conselho de Administração da Petrobras está reunido nesta sexta para eleger um nome indicado pela Presidência da República para ocupar a cadeira de presidente-executivo da petroleira, que está no centro de um escândalo bilionário de corrupção.
Além de Bendine, o Conselho apontará o atual vice-presidente financeiro do BB, Ivan Monteiro, para a diretoria de Finanças da Petrobras, segundo disse à Reuters uma fonte próxima ao banco, que falou sob condição de anonimato.
Após a notícia de que Bendine assumirá a Petrobras, as ações da empresa tinham forte queda. Às 12h, as preferenciais e as ordinárias recuavam 6,2 e 5,7%, respectivamente. O Ibovespa BVSP tinha desvalorização de 1,5%.
“O Bendine é uma pessoa muito identificada com a primeira gestão do governo Dilma. O BB foi absolutamente comandado pelo governo na primeira gestão e a Petrobras precisaria de alguém mais independente, que peitasse o governo em determinadas situações e não fizesse loteamento de cargos", disse à Reuters o sócio da Órama Investimentos Álvaro Bandeira, no Rio de Janeiro.
Para Bandeira, nomes que vinham circulando na mídia para a Petrobras, como o de Murilo Ferreira, presidente da Vale VALE5.SA, e o de José Carlos Grubisich, ex-presidente da Braskem BRKM5.SA, seriam opções melhores. "Pesa por não ser alguém do setor, mas pesa mais por ser identificado com a primeira gestão de Dilma”, afirmou.
O novo comando da empresa terá entre seus desafios iniciais a regularização da publicação das demonstrações financeiras da estatal. Isso em meio à apuração de um escândalo de corrupção que exigirá que a companhia realize baixas contábeis bilionárias de ativos sobrevalorizados.
RENÚNCIA COLETIVA
A renúncia de seis altos executivos da Petrobras na quarta-feira surpreendeu autoridades em Brasília, que previam uma mudança na diretoria da estatal apenas no fim do mês.
Na terça-feira, Dilma aceitou o pedido de demissão de Graça Foster, mas tinha acertado a permanência da executiva no cargo por mais algumas semanas. Mas outros cinco diretores da Petrobras não aceitaram ficar por mais tempo, precipitando a saída também de Graça Foster.
Já bastante desgastados, os diretores da Petrobras que estão deixando os postos não quiseram mais ser diretamente associados ao escândalo de corrupção, o maior da história do país, com denúncias de sobrepreço de contratos para beneficiar ex-funcionários, executivos de empreiteiras e políticos.
Procurada, a Petrobras informou que não comentaria a informação de que Bendine será o novo presidente da estatal e disse que qualquer comunicação oficial será feita por meio da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Para mercado, Bendine representa continuidade da interferência na Petrobras
A informação de que o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, substituirá Graça Foster na presidência da Petrobras foi mal recebida pelo mercado na manhã desta sexta-feira (6), e fez as ações da estatal caírem ainda mais. Perto das 13h, os papéis recuavam 4,66% (ON) e 5,41% (PN). A empresa, cujo conselho está reunido em São Paulo, ainda não confirmou oficialmente a indicação.
"A reação do mercado após essa informação já diz tudo. A Dilma Rousseff escolheu um executivo que já é envolvido em problemas de gestão para controlar uma empresa cheia de escândalos originados de problema de gestão. Essa decisão é vista pelo mercado como a continuidade da interferência do governo na Petrobras", resumiu um operador de renda variável.
Para ele, a decisão de tirar Bendine, que é funcionário de carreira do Banco do Brasil, da presidência da instituição financeira, para colocá-lo na Petrobras pode mostrar que nenhum dos outros profissionais cotados para o comando da estatal aceitaram o difícil desafio de reconstruir a companhia.
Para outro profissional, o trabalho feito por Bendine à frente do Banco do Brasil foi bom "mesmo com toda a interferência do governo", mas ele destaca alguns episódios que o desgastaram e que até hoje não foram esclarecidos. Ele lembra do depoimento do ex-motorista do executivo, que afirmou ao Ministério Público Federal em agosto do ano passado que fez diversos pagamentos em dinheiro vivo a mando do então presidente do Banco do Brasil. O motorista afirmou que viu o próprio Bendine carregando sacolas de dinheiro para encontro com empresários. Na época, o MPF chegou a instaurar um procedimento investigatório.
Outro episódio lembrado por operadores foi quando Bendine foi alvo de denúncias após conceder um financiamento em condições favorecidas à socialite Val Marchiori, em novembro do ano passado. Com o desgaste, a saída de Bendine do Banco do Brasil chegou a ser cogitada na época.
Antes de Bendine, os nomes cotados para a vaga de Graça Foster até esta manhã incluíram o atual presidente do BNDES, Luciano Coutinho, o presidentes da resseguradora IRB Brasil Re, Leonardo Paixão; e o do presidente da Vale, Murilo Ferreira. Outros nomes já citados são o do ex-presidente da Ford Antonio Maciel Neto, o ex-presidente da BR Distribuidora Rodolfo Landim e do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles.