Regional

"Revival" de festival será em Brotas

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

O Festival de Águas Claras pode aportar desta vez em Brotas (100 quilômetros de Bauru) para comemorar os 40 anos do Woodstock brasileiro. A ideia é retomar o evento, a música popular brasileira, a vida ao ar livre e a cultura da paz. “Nós enxergamos em Brotas o lugar mais apropriado dentro do contexto atual de grandes festivais.  Fazer não tão perto das grandes Capitais até para manter a aura do Águas Claras. De ser mais rural, feito em lugar mais distante, onde o pessoal possa acampar. Mas nem tão isolado como seria Iacanga, cidade pequena e de difícil acesso,” comenta Bil Galvão da Instrusos Produções. 

Para a realização será necessário um investimento de aproximadamente R$ 10 milhões para um público estimado de 15 a 50 mil pessoas. “O evento está orçado nesse valor. Estamos com o projeto na Lei Rouanet e correndo atrás de patrocínio. A Prefeitura de Brotas foi contatada e disponibilizou um terreno na área urbana, próximo ao rio Jacaré Pepira.”

O mercado dos festivais, de acordo com o organizador, busca onde as pessoas estão. “Se você se isola num lugar muito distante e Iacanga tem um pouco isso. Pode ser que não funcione, a estrutura hoteleira da cidade e o acesso são precários. Para deslocar 50 mil pessoas para lá é complicado.”

Os organizadores foram ver o espaço em Iacanga. “A intenção era fazer lá, mas os tempos mudaram. Não é fácil deslocar esse público para ver MPB. Os grandes festivais, mais de 70% são grupos estrangeiros com algumas opções nacionais e lotam. Nós queremos resgatar e dar à MPB a importância que ela tem. Atualmente nem os grandes festivais estão dando o real importância e o reconhecimento da qualidade da nossa música. Mas, o quanto isso é atrativo para colocar 50 mil pessoas lá, essa é a grande discussão. Se analisarmos só fazer em Brotas já é arriscado.”

Como Brotas é uma cidade turística e tem infraestrutura hoteleira para acomodar de cinco a 10 mil pessoas, ela foi escolhida. “Na região tem uma rede hoteleira grande. Tem camping, cachoeiras e a natureza é um ‘plus’ ao festival. Valores que queremos agregar ao evento pensando na vida ao ar livre.”

Galvão espera conseguir pelo menos 50% desse valor até julho e então bater o martelo na data. “Está programado para setembro, porém depende da capacidade de investimento das empresas. Caso não seja possível, vamos fazer uma homenagem aos 40 e anunciar nessa data o festival.”

A intenção é que a 5ª edição tenha outras atividades artísticas como na primeira.


Foi ao festival com uma Brasília branca

Um empresário de Pederneiras, que prefere não ser identificado, contou que tinha um Volkswagen Brasília branco na época. “Poucos tinham carro na época. Na estrada que ligava a cidade de Iacanga para a fazenda rolava muita carona. Muita gente veio de trem e sem dinheiro, pegavam carona para chegar ao local do festival. O pessoal ‘dedava’ mesmo até conseguir um carro que os levasse”, conta.

Ele lembra que o festival foi um evento muito louco. “Lembro que a moçada ficava ao redor do palco. Depois dos shows dormiam ali mesmo. Tomavam banho em bacias, balde e na cachoeira. Eu vi o show do Hermeto Paschoal. O Raul Seixas não conseguiu cantar Maluco Beleza. Ele estava bêbado e chapado.”


Turismo

Brotas está nas páginas turísticas nacionais.  “Tem aeroporto em Ribeirão Preto, dá para descer em Campinas, Araraquara. O artista a gente leva. Acerta no cachê, faz um translado terrestre. O público é o grande X. Levar o número que pretendemos tem que ter a infraestrutura mínima, coisa que Iacanga não tinha: acesso fácil e rede hoteleira”, comenta Bil Galvão.  Segundo ele, hoje os grandes festivais de música são feitos perto dos grandes aglomerados urbanos. “Os Festivais Lolapaloosa e Rock in Rio são feitos perto das grandes cidades. Vamos vender o festival de Brotas para o Brasil”


Artistas

A 5ª edição do Festival de Águas Claras vai ter uma programação eclética, sempre valorizando a música brasileira, enfatiza Galvão. “O Nando Rei mostrou interesse em participar e o Tulipa Ruiz também”, segundo Bil Galvão. Nos planos Mutantes e Zé Ramalho, mas nada confirmado. Nomes como  Gilberto Gil, Rapa, Los Hermanos, Marcelo Camêlo, Skank, J.Quest, Egberto Gismonti, Amilton de Iolanda, Artur Moreira Lima são cotados.


Vice de Reginópolis foi convidado para tocar pistão na edição de 1983 festival

O penúltimo festival, em 1983, foi uma data marcante para o comerciante e vice-prefeito de Reginópolis (70 quilômetros de Bauru), Ovídio Lazari Júnior. Nesse dia, ele passou por três grandes emoções. Foi convidado por Antônio Checchin Júnior, o “Leivinha” (o organizador do evento) a subir no palco do festival para tocar pistão, perdeu o instrumento musical e ganhou a esposa.

Dos três episódios, Júnior guarda boas lembranças. O músico amador foi ao auge ao tocar Manga Rosa e Asa Branca no palco de Águas Claras. Porém, ao descer dele, alguém que ele procura até hoje, pegou o instrumento musical e nunca mais devolveu.  Foi nesse dia também que ele conquistou o coração da atual mulher, a Lígia.

“Eu fui ao penúltimo festival. Tinha uns 18 anos e assisti aos shows dos três dias do evento. Eu morava em Reginópolis e meu pai era comerciante. Hoje sou eu que tenho o supermercado. Ele me emprestou a caminhonete e íamos todos juntos. Eu tocava pistão nos carnavais de Reginópolis e Iacanga. O ‘Leivinha’ quando me viu, me reconheceu. Eu fui chamado a subir no palco e o Gilberto (meu amigo) conhecido por Q-Suco, subiu como empresário meu. Q-Suco já morreu.”

Júnior ressalta que viveu uma emoção muito grande ao tocar para mais de 30 mil pessoas. “Tinha um artista cantando. Mas como eu estava tocando de barraca em barraca e chamando a atenção do público, eles resolveram me convidar a subir.”

Nas barracas, Júnior tocava o que sabia. “Eu tocava marchinhas de Carnaval e o Hino Nacional, que era um desafio. Depois comecei a tocar o grito de guerra. Quando eu tocava a galera entrava em delírio, gritava e vibrava. Eu ganhava uma cervejinha ou um conhaque dos ocupantes da barraca. Quando cheguei próximo ao palco, fui chamado a subir.”

Para o comerciante e vice-prefeito, a versão de 83 foi bem organizada. “Tinham bares montados, bem diferente da primeira edição. Tinha out-door, a Staroup colocou uma calça inflável que fazia enorme sucesso junto a galera. Muita gente usava como pano de fundo para fotos. Na época, as fotografias ainda eram de papel. Para mim foi uma festa sadia, mas tinha muita droga”, contou.


Lucro com camisetas

José (nome fictício) que era amigo de João confirma que a ideia das camisetas partiu de João que trouxe o cartaz do congresso. “O lucro foi tão grande que o festival foi no feriado de 7 de setembro de 81, Semana da Pátria. Nós ficamos viajando até janeiro de 82 com o dinheiro. O festival tinha muito hippie, da época do paz e amor.”

Eles ficaram os três dias de festival. “Vimos os shows de Gonzagão, Egberto Gismonti, Gilberto Gil, Raul Seixas, eu gostei de todos. Eu me lembro que o pessoal não tomava muita cerveja. A bebida mais consumida era a cachaça. Eles faziam pinga com abacaxi. Todo mundo estava com um abacaxi na mão”. (leia mais na pág. 23)

 

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