Regional

Bijuterias de papel viram "ecojoias"

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

Éder Azevedo

Artesanato em biscuit é feito em ateliê no fundo de uma casa por artesã no município de Piratininga

O artesanato é uma importante manifestação da cultura, fonte de renda, hobby e motor propulsor da amizade. Na região de Bauru, muita gente trabalha sério no ofício de transformar um produto bruto em peças que são verdadeiras obras de arte.

O artesanato surgiu na pré-história. Os homens desta época faziam cestos, ferramentas, vasos de cerâmica, roupas, esculturas e outros objetos usando as mãos como ferramenta e os recursos da natureza como matéria prima. No dia 19 de março é comemorado o Dia do Artesão.

A função do artesão é usar sua própria técnica para executar seu trabalho, por isso, por mais semelhante que uma peça seja da outra, nunca é igual. No Brasil, comunidades compostas por artesãos se concentram mais na região Nordeste, especialmente no sertão da Bahia, Ceará e Pernambuco onde os produtos da terra se transformam em utensílios domésticos, rendas, bijuterias e todo tipo de manifestação cultural.

O trabalho do artesão pode ser apreciado em feiras que se realizam em várias partes do mundo. As feiras de Santana, Sobral e Caruaru são famosas por oferecer produtos diferenciados. Na região, elas se realizam em quase todas as cidades, num circuito. A feira Ubá de Bauru concentra muitos artistas da região.

No País, o artesanato indígena é considerado de grande valor artístico. Representa a expressão cultural do povo indígena brasileiro. Na época do descobrimento, os portugueses ficavam impressionados com a arte dos índios que usavam elementos da natureza para criar enfeites e utensílios domésticos.

Em Jaú, o artesão Antônio Celso Santos Dias faz bijuterias a partir do papel. Ele segue as tendências da moda para fazer colares, brincos e pulseiras. Os papéis usados pelo ‘artistas’ são de embalagens de perfume, presentes e revistas, desde que tenham cor e possam ser enrolados minuciosamente. O banho de resina transforma o papel em ‘pedras’ que não se dissolvem em água.

Um hobby adotado por Glauco Vinícius Cardoso Martins, morador de Pederneiras, se tornou um complemento de renda. Ele fez três cursos para transformar sabonetes em rosas, parafina em velas decorativas e faz uma verdadeira ‘alquimia’ para criar perfumes personalizados.

A aposentada Neusa de Fátima Batista Francisco, de Piratininga, faz laços para presilhas, sapatinhos de bebê, tiaras para cabelo. A artesão usa couro e pelica na confecção de algumas peças e as vende na feira de Bauru e da cidade dela.

Há 11 anos a ex-comerciária Roseli Firmino Arielo perdeu o emprego e resolveu mudar de profissão. Atualmente ela faz bonecos e topos de bolo personalizados em Piratininga. Suas peças viajam pelo País e para o exterior.

Luis Carlos Rocha Santos, de Agudos, aprendeu a mexer com o bambu e com o material cria inúmeros objetos para decoração de casas. Os suportes de vasos são seu carro chefe. Ele fabrica suportes de vários tamanhos e formas. Ele acha que ocupar o tempo e fazer amigos são os itens mais importante da vida do artesão.

Bambu se transforma em suporte de vasos nas mãos de aposentado 

Divulgação

Luis Carlos Rocha Santos usa o bambu para fazer suporte para vasos e vários tipos de artefatos

O agudense Luis Carlos Rocha Santos, o “Miudinho”, planejou sua aposentadoria, depois de longos anos no ramo de venda de bebidas. O que ele não contava é que o tempo livre não era tão bom assim e foi procurar uma terapia. Encontrou o bambu e passou a estudá-lo. Hoje, ele é artesão e transforma pequenos pedaços do material em verdadeiras obras de arte.


Bom de prosa, “Miudinho” vai logo contando que não entendia nada de bambu e de qualquer planta. “Para mim um pé de alface e uma mangueira eram a mesma coisa. Assim que eu aposentei fui para a Universidade Aberta à terceira idade (Uati) na Universidade do Sagrado Coração (USC). Participei de aulas de história, geografia, fitoterapia, dentre outras. Fiz um curso de designer que mexia com produtos recicláveis, bambu e madeira. Nessa época eu estava plantando frutas em vasos e já mexia com algumas coisas no mesmo segmento.”


O professor de designer era da Unesp de Bauru e se interessou. “Comecei a desenvolver o suporte para vasos de bambu sem técnica. Aqueles que ficavam bonitos eu guardava para mim. Os demais eu distribuía para minhas cunhadas. Elas gostavam e me incentivavam a continuar. Fui colher  bambu, aprendi a tratar. Sem tratamento ele não tem durabilidade e beleza.”


Na sequência, o artesão conquistou o credenciamento. “Fui prestar um exame de artefatos de bambu e acabei credenciado pela Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades (Sutaco) que me autoriza a comercializar o produto.”

Lua cheia


“Miudinho” colhe bambus nas propriedades rurais dos amigos. “Não é folclore que a colheita seja feita na lua minguante. Cortar bambu nessa lua previne o aparecimento de broca. Quando falta água para o bambu, ele absorve água do próprio bambu e as fibras ficam mais resistentes, aprendi com o pessoal da Unesp.”


O tratamento do bambu é feito com óleo diesel. “Demora dois a três meses na sombra, depois eu flambo. Faço duas queimadas, quando ele está madurando e depois quando eu vou fazer a peça. Só trabalho com bambu tratado, não trabalho com ele verde.  Essas peças eu coleciono. A cana-da-índia eu compro em Brotas e no Paraná.”


Ele lembra que o bambu bem tratado dura mais de 20 anos. Considera uma terapia.


Ex-comerciária faz bonecos para enfeite

Divulgação

Roseli Firmino montou um ateliê no fundo de sua casa

Mãos finas e delicadas manuseia massa de biscuit diariamente e com criatividade faz topo de bolos para casamentos e aniversários personalizados.


O trabalho, que começou como passatempo para uma comerciária desempregada, é hoje uma complementação de orçamento. Roseli Firmina Arielo, 47 anos, é artesã há 11.


“Durante quatro anos eu participei da Feira Ubá em Bauru. Nessa época, eu fazia tampa de biscuit para vidros. Atualmente só atendo encomendas. Atendo todo o Brasil e exterior, através de meu site e blog. Com o recurso que conquisto com a venda, eu pago a assistência médica, a previdência social e me sustento.”


Roseli trabalha em um ateliê que ela montou no fundo de sua casa no município de Piratininga. “Eu passo de 10 a 12 horas trabalhando com biscuit. Era uma terapia, mas hoje é um trabalho do qual eu sustento.”


Ela conta que trabalhou em loja de brinquedo que faliu. Ela ficou em casa. Então decidiu fazer uns cursos e aprendeu a mexer com biscuit. Na sequência procurou umas revistas especializadas e as adotou como consulta. “Eu fazia tampas de biscuit para potes de vidro, peça pequenas, lembrancinhas de aniversário. No começo não conseguia fazer coisas bonitas”, admite.


As revistas especializadas passaram a ser sua principal fonte de consulta, assim como a Internet. Para iniciar o novo trabalho, além das revistas e Internet ele comprou uma apostila. “Compro a massa de biscuit pronta. Tinjo com a cor que preciso para montar a peça. É um trabalho delicado e que exige muita atenção. Cada parte do corpo de uma boneca ou dos noivos é feita de uma vez e depois vou colando em seu devido lugar.”


O trabalho personalizado é um diferencial da artesã.




 

 

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