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Contação de história incentiva a leitura em municípios da região

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 9 min

Divulgação

Contação de história infantil a crianças

Contar histórias é um exercício de imaginação, encantamento e uma forma divertida de incentivar a leitura, a conservação dos livros e interferir, ainda que pouco, no uso desacerbado dos equipamentos eletrônicos. Para atrair a atenção de crianças e adolescentes, é essencial que a história seja adequada para a idade do público e que o contador domine a situação. Na região, projetos com esse perfil estão conquistando as pessoas  que se interessam pela evolução do ser humano. 

 

A assistente técnico pedagógica da Diretoria da Educação de Lençóis Paulista, Raquel Ramos Romani, frisa que a contação de história pode  remeter à antiguidade como uma forma de diversão. “Claro que para isso é preciso ter um bom contador de histórias, porque essa contação funciona com o aspecto divertido para a criança. Acentua a criatividade que o ser humano tem.  Quem ouve histórias, imagina. Diferentemente de quando ela recebe um produto pronto, feito a partir da ótica de uma outra pessoa.” 

 

O processo da imaginação é riquíssimo na opinião da pedagoga. “O ouvinte vai criar, imaginar tudo. Cenários, personagens e situações. Esse processo é enriquecedor para o desenvolvimento da criança, especialmente. A imaginação, a criatividade e toda a aprendizagem que decorre dai. Porque a criança quando ouve uma história bem contada, ela passa pelo processo de espera, da concentração. Isso incentiva até o desejo a aprender a ler, para aqueles que ainda não sabem.”

 

O desejo de também ler e se apropriar daquela história para contá-la depois é um ‘start’ para a aprender a ler. “Embora tenha diferença entre a leitura de história e a contação de história, esse processo é rico em aprendizagem. A sequência, começo, meio e fim é extremamente importante para as crianças. Um fato que leva a outro fato. A questão da ação e reação. Foi determinada ação de um personagem que desencadeou outro fato.” 

 

A contação de história precede a escrita, os contos populares passavam de geração em geração. “A gente percebe que em algumas culturas todo mundo pode contar e mexer na história contada e em outras, algumas pessoas específicas é que podem. Isso agrega uma série de valores. O que nós observamos em projeto desenvolvidos em contação de história é a criança se encantando com esse universo. A partir disso, ela também busca a leitura.” 

 

Muitas crianças buscam o livro que foi contado e isso aumenta a busca nas bibliotecas. “Em algumas escolas a ‘Hora do Conto’ é feita na biblioteca. Tem alguns contadores que apresentam o livro, dizendo, olha vou contar uma históriaque está nesse livro. A pessoa explora oralmente. A medida que eles vão para a biblioteca e exploram, aumenta a frequência no ambiente dos livros.” 

 

Trabalho desenvolvido em Lençóis Paulista é reconhecido no Estado 

 

O projeto “A Hora do Conto” surgiu em 2002 com iniciativa da Diretoria de Cultura que pensou numa ação para qualificar e incentivar os leitores a conhecerem os livros, cuidar deles e conhecer e frequentar os espaços de leitura e as bibliotecas da cidade. No ano passado a  biblioteca de São Paulo conheceu o trabalho e convidou a professora e diretora de Teatro da Cultura, Leda Fernandes, para fazer uma apresentação lá. “É a maior biblioteca do Brasil. Foi um ponto alto do reconhecimento.” 

 

Ela acredita que a simplicidade com que a “Hora do Conto” é desenvolvida foi um dos itens que desencadeou a repercussão. “Em nenhum momento eu me distancio do livro durante a contação de histórias. Propositadamente, embora eu conheça a história de cabo a rabo, fico com ele na mão. Eu quero que a criança perceba ela e o livro e que as outras coisas é a imaginação que vai trazer.” 

 

A professora lembra que alguns contadores trabalham com adereços. “Com tecidos, barbantes etc. Fiz muito cursos, com bonecos, com objetos. O meu eu fico com o livro. Eu vou caracterizada. Tenho um vestido colorido, mala, faço maquiagem. Começo com uma história que estou vindo de longe com aquela mala. Que tenho muitas histórias. É um texto mais teatral, vou cantando com eles. Recito um poema do Ricardo Azevedo que fala o que há dentro de um livro. Na sequência, o público escolhe a história. Tem essa simplicidade. Não tem sonoplastia porque eu acho que a essência está ali no livro. É a forma que eu escolhi trabalhar.”

 

A escolha da história acontece de forma lúdica. “Dentro da mala há vários livros, pré-selecionados dependendo da idade do público alvo. Quando a escola faz o agendamento eu  tenho a informação de que faixa etária será atendida. São 20 sessões mensais, normalmente acontece de 5ª e 6ª feira, período da manhã e tarde. Dentro de uma dinâmica bem teatral eu ofereço para que as crianças escolham aquilo que eles querem ouvir. Eu nunca sei a história que vai ser lida, só na hora da escolha. Deixo como opção cinco livros.” 

 

Crianças ficam amigas dos livros

 

As crianças têm um entusiasmo grande de participar da “Hora do Conto”. “Eu trabalho com teatro e utilizo alguns recursos cênicos. Uma mudança corporal, ora eu me transformo em um personagem que estou contando. Em outro momento eu viro a narradora com o livro na mão. Não tem só leitura,” ressalta Leda Fernandes. 

 

“O que eu percebo é que desde o início do projeto a retirada e conservação dos livros das bibliotecas, mudaram.” A retirada de livros era grande nas bibliotecas, porém eles retornavam, sujos e rasgados. “Eu abordo o assunto sem imposição. As crianças começaram sentir a responsabilidade de tratar bem o livro. De ver o livro como amigo.”

 

Contando histórias no asilo e escolas

 

As professoras Juliana Thais de Azevedo Reame e Michele de Oliveira Predolim desenvolvem um projeto de incentivo à leitura na cidade de Ibitinga há pelo menos três anos. Elas vão às escolas e contam uma história e dramatizam. O projeto batizado de “A arte de ouvir e contar história” também atendem os idosos do asilo da cidade. 

 

“Nós pegamos os livros, lemos as histórias e depois dramatizamos com músicas. São histórias contadas e cantadas. Nas escolas contamos histórias e cantamos no pátio, onde reunimos crianças de 2º, 3º e 4º anos. Para atrair a atenção do público alvo nós nos vestimos de princesas. Começamos nos apresentando como princesas  e viemos do mundo encantado para contar como é nossa vida.” 

 

Depois da história contada e cantada, sugerimos que as crianças mandem cartas para nós. “O resultado é muito positivo. Recebemos cartas de todos os tipos. Crianças que mandam abraços, que dizem ter amado a história, que pedem presentes e que as princesas tragam o pai dela de volta.” 

 

A história não tem idade. O bebê e o idoso gostam e viajam nas histórias de fadas e princesas. “Nos finais de ano, vamos até o asilo. Agendamos um horário e contamos histórias para eles. A interação é muito grande. Eles contam as histórias deles. São pessoas carentes e muitas delas nunca são visitadas pelos parentes e amigos.” 

 

Uma história bem contada 

 

Uma história bem contada tem que envolver a criança. Ela pede um tom de voz diferenciado em momentos diferentes. “O contador tem que dominar a história para que não corra o risco de esquecer algum detalhe. Isso leva ao desinteresse. Se ele conhece bem a história tem um contato com aqueles personagens, isso enriquece. Quando a criança é pequena a entonação, de voz pode fazer toda a diferença,” comenta a assistente técnico pedagógica da Diretoria da Educação de Lençóis Paulista, Raquel Ramos Romani. 

 

Nem toda história tem, obrigatoriamente que ter uma lição moral. “Algumas precisam ser simplesmente pela diversão e para atrair a imaginação. Do contrário vai ficar carregada para a criança. É igual a gente solicitar a leitura de livro e depois fazer a ficha de leitura como existia antigamente. Na contação também não é bom acabar de ler a história e pedir para a criança desenhar.” 

 

A contação de história acompanhada de leitura de histórias não pode ser feita nos cinco minutos finais de aula, esperando dar o horário da saída. “Ela precisa se mostrar relevante para a criança no início da aula. Uma contação de história  necessita que o lugar seja preparado, quem sabe cortinas fechadas ou quem sabe contar essa história no pátio embaixo de uma árvore. Cria uma expectativa na criança, é a hora do conto é uma hora importante, diferente. Se sempre nos remeter a questão dos valores acaba ficando maçante.” 

 

Romani lembra que as crianças e pré-adolescentes sempre se interessam pela contação de histórias. 

 

Pederneiras terá furgão para percorrer bairros da cidade

 

A contação de história na cidade de Pederneiras é um projeto desenvolvido pela biblioteca municipal junto às escolas. Para atender os estabelecimentos de ensino mais distantes, aquelas que estão localizadas na periferia, um furgão biblioteca será adotado. A informação é da bibliotecária Adriana Meneses de Camargo Couto.

 

Segundo ela, a compra do veículo está em processo de licitação. “Foi um edital do concurso da Secretaria da Cultura de São Paulo. Nós elaboramos um projeto dentro dos valores disponíveis que foi aprovado. Será uma biblioteca itinerante. A intenção é levá-la para a periferia, locais de difícil acesso. O furgão vai ser adaptado para receber os livros e com ele vamos prosseguir com a contação de história de acordo com o bairro e público.” 

 

Atualmente o projeto é desenvolvido pela biblioteca. “Nós escolhemos a história que vamos interpretar. Analisamos a durabilidade e a recepção dessa história em relação ao público alvo. Geralmente é um público infantil. Os horários são agendados de acordo com a escola. Não existe uma programação semanal ou mensal, conforme tem a necessidade de escolas, entidades, associações, nós programamos a visita a biblioteca e a contação de história.” 

 

Antes de agendar, as professoras e as bibliotecárias se reúnem para definir o que pode ser elaborado tomando como base a história que será contada. “Consideramos além da idade, o tipo de criança e escola a ser atendida.” 

 

Couto lembra que não é só a contação de história em si, mas a visitação da biblioteca. “Falamos sobre tudo o que ela pode oferecer e desenvolver com atividade paralelas. Nós mesmos que fazemos. Não contratamos ninguém. Na cidade temos 42 mil habitantes e não temos bibliotecas ramais. Existem bibliotecas escolares. Nós não temos espaço para ampliar a sede atual dessa.”

 

A contação de história atrai as crianças e é uma forma de incentivar a leitura e o contato com  biblioteca, com os livros, avalia a bibliotecária. “Nós contamos a história e mostramos a biblioteca. Vamos falando qual o papel dela, para que ela serve. Convidamos as crianças a trazer seus pais. Muitas voltam com os pais, para retirar livro e fazer a carteirinha. As escolas não tem muito como vir várias vezes ao ano, então a contação de história acontece no máximo duas vezes ao ano.” 

 

Cerca de 60% do público que frequenta a biblioteca é infantil. “Do ensino fundamental até a 8ª série. Para incentivar a leitura desenvolvemos também o projeto da Secretaria da Cultura do Estado, chamado Viagem.

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