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Dia seguinte à morte de estudante é marcado por prisões, dor e revelações

Marcele Tonelli, Tisa Moraes e Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 13 min

Reprodução/Internet

Humberto leva as mãos ao alto ao beber na festa: fim trágico

Dois estudantes acusados de serem os organizadores da festa “Open bar” intitulada “Inter Reps”, que resultou na morte do estudante de engenharia elétrica da Unesp Humberto Moura Fonseca, de 23 anos, na tarde de anteontem, foram presos em flagrante por homicídio simples com dolo eventual ainda no final da noite de sábado, na Central de Polícia Judiciária (CPJ) de Bauru. Mas a prisão durou apenas algumas horas. 

 

No início da tarde de ontem, a Justiça concedeu liberdade provisória a Luís Henrique Scafi Menegatti, 22 anos, e Gabriel Juncal Prudente, 25 anos, que além do homicídio também responderão por lesão corporal em relação aos outros universitários que estavam na festa e que ainda seguem internados em estado grave em hospitais da cidade, após coma alcoólico. 

 

Conforme o JC apurou, os estudantes detidos pertencem a duas repúblicas envolvidas na organização da festa, além de também cursarem o penúltimo ano de engenharia no campus. 

 

O delegado plantonista Mário Henrique de Oliveira Ramos, que atendeu o caso, conversou com a reportagem e contou detalhes de como ocorreu a festa, que teria recebido até 2 mil estudantes e já previa competições como o “Revezamento do circuito alcoólico”, do qual Humberto participou. 

 

Segundo o delegado, o ganhador do revezamento que o universitário participava chegou a ingerir cerca de 30 copinhos de 50 mililitros (ml) com vodca, em um tempo máximo de 30 minutos, conforme precia o “regulamento” do evento. 

 

Prisão

 

A decisão da prisão por homicídio com dolo eventual teria sido tomada pelo delegado plantonista com o auxílio do titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kléber Granja, que foi acionado durante a ocorrência e, a partir de agora, será o responsável pelo caso.

 

O pedido se sustenta, segundo Ramos, pelo fato de as investigações deixarem claro que os organizadores da festa assumiram o risco de causar situações graves e que pudessem vir a culminar em morte. 

 

“Houve uma série de descasos e negligências. Tivemos acesso ao regulamento e à divulgação da festa, que já previam competições com bebidas alcoólicas”, comenta Ramos. 

 

Além disso, o delegado destaca que a única ambulância do evento, contratada pela organização, não era equipada. 

 

“Só tinha maca e uma técnica de enfermagem. Ouvimos das testemunhas que os estudantes que passavam mal no local recebiam chá de boldo e ficavam sentados por ali”, frisa o delegado. “E quem contratou a ambulância e a festa foram os dois. Por isso, somando-se todos os fatores, concluímos, preliminarmente, que eles assumiram o risco. Mas tudo isso será reavaliado pelo juiz”, ressalta.

 

O advogado dos dois jovens, Luiz Celso de Barros, em entrevista concedida ao JC na tarde de ontem reconheceu que a estrutura do socorro médico da festa era precária (leia mais abaixo).

 

Ao todo, dez pessoas foram ouvidas na CPJ anteontem. Três delas são estudantes que também participavam das competições, duas são policiais militares que colheram depoimentos e informações no local da festa, além do motorista e da auxiliar de enfermagem que trabalhavam na ambulância - ao delegado, a profissional contou que teria recebido R$ 100,00 para trabalhar das 15h às 22h no local.

 

“Além de todas as outras irregularidades e às relacionadas ao alvará, uma festa deste porte deveria ter muito mais ambulâncias, inclusive equipadas com semi-UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e médicos. Com a estrutura precária, eles se limitaram a dar chá de boldo para o pessoal.”

 

Socorro

 

O socorrista responsável pela ambulância e contratado pela organização da festa não foi localizado pela polícia.

 

“Queremos saber o motivo pelo qual outras unidades como o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e o Resgate (do Corpo de Bombeiros) não foram acionados nem por eles, nem por ninguém, mesmo com a gravidade dos casos e sabendo que a viatura não era suficientemente equipada. Uma pessoa morreu e outras três estão sob respiração mecânica no hospital, não foi brincadeira”, questiona o delegado.

 

Um amigo de Humberto, que acompanhou todo o socorro ao jovem e foi ouvido pela polícia, contou que seguiu segurando a cabeça do amigo dentro da ambulância até a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Ipiranga. 

 

“Ele diz que o motorista e a auxiliar seguiram na parte da frente do veículo. No meio do caminho e, o estudante começou a ficar roxo”, detalha Ramos. 

 

Além de Humberto, foram socorridas em estado grave a estudante Gabriela Alves Correia, de 23 anos, que foi encaminhada para a UTI do Hospital Estadual (HE), Juliana Tibúrcio Gomes, 19, levada para a UTI do Hospital de Base e posteriormente transferida para o hospital Unimed, e Mateus Pierre Carvalho, que não teve a idade informada, transferido do Pronto-Socorro Central (PSC) para o hospital da Unimed, ontem. 

 

Tanto a Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), responsável pela gestão do HE, quanto a Unimed não detalharam o quadro de saúde dos pacientes, sob a alegação de que as respectivas famílias não autorizaram a divulgação de informações para a imprensa.

 

Reprodução

Perfil no Facebook do estudante morto fazia citação do consumo de vodca

 

Prefeitura afirma que não tem controle sobre festas universitárias

 

A Secretaria do Planejamento (Seplan) da Prefeitura de Bauru é o órgão responsável por emitir os alvarás para festas abertas ao público. No entanto, o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) argumenta que essas festas são divulgadas apenas no meio universitário, com o intuito de arrecadar dinheiro para as repúblicas ou para festas de formatura, dificultando as atividades de fiscalização municipal.

 

A divulgação desses eventos também costuma ser massiva no Facebook. A prefeitura, no entanto, não dispõe de estrutura, instrumentos ou pessoal para acompanhar a movimentação das redes sociais.

 

“Nós fechamos o cerco contra as festas rave, por conta do intenso consumo de drogas nesses locais. Tanto é que elas raramente acontecem na cidade. Quando as festas de universitários contam com grande divulgação, também exigimos toda a documentação necessária, estrutura, controle de horário de som. Mas, no geral, não é isso o que acontece. Além disso, o número de festas promovidas é muito grande. Temos 15 universidades em Bauru”, pontua Rodrigo.

 

O prefeito observa ainda que alguns problemas identificados na Inter Reps fogem do alcance de controle do poder público. “Mesmo se a festa tivesse alvará, não é garantia de que não haja consumo de drogas ou competições com bebidas alcoólicas. Isso chamou muita a nossa atenção”.

 

Rodrigo explica que, em casos de denúncias de festas irregulares, a prefeitura solicita o apoio da Polícia Militar para evitar intimidações a fiscais da Seplan. “Temos alguns trabalhos de fiscalização no período noturno. Essa festa em questão ocorreu em um sábado à tarde”, completa.

 

EVENTOS CANCELADOS

 

Ao longo do domingo, em função da repercussão da morte do jovem de 23 anos e da detenção de dois responsáveis pela Inter Reps, vários eventos criados no Facebook para divulgar festas que aconteceriam nos próximos dias e até mesmo já realizadas foram cancelados por seus organizadores, em sua maioria, estudantes universitários.

 

Negativa

 

Mesmo com todos os problemas registrados e com o óbito do rapaz, que ocorreu às 16h, a festa, segundo a Polícia Civil, teria seguido até as 20h.

 

A Polícia Militar, por meio do tenente-coronel Flávio Jun Kitazume, comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), informou que só tomou conhecimento sobre o evento ao ser acionada por funcionários da UPA.

 

“Por volta das 17h, um tenente foi até lá e pediu para que as atividades fossem encerradas, porque nem alvará eles apresentaram, mas o pessoal não queria parar. A maioria dos participantes não sabia o que tinha acontecido”, comenta o comandante.

 

“A chácara é um lugar fechado, com muro alto e sempre tem eventos lá. Não sabíamos que essa festa com estudantes e bebidas aconteceria, por isso não houve direcionamento de um contingente da PM especialmente para fiscalizar”, frisa Kitazume.

 

Secretário Municipal de Saúde, Fernando Monti informou ao JC que ao menos dez pessoas que frequentavam o mesmo evento teriam sido atendidas na UPA e no PSC, entre a tarde e noite de anteontem.

 

“Um quarto rapaz com estado mais grave chegou a ir para enfermaria do PS, mas logo depois de ser medicado foi liberado”, complementa o secretário.

 

Um ingresso do evento recolhido por PMs no chão da chácara onde tudo ocorreu foi anexado aos autos. O ingresso tinha número registrado acima de dois mil, o que fez a Polícia Civil afirmar que mais de 2 mil pessoas participaram da festa. O número foi confirmado pelos militares no local.

 

Estudante pode ter ingerido mais de um litro de vodca durante competição

 

A festa que vitimou o estudante do 4º ano de engenharia elétrica da Unesp Humberto Moura Fonseca possuía objetivo e abrigava diversos tipos de competições, ao menos três envolvendo a ingestão de bebidas alcoólicas, conforme indicam as investigações até o momento. Testemunhas forneceram, inclusive, um regulamento do campeonato ao delegado Mário Ramos, que anexou o documento ao inquérito.

 

O JC teve acesso ao documento intitulado Projeto Inter Reps, que além do “Revezamento do circuito alcoólico”, do qual Humberto e mais nove pessoas teriam participado, trazia também na descrição as gincanas denominadas “Fly the cup” e “Beer Pong”. 

 

“No circuito alcoólico, um membro de cada equipe enchia os copinhos com vodca enquanto os outros viravam. O ganhador chegava a ingerir até 30 copinhos de 50 ml em 30 minutos (cerca de 1,5 litro de vodca)”, comenta Ramos.

 

 “Acreditamos que o Humberto tenha ingerido ao menos 25 copinhos de vodca (que resultam em pouco mais de 1 litro) antes de passar mal. Essa quantidade de álcool gerou um quadro de intoxicação aguda, que o levou à perda do metabolismo (inconsciência) e pode ter causado uma série de complicações, como a parada cardiorrespiratória”, completa o delegado.

 

O JC teve acesso a um vídeo que mostra momentos da competição no local.

 

Causa da morte

 

O laudo preliminar emitido pelo Instituto Médico Legal (IML) para que o corpo pudesse ser liberado à família, na manhã de ontem, para o translado e sepultamento de Humberto Fonseca, morador de Passos (Minas Gerais), aponta o infarto como a causa da morte. O laudo necroscópico e toxicológico completo, que dirá a quantidade exata de álcool que o jovem ingeriu e se houve a ingestão de outras substâncias, deve sair em até 30 dias.

 

A competição

 

As gincanas entre as repúblicas teriam começado no início do mês de fevereiro e, neste sábado, ocorreria a festa com final da competição. Cabos de guerra, maratonas, campeonatos de truco, várias eram as modalidades das competições, que segundo o documento apontado como  regulamento do evento, objetivavam fomentar a vontade dos novos alunos a ingressar nas repúblicas participantes. 

 

“Sua criação ocorreu após análise da atual conjuntura das repúblicas bauruenses, logo, os organizadores desenvolveram este evento para tornar mais evidente o companheirismo e amizade formada dentro das repúblicas”, diz o documento em um tópico descrito como “apresentação”.

 

Em um briefing contendo o local da festa, realizada na chácara da Assenag, e o horário, das 15h às 22h, há informação de que era prevista a participação de ao menos 18 repúblicas masculinas e cinco femininas na competição.

 

O campeonato, além das gincanas, também arrecadava alimentos, agasalhos para serem doados e incentivava a doação de sangue pelos participantes.

 

O preço dos ingressos para a festa “Open bar”, de anteontem variava de R$ 28,00 a R$ 42,00, conforme o panfleto de divulgação que consta na página do evento no Facebook.

 

Denominada “Fly the cup”, a competição em questão previa a ingestão de bebidas alcoólicas em copos de cerveja pegos “no ar” pelos participantes, segundo a polícia. Já a modalidade “Beer Pong”, conforme o JC apurou, previa que os concorrentes deveriam acertar os copos de cerveja de seus opostos com bolinhas de “ping-pong”, o que acarretaria na ingestão do líquido pelo perdedor.

 

Confira vídeo 

 

Tristeza

 

O corpo de Humberto Moura Fonseca (na foto abaixo) foi sepultado no início da noite de ontem no Cemitério Municipal de Passos, no Sul de Minas. Conforme apurado pelo JC, os familiares pareciam não acreditar no fim trágico de um rapaz descrito como  alegre e brincalhão.

 

Vídeo mostra disputa

 

O Jornal da Cidade teve acesso a um vídeo divulgado por um participante da Inter Reps em que o estudante Humberto Moura Fonseca aparece ao lado de outros universitários, participando do chamado “revezamento do circuito alcoólico”. Em uma grande mesa, doses de vodca eram servidas em pequenos copos plásticos a garotas e rapazes devidamente uniformizados com o abadá do evento. Eufóricos, eles ingeriam a dose de uma só vez a partir de um sinal sonoro, emitido a cada um minuto, que marcava o início de uma nova rodada. O vencedor era o que conseguisse consumir a maior quantidade da bebida. 

 

Confira o vídeo. Humberto é o jovem que levanta os braços.

 

Advogado reconhece estrutura precária, mas diz que organizadores desconheciam torneio

 

Luiz Celso de Barros, advogado dos dois rapazes presos e liberados ontem, reconheceu que a estrutura de suporte médico da Inter Reps era precária e insuficiente para o porte do evento, mas garantiu que seus clientes não participaram do planejamento ou mesmo estimularam a realização do campeonato de bebidas. Um vídeo divulgado por um participante, contudo, mostra uma área do evento preparada para esta finalidade, em que vodca era servida em uma mesa extensa, onde jovens deveriam ingerir as doses a cada rodada iniciada por um sinal sonoro.

 

O projeto da festa também dava conta da realização de disputas de “Fly Cup”, “Beer Pong” e o chamado “revezamento do circuito alcoólico”, do qual Humberto Moura Fonseca teria participado.

 

Barros argumenta, contudo, que o tal circuito corresponderia a uma série de estandes, que oferecia diferentes bebidas aos frequentadores sem incitar o espírito competitivo. 

 

“A disputa foi realizada por iniciativa dos próprios frequentadores. É algo que eles estão acostumados a fazer em festas de república tradicionais e que, em nenhum momento, foi estimulado pelos organizadores”, assegura.

 

O advogado reconheceu, contudo, que houve falha no dimensionamento da estrutura de suporte médico, tarefa pela qual os dois jovens haviam se responsabilizado. “Faltaram médicos, paramédicos, enfermeiros e ambulâncias devidamente equipadas. Ninguém previu que aquilo tudo poderia acontecer. Foi um resultado que, de fato, extrapolou qualquer expectativa”, frisa.

 

Barros explica que a Justiça concedeu liberdade provisória aos dois jovens porque o crime de homicídio simples prevê pena de apenas seis anos de reclusão, caso sejam condenados. “Esta pena, pela legislação, seria cumprida no regime semiaberto. Então não haveria motivo para eles ficarem presos aguardando julgamento”, sustenta.

 

Engenharia da Unesp decreta luto de 3 dias

 

No folder de divulgação do evento, a cantina da Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB) aparece como um dos pontos oficiais de venda dos ingressos para o Inter Reps.

 

A Unesp, no entanto, nega qualquer vínculo e informa que a festa ocorreu fora das dependências da universidade, onde o consumo de bebida alcoólica é proibido por uma portaria.

 

A instituição também lamentou o falecimento do estudante Humberto Moura Fonseca, que cursava Engenharia Elétrica na Faculdade de Engenharia da Unesp de Bauru. 

 

“A Faculdade de Engenharia vai decretar luto oficial por três dias e vem prestando apoio à família neste momento difícil que ela atravessa. Apoio também vem sendo prestado às famílias de outros três estudantes, uma da Engenharia de Produção, outro da Engenharia Elétrica e uma das Relações Públicas internadas pelos efeitos da bebida na mesma festa”, disse a Unesp por meio de nota.

 

A universidade afirma ainda que tem realizado intensa campanha alertando para os perigos do consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

 

Infeliz coincidência

 

Uma infeliz coincidência ficou registrada na página que Humberto Moura Fonseca mantinha no Facebook. No campo destinado às suas citações favoritas, ele escreveu: 

 

“Melhor morrer de vodca do que de tédio”.

 

E Humberto parece ter tido sempre o espírito da antimonotonia. Segundo homenagens postadas por amigos na rede social, Lombada ou Tibetão, como era chamado pelas pessoas mais próximas, era “o mais feliz da turma” e o que sempre “teve o maior coração”. 

 

Praticante de muay thai, o jovem também foi descrito como um rapaz educado, falante, companheiro e leal aos amigos pelo jornalista no Portal de Notícias JCNET Vítor Peruch, que também é estudante da Unesp. “Ele era determinado e amava muito sua família  e o lugar de onde veio. Era bem engraçado, estudioso, dedicado.

Faleceu em uma ‘brincadeira’. O que se pode fazer é lamentar e chorar”, escreveu em texto publicado na página 2 da edição de hoje.

 

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