Bairros

Praça Salim Haddad Neto se torna um "quintal coletivo"

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Alex Mita

Praça Salim Haddad Neto há 10 anos recebe os cuidados de moradores de dois condomínios verticais do seu entorno

Olhando do alto, a Praça Salim Haddad Neto é um espaço verde redondo no meio da Vila Nova Cidade Universitária. Mas basta se aproximar para entender que ela representa um suspiro, um refúgio verde onde moradores podem brincar com as crianças, passear com os animais de estimação, ler um bom livro em seus conservados bancos e, até mesmo, comer frutas frescas das espécies existentes por ali.


O espaço em questão foi projetado e estruturado pela prefeitura, mas há cerca de 10 anos moradores dos condomínios Edifício Solar Fontainebleau e Edifício Solar Villeneuve adotaram o espaço e, desde então, ele se tornou uma espécie de “condomínio aberto”.


“Pagamos um jardineiro para cuidar das plantas e da limpeza da praça há mais ou menos uma década, data próxima da entrega dos prédios. O salário do jardineiro é dividido entre os dois condomínios, que têm a mesma administradora”, lembra o síndico do Solar Fontainebleau, José Sílvio Tosi.   


Segundo ele, os cuidados com a praça ajudam até a valorizar os imóveis, já que um espaço verde bem estruturado e cuidado na frente de casa é o sonho de muitos compradores de imóveis, acredita. “A praça é toda iluminada. Parece um grande quintal dos moradores. E, depois que o parquinho foi instalado, o movimento aumentou, principalmente nos finais de semana. Crianças brincam e jovens praticam Slackline...”, enumera.

Alex Mita

“Foi exatamente essa praça que nos motivou a comprar o apartamento”, lembra Paulo Torvedelli

Vista


Do alto do 17º andar, há oito anos o casal Paulo Francisco Torvedelli e Avanir Floret  Torvedelli aprecia a vista do seu quintal verde. “Foi exatamente essa praça que nos motivou a comprar o apartamento”, lembra ele. “É linda. É encantadora. Tem alguma coisa boa nessa praça, porque eu me sinto muito bem quando olho para ela”, completa dona Avanir.

Malavolta Jr.

“Sinto-me em paz com esse trabalho”, diz o jardineiro Guilherme Duarte Batista

‘Artista’


O artista da praça em questão é o jardineiro Guilherme Duarte Batista, que cuida da Salim Haddad Neto há dois anos e meio. Ele é o responsável pelos cuidados com as plantas, como a poda das árvores e da grama, a manutenção dos bancos e a limpeza de todo o espaço. “Os condomínios, que pagam o meu salário, mantêm uma caçamba somente para isso. É um trabalho muito gratificante e zeloso”, diz.


Trabalhar com as plantas é uma terapia para o jardineiro, que há 40 anos realiza esse serviço: “Sinto-me em paz com esse trabalho. Quando você cuida de um lugar público, afasta o que é ruim. Até parece que as plantas conversam comigo. Quando cheguei não estavam tão bonitas como agora”, diz, com orgulho.


Entretanto, o jardineiro faz um apelo aos frequentadores da praça e diz que a única coisa que o entristece é o desrespeito de algumas pessoas que não recolhem as fezes de seus cães e jogam o lixo fora dos tambores. “Outro apelo é para a prefeitura. Temos um tanque de areia para as crianças brincarem. Mas falta colocarem a areia”, observa.

Praça bem cuidada é garantia de lazer e bem-estar aos moradores


Praça Salim Haddad Neto abriga árvores frutíferas, e pássaros são “animais de estimação” livres

Malavolta Jr.

Moradora de outra região, Silmara Pires aproveita o parque da Praça Salim Haddad Neto com o filho Miguel no caminho da aula de natação

Ele mostra com orgulho algumas das árvores frutíferas que plantou na Praça Salim Haddad Neto. Entre elas: dois pés de acerola, jabuticabeira, duas pitangueiras, três mangueiras, limoeiro e até frutas mais exóticas como jaca e jambolão. E não é só isso: quem passa pelo espaço pode ver até um pé de café já com frutos, plantado pelas mãos do tecnólogo agrícola e morador Marcos Antônio Zagatto, que vive no entorno desde 2003.


“A história do pé de café é inusitada. Certa vez, eu estava fazendo um tratamento em Ribeirão Preto e tive a ideia de passar em uma fazenda para comprar mudas da espécie, já pensando em trazer para plantar na praça. Fiz isso porque há muitas crianças que não conhecem. É uma curiosidade e uma maneira que encontrei de expor uma planta cujos frutos consumimos diariamente, mas que é pouco conhecido em seu estado natural”, comenta.


Quanto às frutas, Marcos lembra que as mudas foram cuidadosamente plantadas na praça com dois objetivos principais: saciar a fome dos que passam pela rua e adoçar a boca de quem está caminhando ou brincando na praça é um deles. “Eu só não gosto de uma coisa. Tem gente que não tem consciência e que vem colher as frutas com sacolinha. É preciso pensar nos outros, também. Pegar algumas, sentir o sabor e deixar que outras pessoas também tenham a chance de provar das frutas”, destaca.

Moradores de outras localidades também aprovam


O “quintal comunitário” em questão não é refúgio apenas para os moradores que vivem ao seu redor. Diariamente, a praça recebe visitantes de outros bairros que estão na região só de passagem ou que se deslocam de suas casas exclusivamente para aproveitar o espaço e brincar com as crianças.


A secretária Silmara Pires, por exemplo, mora no Parque São João, mas leva o filho Miguel, 6 anos, toda semana para as aulas de natação no bairro Vila Nova Cidade Universitária. “Eu aproveito para sair de casa mais cedo para ele brincar um pouco no parque da praça, que é muito bom e conservado. A cidade precisa de muitos outros lugares assim. Bauru até tem espaços verdes em quantidade considerável, mas estão abandonados”, desabafa.

Pássaros

Malavolta Jr.

Praça abriga pássaros que comem nas mãos do morador Marcos Zagatto

Os pássaros também motivaram o morador a decorar a praça com espécies frutíferas, muitas delas irresistíveis para as espécies que habitam as árvores. “É uma alegria ouvir os pássaros cantando e se alimentando das jabuticabas, pitangas... Quando ouço elogios das pessoas, que nem sabem que eu plantei as mudas, sinto uma gratidão sem igual. Mas eu também fico de vigia, porque nem todo mundo cuida. Nem todo mundo é educado”, lamenta.


E por falar em gratidão, os pássaros devolvem a gentileza de Marcos com amizade. Basta um assovio do zeloso morador para que aves como bem-te-vi,  joão-de-barro e sabiá, entre outras, apareçam para cantar para o amigo e para ganhar petiscos como as larvas tenébrio, criadas especialmente para as aves.


“Olha, por incrível que pareça, eles conhecem até o barulho da minha moto. Eu chego e eles aparecem. É uma delícia”. 

'Até o ar é mais gostoso'

Malavolta Jr.

Morador do entorno da Salim Haddad Neto, Pedro Lucca aproveita para brincar com o cão Ace na praça

Moradora da Praça Salim Haddad Neto há 3 anos,  a gerente administrativa Milena Victor Rahal está apaixonada pelo lugar.


“A qualidade de vida é muito boa. Acordar, abrir a janela e ter esse visual não tem preço. Até o ar é mais puro. É diferente do Centro, por exemplo”, comenta.


As brincadeiras com o cachorro Ace são realizadas duas vezes ao dia pela família de Milena, na praça. Segundo o seu filho, Pedro Lucca, os horários escolhidos para as brincadeiras com o mascote da casa giram em torno das 6h e 22h, quando o movimento é baixo no lugar.


“O único problema que vemos por aqui é a falta de respeito de algumas pessoas, que optam por jogar lixo no chão, mesmo havendo latões. Alguns também ligam o som alto em horários impróprios, nos fins de semana”, destaca Milena.

Bauru tem 89 áreas verdes adotadas


Espaços cuidados por moradores e empresas privadas estão entre praças e canteiros centrais


Bauru conta com 89 áreas verdes adotadas, segundo dados recentes da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma). Entre os espaços públicos sob os cuidados de moradores e empresas privadas estão praças e canteiros centrais. 


A “adoção” é um processo simples. A Semma orienta que os requerentes procurem o Poupatempo com cópias dos documentos pessoais e o endereço da área que pretende adotar.


O próximo passo será o envio do processo para a Semma, onde um levantamento sobre a área e feito. Caso o espaço não esteja adotado, a secretaria entra em contato com requerente para a finalização da adoção.


Também é possível acessar o link da “Empresa Boa Praça”, no site da Prefeitura Municipal, ícone da Secretaria do Meio Ambiente. No endereço eletrônico é possível verificar a legislação, a documentação necessária e como proceder para adotar. O interessado ainda pode ligar na Semma para outras informações pelo telefone: (14) 3234-6849.


Curiosidades


•A praça mais antiga de Bauru é a Rui Barbosa, no Centro.


•Já a mais nova é a Avenal Cabral, na Vila Dutra.


•A manutenção das praças é feita pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) e pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).


•A Semma possui cinco equipes de manutenção de praças com sete funcionários em cada uma, que atuam na região do Jardim Redentor/ Geisel, São Geraldo, Bela Vista, Falcão e Independência.


•No momento, a prefeitura está trabalhando na reformulação da Praça Rui Barbosa,Centro; Praça Luiz Carlos de Almeida, localizada entre as ruas Carmino Ângelo Delicato e Miguel Ângelo Peregini, no Núcleo Octávio Rasi; e em uma pequena praça localizada na quadra 1 da rua Santa Paula, no Jardim Redentor.


•Ainda em abril serão iniciadas as reformas das Praças Espanha e Itália.



 

Comentários

Comentários