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Paciente sendo atendida em posto de saúde de Macatuba por médica cubana |
O Programa Mais Médicos do governo federal, lançado em 2013, trouxe para a região de Bauru, profissionais cubanos. Polêmicas à parte, todo tipo de críticas foram lançadas na época, especialmente por parte dos médicos brasileiros, os cubanos conquistaram os pacientes das pequenas cidades. Educação, atenção, carinho e diagnóstico preciso são itens usados pelos estrangeiros na ‘fase’ de conquista.
O programa já está em uma nova fase. Cerca de 92% das vagas preenchidas por brasileiros. Recentemente o ministro da Saúde, Arthur Chioro, disse que acha “pouco provável” um novo convênio com a Organização Pan-Americana de Saúde, responsável pela vinda dos médicos cubanos ao País e alvo de inúmeras críticas do Senado.
Desde o início do mês, tramita na Casa um projeto de lei, de autoria de dois senadores do PSDB, que visa anular um termo de ajuste com a organização (Opas), o que pode impedir a atuação dos médicos cubanos. Para as cidades da região que estão satisfeitas com a atuação dos médicos de Cuba, isso seria um desserviço, especialmente porque as consultas são mais humanizadas.
O atendimento dispensado pelos cubanos é elogiado pelos funcionários da saúde, pelos pacientes e pelos secretários. Um modelo a ser seguido, na opinião da coordenadora do Posto de Saúde João Damásio Machado, no Jardim São Vicente em Agudos, Lidinalva Alves Ruela conta que a profissional não recusa atender nenhum doente e faz com muita boa vontade, ainda que sua carga horária já esteja cumprida.
Ruela acredita que a médica tem olho clínico e diagnóstico preciso. Ela só requisita exames para confirmar diagnóstico. Não raras vezes, corrige trabalho de outros profissionais que medicam sem ter certeza do diagnóstico. “Ela pesquisa a vida da pessoa. Mede pressão e toca na pessoa. A cadeira do paciente saiu da frente da mesa e está ao lado.”
Precisão
A precisão do diagnóstico está influenciando positivamente na cidade de Macatuba. O secretário municipal da Saúde, Ricardo Verpa, ressalta que a consulta das cubanas vai de 15 minutos a uma hora. “Elas escutam muito os pacientes. Pesquisam a vida deles para saber exatamente o que está acontecendo. Elas tocam no paciente, outra característica das cubanas. Aqui em Macatuba nós temos uma boa percepção da medicina cubana.”
Em Lençóis Paulista, a população ficou receosa com a chegada das cubanas há um ano. Segundo o coordenador de auditoria da Diretoria de Saúde, Renato Baragadi Cassini, a população chegou até a duvidar que elas eram médicas. Mas a primeira impressão não se confirmou. Atualmente elas trabalham e são bem aceitas pelos usuários. Aprenderam a falar melhor a nossa língua e desempenham bem a função.
A mesma sorte não teve a cidade de Lucianópolis. Lá a médica cubana “fugiu.” Trabalhou bem por uns meses e depois apresentou uma queda no interesse pela função. Se isolou e em janeiro deste ano, simplesmente sumiu. A prefeitura da cidade ainda não sabe o paradeiro dela. O único posto de saúde aguarda um médico substituto para o cargo.
Moradores formam fila para consulta com cubana
Éder Azevedo |
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Médica Agneris Torres |
As médicas cubanas, que estão em Agudos (13 quilômetros de Bauru), estão mudando a relação médico-paciente. Na avaliação dos moradores entrevistados pelo Jornal da Cidade, as médicas tratam os pacientes com mais paciência, pesquisam mais a vida deles e fazem um diagnóstico mais preciso.
Ruth de Oliveira Torcinello, de 62 anos, paciente da médica Agneris Torres diz: “Venho aqui sempre que tenho problemas de saúde. O atendimento é bem melhor. Ela é muito educada, examina a gente dos pés a cabeça. Pergunta tudo sobre a minha vida e dá atenção a cada detalhe.”
A agudense se diz acolhida pela médica. “Ela tem um jeito diferente de tratar o paciente. Coloca a cadeira ao lado da mesa dela e toca na gente. Tem médico que, ao consultar, nem olha para o rosto nosso. Ela dá carinho e atenção. Tem casos que ela pede para os funcionários ligar ou visitar o paciente na casa para saber se ele está melhor.”
No Posto de Saúde João Damásio Machado, no Jardim Vicente, onde a médica trabalha, os funcionários também compactuam da opinião.
“Ela tem olho clínico. O diagnóstico é certeiro. A maneira como ela consulta é uma das maiores qualidades. O paciente entra na sala e ela mede pressão, toca onde dói, verifica garganta, ouvido, mesmo que a queixa seja outra. Os pacientes ficam muito satisfeitos”, comenta a coordenadora da unidade, Lidinalva Alves Ruela.
Não raras vezes, a médica ‘conserta’ diagnósticos errados, conta a coordenadora. “Uma paciente passou pelo pronto-socorro e disseram que ela estava com caxumba. No dia seguinte, a paciente veio aqui e ela examinou, olhou e disse que o problema era de articulação. Encaminhou o caso para o dentista. O inchaço não era caxumba.”
Na opinião da coordenadora, a chegada da cubana foi um acerto. “Tivemos êxito. Ela atende 30 pacientes/dia. Mas com a dengue, ela atende 40, quantos aparecerem. Tem muita boa vontade. Atualmente, quando abrimos o posto já tem pacientes para serem atendidos por ela.”
A médica Agneris Torres, 38 anos, explica que a adaptação dela foi rápida. “Não tive problemas com o clima, nem com a comida. Gosto de arroz com feijão. Tive algumas dificuldades com o idioma, com as gírias. Hoje, entendo tudo o que os pacientes dizem.”
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Éder Azevedo |
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Médica Agneris Torres conversa com Nayeli Carolina Felicio |
Pesquisa a vida
Nayeli Carolina Felício, 20 anos, prefere ser atendida pela médica cubana em Agudos. “Ela acertou comigo. Estou com problema de saúde. Ela conversa muito, pergunta tudo o que estou sentindo e só pede exames para confirmar. Ela é muito atenciosa.”
Patrícia Cristina Santana é outra paciente atendida pela médica cubana em Agudos. “O diagnóstico dela é preciso. Eu tinha dor de cabeça e ela pesquisou tudo, inclusive se não era da vista. Tem médico que nem olha para
a gente.”
População ficou receosa com a chegada das cubanas, em Lençóis
A população de Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru) ficou receosa com a chegada das três médicas cubanas, há um ano, comenta o coordenador de auditoria da Diretoria de Saúde, Renato Baragati Cassini.
“No início a população ficou reticente. Eles não sabiam como elas iam atender. Achavam que elas não entenderiam a nossa língua e não sabiam nada. Alguns até duvidavam que elas eram médicas de verdade. Um ano depois, a situação mudou. Só ouço elogios. A população aprendeu a lidar com elas e elas se esforçam para atender bem.”
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As médicas cubanas Carmen Rosa Garcia Ballester, Arelis Del Carmen Urbano Garcia e Deilys Cardenas Lugones atendem em Lençóis |
São três médicas: Arelis Del Carmen Urbano Garcia, Carmen Rosa Garcia Ballester e Deilys Cardenas Lugones, clínicas-gerais que trabalham com as equipes das Estratégias de Saúde. Optamos por colocá-las, inicialmente, com equipes onde haviam outros médicos. Mas elas se adaptaram bem. Estão falando bem o português. Uma delas já trabalhou sozinha numa unidade, sem outro médico acompanhando. Nunca tivemos uma queixa se quer, sobre qualquer procedimento ou atendimento. Pelo contrário, a população elogia muito a atenção e o carinho.”
As profissionais passaram pela Venezuela, antes de virem para o Brasil. “Elas têm experiência com atendimento. As três trabalham na Venezuela num programa bem parecido ao nosso. Para conhecer bem os nossos medicamentos, elas ficaram uns 30 dias na farmácia. Já se acostumaram com aqueles que são gratuitos. Antes delas começarem a trabalhar fizemos um intensivão com elas.”
Exatidão no diagnóstico fez cair o índice de exames
Cubanas só receitam remédios controlados em casos extremos, segundo secretário de Saúde
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Médica Rela Ramos Acosta e o secretário de Saúde de Macatuba, Ricardo Verpa |
Um diagnóstico mais preciso, um toque com as mãos e o uso de medicamentos e o pedido de exames somente quando é realmente necessário. É essa a percepção que o secretário municipal de Saúde de Macatuba (46 quilômetros de Bauru), Ricardo Verpa, tem das duas cubanas que trabalham na cidade. “Elas chegaram e não precisaram do acompanhamento de outro médico. Muito pelo contrário, tivemos boa percepção da medicina cubana. Os exames e encaminhamentos só quanto é realmente necessário pela conduta e avaliação médica delas.”
A boa avaliação das profissionais está resultando em reflexos positivos na farmácia e nos exames. “Os medicamentos tarja preta, elas só receitam após uma boa avaliação. Se detectam que a pessoa não precisa dele, elas cortam. A consulta delas é ótima. Os pacientes se sentem bem atendidos, acolhidos. A população vê com bons olhos tomar medicamentos somente quando necessário e fazer exames para confirmar patologia.”
Verpa diz que, pelo que observa e ouve dos pacientes, o foco dos médicos cubanos é a escuta. “É saber o que realmente o paciente tem. Elas colocam a mão no paciente, pedem para ele mostrar o que está acontecendo. Elas investigam mais a vida do paciente. Talvez por isso essa redução de exames de laboratórios.”
A consulta das médicas, segundo Verpa, é de 15 minutos a uma hora de duração. “O tempo de consulta delas é maior do que as dos médicos brasileiros. Varia de paciente para paciente. Há paciente que fica uma hora no consultório e a pessoa sai satisfeita. Já ouvimos muitas vezes que a médica descobriu o que ele tinha, medicou e acertou a medicação. É uma experiência positiva,” declarou Verpa.
O secretário acredita que o número de exames caiu e isso terá reflexos nas finanças. “Elas usam os exames para complementar o diagnóstico e não para definir. É certo que o número de endoscopia, ultrassom, tomografia, raio X e exames de sangue reduziram.”
Médicas em férias
As duas médicas que trabalham em Macatuba já completaram um ano de casa e tiraram férias. “Elas foram visitar a família em Cuba. Deixaram filhos, mãe, irmãos. A Regla Matilde de 62 anos tem mais experiência de vida e a Yaqueline Gonsales, 43 anos já havia morado na Venezuela, portanto foi fácil a adaptação delas na cidade. Não temos o que reclamar delas.”
Médica abandonou Lucianópolis
O ‘sumiço’ da médica Carla Isabel Peres Maceo é o ponto negativo do Programa Mais Médicos, mas moradores estavam gostando do atendimento
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Médica Carla Isabel Peres Maceo deixou a cidade sem dar nenhuma justificativa |
Nem todas as experiências com os médicos cubanos no Brasil deram certo. Na região, mais precisamente em Lucianópolis (50 quilômetros de Bauru), a médica Carla Isabel Peres Maceo, 27 anos, “fugiu”. Até o início da última semana, as autoridades da cidade não sabiam de seu paradeiro, enfatiza a diretora de Saúde, Eliane Colette Rocha.
A cubana trabalhou até janeiro deste ano e apresentou altos e baixos durante o tempo que clinicou na cidade. Segundo a diretora, nem o Ministério da Saúde sabe informar o paradeiro da profissional. “O Ministério da Saúde não sabe e nem o namorado dela que mora aqui sabe para onde ela foi. Que ela saiu de Lucianópolis temos certeza, mas não sei se ela continua no País.”
Atualmente, Lucianópolis aguarda a chegada de um médico que substitua a “fujona”. “Ainda não recebemos outro no lugar. A reposição deve acontecer este mês, estamos aguardando. Estamos precisando muito. Eu liguei no Ministério, falei com o coordenador. Queria que desta vez viesse um profissional do sexo masculino de meia idade, outro perfil. A Carla era muito jovem. Chegou aparentemente muito assustada, insegura. Elogiava muito o País e o programa Mais Médicos. Ficou deslumbrada com a liberdade. Causou uma enorme confusão.”
A médica foi um presente para a cidade, quando chegou no primeiro semestre de 2014, ressalta a diretora. “Ela veio somar aos demais médicos que temos na unidade. Com a chegada dela, tínhamos profissionais de segunda a sexta-feira das 6h às 22h. Foi um presente porque a cidade é pequena e temos dificuldade em trazer médico para morar aqui. Os outros médicos cumprem a carga horária e vão embora. Ela morava aqui.”
Dificuldade
A prefeitura alugou uma casa mobiliada para ela. O imóvel ficava a 100 metros da única Unidade de Saúde onde ela trabalhava. “Além do aluguel a prefeitura dava um auxílio alimentação de R$ 600,00/mês. Era moça inteligente, super comprometida inicialmente. Muito interessada. A população aceitou muito bem. Ela tinha dificuldade com a nossa língua e eu coloquei uma enfermeira na sala para ajudar. A adaptação foi rápida. Ela era educada, prestativa, envolvida com o trabalho.”
A cubana contou com o apoio de todos, ela atendia bem. “Foi um processo de ajuda mútua, tanto dos médicos como as equipes de saúde, a farmácia, todos ajudaram. No início, ela ficava na farmácia para entender um pouco sobre os medicamentos, tinha interesse em aprender. O diagnóstico dela era dentro da normalidade.”
A médica trabalhou bem até agosto quando os funcionários começaram a reclamar dela. “Ela se mostrava desinteressada. Quando terminava as consultas, ela se fechava na sala. Não se envolvia mais. Eu achava que era dela mesmo, afinal estava longe de casa. Em setembro teve uma reunião com o Ministério da Saúde e eu comentei com o coordenador do programa. Ele me disse que a chefe dela era eu. Na sequência, eu conversei com ela. Senti que ela não tinha gostado, mas melhorou.”
Em janeiro, em uma sexta-feira, ela ligou na unidade e informou que estava passando mal. “Com muita dor de cabeça, uma enxaqueca. Até as 13h conseguimos falar com ela. No sábado ela tinha um curso em Bauru. O motorista ficou esperando-a para levá-la e ela não apareceu. Nesse dia, o namorado dela apareceu e falou que ela não tinha melhorado. No domingo, o prefeito foi informado da fuga.”





