Tenho visto inúmeras manifestações de empreendedores nas redes sociais. Muitos chegam a exagerar, esquecendo-se que a atividade empresarial é considerada de risco, ou seja, não há garantias que haverá retorno ao capital investido. A maioria reclama da crise econômica e política. Independentemente desta constatação, o empreendedor brasileiro pode ser considerado, no mínimo, teimoso. Vamos nos concentrar nos empreendedores que optam pela abertura de uma empresa.
Estão em curso mudanças para abertura de empresas, notadamente as Pequenas e Médias Empresas, com o programa "Bem mais Simples". Até que haja resultados concretos, pois a promessa é abrir uma empresa em cinco dias úteis, na média leva-se mais de 100 dias para que uma empresa seja efetivada, tendo nada mais nada menos do que 13 procedimentos burocráticos para que isso ocorra. Primeira comprovação da teimosia do empreendedor: tempo para abrir uma empresa.
Após a abertura da empresa, o empreendedor se depara com os custos trabalhistas. Mesmo com a eventual desoneração da folha de salários, o custo não é baixo. A cada mês trabalhado o funcionário tem direito a 1/3 de décimo terceiro salário, depois de 12 meses, férias com acréscimo de 1/3. Lembrando que a jornada legal é de 8 horas diárias (podendo variar conforme as conquistas sindicais) e o controle é de quem emprega. No caso de um litígio, o ônus da prova é de quem emprega. Há as licenças maternidade, paternidade, nojo, gala, entre outras. Recolhimento ao INSS e ao FGTS. Com a figura da dispensa sem justa causa tem a incidência de multa rescisória. O aviso prévio é progressivo dependendo do tempo de registro. Isso tudo tem que ser muito controlado, pois, como colocado, o ônus da prova é do empregador.
Segunda comprovação da teimosia do empreendedor: a burocracia e o custo com pessoal. Depois o empreendedor se dá conta da carga tributária vigente. Pode ir do Simples Nacional ao mais sofisticado regime e, dependendo do porte e ramo de atividade, terá IPI, PIS, COFINS, ICMS, ISS, IRPJ, CSLL, INSS, FGTS, ou seja, uma sopa de letrinhas. Estima-se que no Brasil haja 64 tipos de tributos entre impostos, taxas e contribuições. Vida nada fácil para o empreendedor. Terceira comprovação da teimosia do empreendedor: elevada e burocrática carga tributária.
Em seguida, o empreendedor se depara com os custos financeiros. Mesmo que não deseje, será praticamente inviável não buscar algum recurso no sistema financeiro ou nas empresas de cartão de crédito. Taxas para ter a maquininha para venda em cartão na ordem de 3% a 5% do valor da compra. Juros de empréstimos para capital de giro situados entre 20 a 80% ao ano, dependendo da linha de crédito. Se utilizar o cheque especial ou conta garantida os juros podem ultrapassar os 150% ao ano. Percebe-se que boa parte do lucro é consumida pelos custos financeiros. Se isso tomar um volume elevado, não há como suportar este peso somente com as atividades operacionais. Vale salientar que qualquer empréstimo os bancos exigem avalistas, portanto normalmente os empreendedores assumem o compromisso com seu patrimônio pessoal.
Quarta comprovação da teimosia do empreendedor: custo financeiro nas alturas.
Poderia elencar outras variáveis, mas vou resumi-las no chamado custo Brasil, que nada mais é do que o custo da ineficiência brasileira, quer na qualificação da mão de obra, portanto, perda de produtividade, até investimentos em infraestrutura, passando pela burocracia das várias esferas de Estado. Isso tudo onera demais o produto brasileiro.
Evidentemente que o propósito deste artigo não é o de desestimular ninguém, mas é demonstrar àqueles que nunca arriscaram seu capital, nunca geraram empregos, que criticam e invejam os bem-sucedidos, aos políticos que pensam mais em si do que no coletivo, enfim, aos "rotuladores" de plantão, que o empreendedor brasileiro é um teimoso, diria, um herói, por acreditar que pode ajudar a gerar riquezas neste país. A crise econômica e, mais grave que ela, a crise política afetam diretamente o ânimo destes empreendedores, que querem somente uma coisa: tranquilidade para continuar a empreender. Empreendedor, continue teimoso e fazendo a diferença neste país que, felizmente, tem somente uma minoria que não quer nada com o trabalho árduo. Siga em frente e acredite que os obstáculos serão superados.
O autor é economista e articulista do JC