Polícia

Moto e celular: combinação de risco

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

A disparada no número de vítimas graves de acidentes de trânsito com motocicletas em Bauru tem preocupado as autoridades locais. Apesar da inexistência de estatísticas,  – cada vez mais frequente – uso de aparelhos celulares por condutores é apontado como um dos prováveis fatores responsáveis pelo problema.

De forma geral, o tráfego na cidade parece estar mais perigoso. Como já noticiado pelo Jornal da Cidade, embora o total de ocorrências tenha diminuído, a quantidade de acidentados em estado grave quase dobrou no primeiro quadrimestre de 2015 em relação ao mesmo período do ano passado. Desse grupo, sete em cada dez dirigiam ou estavam na garupa de veículos motorizados sob duas rodas.

Essas vítimas foram 43 entre janeiro e abril últimos; haviam sido 22 em 2014.

“O aumento de 100% nos assustou muito. Além disso, a participação dos acidentes com moto entre as vítimas graves é muito alta. Apenas 30% eram pedestres ou estavam em veículos de quatro rodas”, pontua o engenheiro da Emdurb, Nelson Augusto Neto.

Ele integra o Grupo de Apoio à Redução de Acidentes de Trânsito, que, já na semana passada, promoveu um bloqueio educativo voltado aos motociclistas.

Ao telefone

Além de instalarem antenas corta-pipa nas motocicletas que ainda não tinham o dispositivo, policiais militares e bombeiros, na ocasião, alertaram sobre o risco do uso do telefone por condutores.

“O celular diminui a atenção. Esse é o principal fator de risco. O trânsito está cada vez mais complexo, os espaços diminuem e os motoristas precisam estar concentrados”, observa o subtenente Vinicius José Silva, do Corpo de Bombeiros de Bauru.

Foi, aliás, a partir das observações de integrantes da corporação que atuam no resgate a vítimas, que o grupo antiacidentes passou a se atentar sobre o problema da combinação de risco.

“É normal que, quando chegam aos locais das ocorrências, os bombeiros encontrem os capacetes soltos, com os celulares jogados ao lado. Na maioria dos casos, no entanto, os envolvidos não admitem o uso do telefone enquanto dirigiam para não serem punidos com a multa por essa infração de trânsito”, relata Nelson, da Emdurb.

O engenheiro pondera que não é possível relacionar, categoricamente, o aumento dos acidentes graves à associação entre moto e celular, mas ressalta que ela é cada vez mais comum.

“Antes, era um ou outro que a gente via. Agora, é o tempo todo, em qualquer lugar”.


Nações: ponto crítico

A avenida Nações Unidas é a região que mais concentra acidentes graves com motocicletas. De acordo com a Emdurb, os pontos mais críticos estão nos cruzamentos com outras grandes avenidas, como a Nuno de Assis e a Rodrigues Alves, e com a rua Francisco Van Der Mas, no Jardim Contorno. O encontro da Nações Norte com a Moussa Tobias também preocupa.

O engenheiro Nelson Augusto Neto pontua outras práticas perigosas de motociclistas que aumentam os riscos de acidentes: “Isso de tentar aproveitar cada espaço entre veículos ou entre um veículo e a guia é muito comum. Em uma fração de segundo, o motorista de um carro pode desviar de um buraco e atingir a moto”.

Segundo ele, o Grupo de Apoio à Redução de Acidentes de Trânsito dará prosseguimento a ações de conscientização, por meio de painéis eletrônicos cedidos e faixas que serão expostas em diversos pontos nos quais é alta a frequência de ocorrências.


‘Jeitinho’ representa perigo em dobro

A maior parte dos motociclistas não fala ao celular enquanto dirige como os demais motoristas infratores. Eles acoplam o aparelho entre o capacete e a orelha e ficam com as mãos livres para pilotar seus veículos. O “jeitinho”, no entanto, torna a prática ainda mais perigosa, segundo especialistas.

Isso porque, para acomodar o telefone, os condutores deixam seus capacetes soltos e ficam mais vulneráveis em casos de acidentes.

“Os motociclistas devem amarrar bem esse equipamento de segurança essencial, inclusive fechando a viseira. Outro risco desse jeitinho é que o celular pode cair e o condutor se desligar da direção para tentar segurá-lo”, ressalta o engenheiro Nelson Augusto Neto.

Subtenente do Corpo de Bombeiros, Vinicius José Silva conta que, em deslocamentos, presencia recorrentes cenas de flagrante perigo provocadas pelo uso do celular. “Já vi gente tendo discussões bravas ao telefone, enquanto dirige”.

A prática, segundo ele, é ainda mais frequente entre entregadores, que usam o celular para se comunicar com empresas e clientes enquanto conduzem suas motocicletas.

Um dos motociclistas abordados pelo bloqueio do Grupo de Apoio à Redução de Acidentes de Trânsito na semana passada, que preferiu não se identificar, admitiu que, até pouco tempo atrás, costumava falar ao telefone enquanto dirigia, mas, hoje, aos 40 anos, age diferente. “Sempre que preciso atender alguém, estaciono. Mudei minha postura depois de ver alguns acidentes bem sérios provocados por gente que estava no celular”.


Digitando

Diferentemente dele, porém, muitos ainda não calculam o risco que correm e se tornaram ainda mais audaciosos com o advento da Internet no celular e dos aplicativos como o WhatsApp.

“Já vi alguns motoristas digitando enquanto dirigem. E não são apenas em motocicletas, mas também em carros e até bicicletas”

Quioshi Goto

Motociclista que pilota e fala ao celular ao mesmo tempo pode ter atenção desviada do trânsito

 

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