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Extorsão mediante sequestro virtual ou autoarrebatamento, expressões técnicas utilizadas pela Polícia Civil para designar os tão conhecidos “falsos sequestros” que ocorrem por meio de ligações telefônicas vindas de presídios em todo País. Palavras que denominam um tipo de crime cada vez mais frequente em Bauru, mas que a família de uma educadora física de 53 anos, moradora da Vila Falcão, só pensa em esquecer.
Após receber uma ligação informando o sequestro do filho de 15 anos e ouvir uma voz parecida com a do garoto – que participava de um jogo de futebol com os colegas em um bairro distante na ocasião -, a mulher (os nomes das vítimas foram preservados por questão de segurança) se desesperou e iniciou, a pé, uma “maratona” pela cidade, realizando operações bancárias e cumprindo exigências dos bandidos por telefone.
A mando dos criminosos, a educadora chegou a se hospedar sozinha em um hotel na zona sul, e ligou para o marido – que não sabia da informação sobre o suposto sequestro do filho – dizendo que era ela quem havia sido sequestrada.
Ao todo, a mulher passou mais de 21 horas a disposição dos criminosos. Desespero que resultou em prejuízo de quase R$ 10 mil reais.
A descoberta sobre o crime só ocorreu no dia seguinte, após a Polícia Civil ser acionada por um amigo do casal, que suspeitou do nervosismo do marido. Após rastreamento do celular, a mulher foi encontrada caminhando desolada pela região central de Bauru.
Investigação
O caso em questão ocorreu entre os dias 29 e 30 de maio deste ano, mas só foi divulgado ontem pela Polícia Civil, durante uma coletiva de imprensa realizada pelo Departamento de Polícia Judiciária do Interior de São Paulo 4 (Deinter – 4), Delegacia Seccional de Bauru e coordenadoria do Grupo Antissequestro do Deinter – 4, com o objetivo de alertar a população e conter o aumento desses tipos de casos com um protocolo de ação.
Após apuração posterior feita pela polícia, constatou-se que as ligações vinham de celulares de dentro de um presídio na região do Bangu 1, no Rio de Janeiro.
A partir daí, as informações sobre a extorsão foram repassadas à coordenaria na Capital, que atua, agora, junto à polícia do Rio para tentar identificar a quadrilha.
Subnotificação
Além desta ocorrência, apenas mais uma do mesmo tipo, registrada em dezembro do ano passado, alimentam as estatísticas em Bauru.
No entanto, o delegado Marcos Mourão, diretor do Deinter – 4, diz que este é um crime cada vez mais comum. “O sequestro de fato é inexistente em nossa região, mas essa modalidade de crime, de extorsão mediante sequestro virtual, vem aumentando”.
A realidade é confirmada pelo coordenador do rupo Antissequestro, Kleber Granja, que explica que os crimes de extorsão não precisam chegar ao ponto de resultar em prejuízo material para as vítimas, como no caso ilustrado, para serem registrados. “A grave ameaça em si já configura o crime”, completa Granja.
O problema, contudo, é que grande parte das vítimas que recebem ligações com esses tipos de golpes acabam não registrando boletim de ocorrência. “Por vergonha, a vítima não acaba registrando.Mas a subnotificação gera um grande prejuízo para o patrulhamento e para as investigações da Polícia Civil. Além de impedir a repercussão de estatísticas que poderiam contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas nessa área”, completa Granja.
Políticas que a educadora de 53 anos faz questão de cobrar das autoridades, ao lembrar ontem das diversas horas que passou sem desligar o celular com os bandidos. “Em nenhum momento, a ligação falhou ou caiu, mesmo vindo de um presídio. Isso é inadmissível”, critica a vítima.
Ameaça real
Apesar da situação ‘fictícia’ criada pelo bandido do outro lado da linha, o falso sequestro não tem nada de irreal.
“É uma violência psicológica que chega a ser mais grave do que uma violência física. Porque ela deixa marcas e traumas que demoram a ser tratados nas vítimas”, pontua o delegado seccional de Bauru, Ricardo Martines.
Ao incutir na vítima o desespero, o criminoso a mantinha ao telefone, impedindo-a de checar o paradeiro do filho.
Nervosa com pedidos de socorro, ela acabou falando o nome garoto e informações da família, fortalecendo, inconscientemente, o elo com o criminoso.
“A maioria das vítimas extorquidas são do sexo feminino, mães de filhos adolescentes”, alerta Granja.
Além disso, todos os comprovantes dos depósitos, feitos em contas “fantasmas”, ou seja, abertas com documentos fraudados, acabaram rasgados. “Eu olhava para o lado e parecia estar sendo observada por noias, por isso obedecia”, comenta a mulher.
Com a esposa incomunicável, o marido, que estava com o filho em casa e sem saber da ameaça inicial feita a esposa, passou a obedecer aos depósitos para a libertação da mulher.
Mais de 20 recargas de 100 reais para linhas telefônicas indicadas pelos criminosos, além de vários depósitos bancários de R$ 1.500,00 foram feitos.
Antes de desligarem o telefone pela última vez, os criminosos chegaram a informar a vítima que ela havia caído “em um trote”.
Segundo Kleber Granja, este tipo de ação está tipificada como crime de extorsão e não como golpe de estelionatário. “Com a ameaça real, o protocolo é tratar o caso como se o sequestro fosse verdadeiro. Por isso, é importante manter o sigilo das diligências e investigações”, reforça o delegado.
‘Nem cadastros em lojas eu faço mais...’
Quase quatro semanas após ser vítima do crime, a educadora diz que ainda enfrenta dificuldades para levar a vida normalmente após o trauma vivido nas 21 horas que passou a disposição dos bandidos por acreditar que seu filho mais novo estava sequestrado. “Não atendo mais ao telefone se for número desconhecido, não faço mais cadastros em loja... não dou meu telefone e da minha família para ninguém”, comenta a professora.
Com dificuldade de sair de casa sozinha para tarefas antes rotineiras, ela também cita que tem frequentado sessões de acompanhamento psicológico para lidar com situação. “O que eu passei, não desejo para ninguém”.
Não caia nesta cialda!
A Polícia Civil dá algumas dicas de ação para evitar que mais pessoas caiam em crimes como este: ao receber uma ligação de um desconhecido, desconfie; não passe informações sigilosas ou de dados pessoais que o identifique ou a um de sua família; duvide do choro simulado de uma criança durante a ligação; não acredite de pronto que seu filho pode ter sido sequestrado; não fale nomes; desligue o telefone; imediatamente busque ajuda para localizar esse seu familiar; fale com outros familiares, pessoas do trabalho, da escola, entre outros; não se desespere; não obedeça às ordens do criminoso; não se isole; não se mantenha incomunicável; avise alguém sobre o que está acontecendo e comunique a polícia imediatamente; tente contato telefônico ou pessoal com esse seu familiar.
Serviço
Suspeitas de extorsão mediante sequestros virtuais devem ser comunicadas à Polícia Civil, por meio do telefone 197, ou para a Polícia Militar, pelo 190.
