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Não jogue fora a sua indenização

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

Olhando a movimentação do comércio e dos bancos observa-se uma calma que contrasta com o que se fala e se escreve nos meios de comunicação. As notícias de aumentos nas contas de luz e de água, nos planos de saúde, nas escolas, nas passagens de ônibus e nos pedágios, nos remédios, nas compras nos supermercados e nas lojas são motivos apenas para comentários como: as coisas estão ficando cada vez mais caras. Dia a dia está havendo demissão de empregados, mas, por enquanto, tem ficado no nível de comentário expressando preocupação e, para alguns, a ilusória oportunidade de receber algum dinheiro com a indenização e ficar independente, trabalhando por conta própria. Nem mesmo parece haver receio entre aqueles que assumiram compromissos de longo prazo, na compra de casa própria e de automóveis.


Essa situação tem o seu lado bom, porque reflete a esperança de que o País será capaz de superar essas dificuldades, como já fez em outras ocasiões e dias melhores virão. Também reflete o amadurecimento da sociedade, que se sente capaz de encontrar soluções dentro do regime democrático e de garantias legais, como vem fazendo com prisão e julgamento de muitos que se aproveitaram da situação de descalabro governamental, para se enriquecer de forma ilícita  ou manter-se no poder. Não foi à toa que o País entrou em dificuldade, depois de ter iniciado um novo período de desenvolvimento. Foi a combinação espúria do desejo de poder com a ganância econômica que se apoderou da administração pública, dilapidando o erário público e a empresa orgulho do Brasil, a Petrobras.


Apesar desse aspecto de calma, o avanço de um período de dificuldades, que não serão pequenas, está a exigir mudanças de atitudes. Quando se olha para frente e se vê que os ganhos de dinheiro não estão acompanhando os aumentos dos gastos, ou que vão diminuir, ou mesmo parar, como acontece com a perda do emprego, é preciso preparar- se para que a situação seja contornada ou não fique mais grave. Há coisas a se fazer e há coisas a se evitar. A se fazer: diminuir ou evitar gastos com coisas dispensáveis, substituir produtos ou marcas por outros mais econômicos, adiar compras sem necessidade urgente, enfim, conter os gastos. A se evitar: fazer empréstimos, remontar saldo do cartão de crédito, usar o limite do cheque especial, enfim, assumir dívidas sabendo que não poderá pagar.


Entre as coisas a se evitar está o mau uso do dinheiro da indenização e do FGTS. Esse dinheiro pode ser a garantia de que a família não passará fome enquanto não se encontra outro emprego, mas pode ser um perigo de jogá-lo fora numa aventura mal planejada de negócio próprio. O empreendedorismo virou termo da moda, mas há uma diferença muito grande em aprender o que é empreendedorismo e ser empreendedor. É mais fácil encontrar um empreendedor bem sucedido, que nunca ouviu falar nisso, do que encontrar um sabido de empreendedorismo que tenha se saído bem nos negócios. Steve Jobs, fundador da Apple virou um ídolo; Mark Zuckerberg, do Facebook é outro admirado; Abílio Dinis, fundador do Pão de Açúcar, Luiz Seabra, da Natura; Alexandre Costa, da Cacau Show são grandes empreendedores, como existe uma infinidade de outros, mas mesmo assim, num mundo de 7,3 bilhões de habitantes eles ainda são um número muito pequeno.


Não estamos dizendo isso para criar desânimo, mas apenas como uma advertência para evitar uma aventura impensada. As pessoas de mais idade devem lembrar-se do “Engenheiro que virou suco”, de 1982. Em crise econômica dessa época, um engenheiro mecânico que perdeu o emprego, depois de perder a esperança de se recolocar, montou uma lanchonete com esse nome na Av. Paulista, tendo mais sucesso do que na profissão. Na parede da lanchonete colocou o diploma de engenheiro e o registro do CREA. Casos bem sucedidos como esse e desejo de ser dono do próprio negócio estimulam empregados a se aventurarem quando recebem algum dinheiro extra, mas o número de fracasso é muito grande. O sonho vira mais que um pesadelo, pelo sentimento do fracasso e por aumentar a dificuldade da família. Para evitar esse desastre há instituições que podem orientar e, em alguns casos, assessorar, como o Sebrae, Senai, Senac e escolas de administração. É melhor procurá-las para não se meter numa aventura desastrada.


O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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