Tribuna do Leitor

"Finlândia 7, brasil 0, na educação"

Antonio Carlos Azevedo dos Santos
| Tempo de leitura: 3 min

Sem alarde, como é do seu estilo, a Finlândia, símbolo da excelência no ensino, lidera o movimento global para revolucionar a sala de aula e criar as bases da escola para o nosso tempo. Mesmo tendo dado ao mundo os celulares Nokia, o destino da Finlândia não é ser famosa.


A revolução educacional gestada nas escolas de lá está silenciosamente lançando as bases da educação que vai ajudar a moldar o ensino em todo o mundo no decorrer deste século. Este país que se notabilizou como um dos melhores do mundo na educação, mas que mesmo assim, já finca os pilares do ensino do futuro. Fale com qualquer professor de lá, da 1ª série à universidade, e ouvirá, como uma bem orquestrada sinfonia: precisamos de uma escola que leve os alunos ao limite de suas potencialidades, que os prepare para um mundo cada vez mais globalizado e os ensine a se adaptar ao novo, a se virar diante do inesperado, a criar e a inovar. Que a lição se faça ouvir por aqui, onde agora se debate justamente o primeiro currículo escolar brasileiro.


O primeiro desafio, o que ensinar a crianças que não necessitam mais do saber enciclopédico, já que tem acesso à informação de qualidade ao toque do mouse, mas devem ser talhadas para enfrentar problemas que nem sequer se imagina quais serão ? “O aluno precisa aprender a aprender, porque a toda hora surge um conhecimento novo e relevante no planeta”.


Houve consenso de que é preciso preservar os conteúdos essenciais, ter coragem para eliminar o resto e dar lugar na escola ao desenvolvimento de habilidades, capacidade de produzir em equipe, abertura ao risco e criatividade. Os conceitos básicos de cada matéria continuarão com metas claras e elevadas, ainda que as fronteiras entre elas fiquem flexíveis, diz Leena Maija Niemi, vice-diretora da escola Kasavuori.


Na abordagem de “aprendizado baseado em projetos”, professores de várias áreas planejam aulas juntos. Não se põem à frente da classe a ministrar intermináveis aulas expositivas. Vão de mesa em mesa, resolvendo dúvidas e renovando desafios.


Não espere encontrar na Finlândia a rigidez típica de outros campeões do ensino, como Coréia do Sul ou China. Nestas bandas da Escandinávia, a rotina escolar é mais suave, com jornadas de cinco horas e lição na medida certa para sobrar tempo para relaxar. Os novos tempos são de conhecimento em rede, uns colaborando com os outros, como nas rodas acadêmicas, como também é visível a mudança na condução da aula pelo professor, que às vezes nem mesa tem.


O segredo está em não achar que flexibilidade é o mesmo que anarquia. A tarefa de saber qual conteúdo deve sobreviver não é simples, mas vem sendo testada com sinais de sucesso, e não só na Finlândia, mas também no Canadá, no Japão, com conteúdo enxuto e espaço para aprimorar habilidades, persistência e criatividade. Mas um ponto ninguém mexe: ler um livro por semana foi,  é  e sempre será, sagrado. E o Brasil nisso?  


Em pesquisa realizada com 7 itens o Brasil perdeu por 7 x 0 para a Finlândia, enquanto países como Finlândia e Austrália revisam seu currículo a cada dez anos e a Coréia do Sul já cravou a sétima edição, o Brasil não tem nenhum. Isso mesmo, estamos no século XXI sem um consenso nacional sobre o que o aluno deve aprender a cada ano em cada disciplina.


A principal razão para tão profundo atraso é de cunho ideológico, confundem até hoje estrutura com camisa de força. O ministro Mangabeira Unger, disse, acertadamente: “A tradição no Brasil é de enciclopedismo raso”. A proposta conduzida por ele mira diminuir quantidade em prol de profundidade. Por exemplo, saber ler e interpretar e afiar o raciocínio lógico. Como  professores que tropeçam no básico darão conta da transição para algo que  só agora países bem mais evoluídos no ensino estão fazendo? Precisamos de estabilidade política, econômica e ideológica para implantação deste sistema. Olhar para eles (Finlândia, Canadá e Austrália) pode ajudar o Brasil a deixar a própria zona glacial, a dos últimos do mundo na educação.

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