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?Acabei de descer do futuro?

Archimedes Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Esta frase foi proferida pela presidente Dilma aos jornalistas que cobriam sua viagem aos EUA, tão logo acabou de fazer um tour a bordo de um carro desenvolvido pela Google, na Califórnia.


Esta frase é emblemática por vários motivos. Matéria da Folha de São Paulo (1/7/2015) traz uma série de afirmações da máxima mandatária brasileira que nos deixa enrubescidos. Ao sair do veículo autônomo, que se desloca sem a necessidade da intervenção do condutor, disse: “É um nível de desenvolvimento que eu não imaginei que houvesse”. “É absolutamente fantástico”. Pasmem! O desenvolvimento desse tipo de veículo é relativamente conhecido no mundo inteiro, pois há sempre matérias na mídia informando o seu nível de desenvolvimento. Parecia um capiau no sertão quando chega à cidade grande e fica estupefato com o que vê.


Diante do atual desenvolvimento da engenharia, mecatrônica, informática, telecomunicações com que nos deparamos cotidianamente, a presidente comenta: “Você tem a impressão de que vai ser uma coisa insegura, mas não é”. Guardada as proporções, poderíamos perguntar se ela sabe que os trens do metrô de São Paulo são operacionalizados por computadores. Sua aceleração e a frenagem são feitas sem a intervenção humana. O condutor opera apenas a abertura e o fechamento das portas.


Estas expressões da presidente só nos deixam envergonhados, pois faz-nos sentir habitantes de um país do terceiro mundo, que desconhece o avanço da tecnologia em nível mundial e, por que não dizer, no Brasil. No entanto, mais graves são outras afirmações, que mostram como o nosso “trem está fora dos trilhos”. A presidente, ao se deparar com veículos autônomos, ainda segundo a Folha, “pensou em como eles podem mudar o transporte público mundial”. Disse, além: “Eu estou ainda no futuro, não faça isso comigo”, quando uma repórter lhe questionou sobre o presente. Outra afirmativa é ainda mais preocupante: “Acabei de descer do futuro”. Isto sugere que ela considera que esta “evolução do carro” venha, no futuro, a ocupar o espaço hoje abocanhado pelos “veículos do passado”.


O mundo discute a situação crítica do meio ambiente, inclusive este foi um dos temas de suas conversas com o presidente Obama. Um dado preocupante da Cetesb, em São Paulo, os gases veiculares respondem por 90% da poluição atmosférica. Mas o problema dos automóveis vai além. É uma questão de física. Não cabem mais carros nas ruas, com grandes congestionamentos, antes restritos às grandes cidades, porém, se tornou comum nas médias.


Portanto, o minicarro, o elétrico ou o autônomo não são alternativas viáveis para os problemas de transportes. São ainda uma tentativa de dar sobrevida ao veículo individual motorizado, quando na verdade a solução está no transporte coletivo de qualidade. O Brasil tem a Lei 12.587/12 - Política Nacional de Mobilidade Urbana, que apregoa que deve haver “prioridade dos modos de transportes não motorizados sobre os motorizados e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado”. Portanto, o futuro está no transporte coletivo e não no veículo autônomo, sugerido pela presidente. Fica caracterizada a falta de liderança do governo brasileiro na questão do transporte sustentável. Talvez seja por este motivo que o transporte coletivo não “decola” em direção ao futuro!


O autor é professor da UFSCar, doutor em Engenharia de Transportes e especialista em trânsito, diretor de Mobilidade da Assenag e articulista do JC.

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